Semana On

Quarta-Feira 25.mai.2022

Ano X - Nº 488

Entrevista

‘Eleição de 2022 é uma batalha de todos contra Bolsonaro’, diz Raphael Tsavkko Garcia

Se por um lado derrotá-lo é um dever de primeira grandeza, por outro o PT é parte do problema que explica a falta de alternativas afirma o jornalista e articulista

Postado em 24 de Janeiro de 2022 - João Vitor Santos – IHU

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“O processo eleitoral de 2022 se tornou uma batalha de todos contra Bolsonaro e nada mais”. É assim que o jornalista Raphael Tsavkko Garcia resume o cenário da política nacional. Para ele, todas as experiências vividas por momentos como Junho de 2013 e mesmo a Operação Lava Jato acabaram tragados por uma elite que surfou nessas ondas e depois foi para outras praias. O resultado é que tudo tem se resumido a disputas polares e ausência completa de projetos para o Brasil. “Se por um lado derrotar Bolsonaro é um dever de primeira grandeza, por outro o PT é parte imensa do problema que explica a falta de alternativas”, observa.

Crítico contumaz do atual governo, mas também de uma esquerda que foi desnutrida pelo PT e pelo lulismo, Garcia analisa: “sem dúvida derrotar Bolsonaro é uma tarefa importante, talvez a mais importante, mas qualquer um que assuma estará apenas governando por inércia e sem qualquer tipo de projeto – e isso vale especialmente para a esquerda que cada vez mais se afastou de suas bandeiras históricas”.

Para ele, derrotar a figura de Jair Bolsonaro não significa o fim do bolsonarismo e muito menos de uma extrema-direita. “Assim como nos EUA, onde pesquisas mostram que Trump já é favorito para as próximas eleições e a extrema-direita tomou de assalto o Partido Republicano, no Brasil o extremismo de direita garantiu seu lugar ao sol e não vai retroceder. Pelo contrário, vai se aproveitar do discurso antipetista que voltará a ser seu principal argumento”, compara. Isso também porque aquela mesma elite conservadora que citamos no começo do texto parece já ter escolhido a sua nova onda. “Moro surge como uma terceira via com capacidade para quebrar a dualidade – mas no fim ele é apenas uma faceta da extrema-direita hoje bolsonarista e assumiria seu lugar. Nem à direita e nem à esquerda existem, hoje, alternativas efetivas à dualidade lulismo versus bolsonarismo. Tampouco vemos qualquer tentativa real de construção dessas alternativas”, reflete.

Mesmo se mostrando muito pessimista com o Brasil de hoje e com o que se projeta para 2022, ele não deixa de manifestar um desejo. “Urgente seria, apesar do calendário eleitoral, que a esquerda (e mesmo a centro-direita, os liberais) fosse(m) capaz(es) de propor algo novo, de se livrar de ranços autoritários, de discursos do século passado como stalinismo, do lulismo e do identitarismo e buscasse uma forma de propor pautas de inclusão efetivas, mudanças reais e de se mostrar aberta ao diálogo e ao novo”, aponta.

Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e doutor em Direitos Humanos pela Universidad de Deusto, na cidade de Bilbau, no País Basco. Nessa mesma universidade, desenvolveu pesquisa sobre a Diáspora basca na Argentina, com foco em Long Distance Nationalism, Transnacionalismo, Mídia Social, Cibercultura, Comunidades Imaginadas e a relação transatlântica entre a política da Homeland através da internet e a atividade política de grupos de esquerda nacionalista (Abertzale) no país da América do Sul. Ainda possui graduação em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –PUCSP e mestrado em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. Jornalista freelancer, escreve sobre política internacional, direitos humanos (racismo, feminismo), política espanhola (particularmente basca/catalã) e política brasileira, conflitos internacionais, questões ligadas a minorias étnicas. Ainda desenvolve trabalhos jornalísticos sobre cultura, especialmente da América Latina.

 

Em 2017, em entrevista ao IHU, o senhor dizia: “vivemos uma crise na intelectualidade brasileira”. Superamos ou aprofundamos essa crise?

A crise da intelectualidade tem acompanhado a situação política do Brasil como um todo, ou seja, está cada vez mais enterrada em um profundo buraco. Em 2017, eu disse que a situação do Brasil era “desesperadora e com poucas possibilidades de vermos uma luz no fim do túnel no curto e médio prazo,” e acredito que, infelizmente, estava certo – e continuo certo.

Não se trata apenas da vitória de Bolsonaro – que em 2017 eu já apontava como “verdadeiro apocalipse” – mas da própria esquerda que se mostrou e se mostra incapaz de pensar em alternativas dentro de sua imensa crise. Chegamos ao fim de 2021 com um cenário muito parecido ao de 2017: falência ideológica de PSDB e PMDB, extrema-direita enquanto representação de um apocalipse (e as mais de 600 mil mortes por Covid deixam isso claro), e na esquerda o PT novamente apostando em Lula e incapaz de assumir sua responsabilidade pela situação política em que nos encontramos – e o PSOL sempre em seu papel de linha auxiliar. Não nos movemos, ou melhor, apenas seguimos caindo para o fundo de um poço sem fundo.

O que vemos hoje é a mesma disputa eleitoral em que cada lado tenta provar que é mais pura enquanto se nega a reconhecer qualquer erro. O mesmo de sempre. O PT segue tentando montar suas alianças com todos os que até ontem acusava de serem criminosos, golpistas, fascistas ou genocidas e busca afundar qualquer alternativa à centro-esquerda que não seja o próprio PT. Não aprenderam nada e mais uma vez se esforçam para ajudar Bolsonaro dentro da lógica do “segundo turno ideal” que foi ferrenhamente defendida durante a eleição passada – tendo no stalinista Breno Altman um de seus mais ardorosos defensores.

Se é fato que existem diferenças em relação à eleição passada – hoje a “terceira via” seria o ex-juiz Sérgio Moro -, o comportamento da esquerda segue o mesmo.

Ainda sobre essa ‘crise’ e sua face atual, podemos considerar que essa é uma realidade somente brasileira?

Longe disso. Vemos por todo o mundo a extrema-direita ampliar sua força e presença em parlamentos e governos. O Brasil não é uma ilha, mas sofre os efeitos de uma crise mundial em que aqueles mais próximos ao centro acabam sendo incapazes de se diferenciar ou de propor alternativas efetivas ou responder aos anseios populares. Por mais que cada país e região do mundo tenha(m) suas especificidades, a crise tem poupado poucos.

Muitos países viram em anos passados o crescimento de alternativas de esquerda à agenda política de centro-direita (que muitos chamam de neoliberal) que não foram capazes de mudar a lógica vigente, muitas vezes tendo sucumbido e passado a defender as mesmas políticas e medidas, mas com um discurso que apenas na teoria parecia diferente – em alguns casos nem isso. Em outros casos tivemos o surgimento ou fortalecimento de regimes de esquerda autoritários (particularmente na América Latina, como na Venezuela e Nicarágua) que estão longe de ser uma boa propaganda.

O mundo pós revoltas árabes, Parque Gezi, Junho de 2013, Indignados e afins acabou dando uma volta completa.

Na sua crítica à intelectualidade brasileira, há uma ênfase em dizer que muitos intelectuais seguiram o PT de forma acrítica. Em que medida isso pode ser relacionado com a crise que vivemos hoje nas universidades? Há, ainda, pontos que tocam as crises no Ministério da Educação e organismos como a Capes ou falamos de coisas distintas?

Um intelectual deve, por excelência, ter liberdade para pensar, criticar e propor alternativas. A partir do momento em que se tornam mera massa de manobra de um partido, deixam de ser intelectuais para serem meros repetidores de cartilhas partidárias.

Junto a isso, a tática petista pós-2013 de bancar o discurso radical identitário (que nos EUA é chamado de “Woke”) como forma de neutralizar movimentos sociais e de impor um clima de medo diante do perigo de cancelamento ou ostracismo diante dos pares (particularmente nas universidades) acabou por impedir ou ao menos limitar a possibilidade da esquerda de pensar livremente e propor algo que saísse da mesmice.

Basta observar o discurso corrente do PT e de Lula que não apresentam nada de novo, mas tão somente a promessa de um retorno ao período Lula (desprezando completamente o cenário internacional e o fato de que não estamos mais no começo do século) e de que isso seria suficiente. Talvez seja – para que Lula se eleja -, mas dificilmente resolverá os conflitos e problemas do país, sejam eles econômicos, sejam eles sociais. Uma máquina do tempo não é solução e ao menos desde 2013 não se pensa mais na esquerda como motor de mudanças, mas apenas de administração da crise.

É importante mencionar que a crise da intelectualidade é um fenômeno global e se dá em parte pela pressão feita por grupos identitários para impedir que se formulem novas ideias e busque-se solução para problemas sociais. Uma das principais características da militância identitária é a de jamais buscar alterar em nada a realidade e as mazelas que apontam sob pena desses mesmos militantes perderem sua relevância e proeminência.

São indivíduos e coletivos que tomaram de assalto movimentos sociais com o objetivo de conseguir cargos, posições, emprego, fama e atenção através de policiamento de pensamento e linguagem, de tentativas de cancelamento e ostracismo e com uso de novilíngua, manipulação e fake news. E o PT soube (e sabe) se aproveitar.

Em que medida essa crise da intelectualidade brasileira impõe desafios ao processo eleitoral de 2022? Em exemplos práticos, como esses desafios têm se materializado hoje?

Como comentei antes, a pressão partidária e a pressão identitária acabou por inviabilizar que efetivamente se pensasse em alternativas para o país desde a esquerda. O processo eleitoral de 2022 se tornou uma batalha de todos contra Bolsonaro e nada mais. Sem dúvida derrotar Bolsonaro (mas não a extrema-direita, já que essa segue forte no parlamento e enquanto ideologia, assim como está junto ao principal candidato da chamada terceira via, Moro) é uma tarefa importante, talvez a mais importante, mas qualquer um que assuma estará apenas governando por inércia e sem qualquer tipo de projeto – e isso vale especialmente para a esquerda que cada vez mais se afastou de suas bandeiras históricas.

É curioso pensar que a possibilidade de usar o exército para ocupar favelas, que a Força Nacional, que a lei antiterrorista que a todo momento tentam moldar para criminalizar movimentos sociais etc. tenham sido obras não da extrema-direita, mas do PT e da esquerda. E é esse mesmo PT que deve voltar ao poder em 2022 sem ter absolutamente nada novo para apresentar.

A hegemonia petista, retomada pós-2013 com o esmagamento das ruas e cooptação - particularmente pós-impeachment - com uso pesado de discurso identitário, acabou por enterrar uma chance de ouro da esquerda buscar se reinventar e apresentar novos projetos para o país e para a sociedade. Estagnamos.

Voltemos à entrevista de 2017. O senhor disse que situação do Brasil era “desesperadora e com poucas possibilidades de vermos uma luz no fim do túnel”. E agora, já vemos essa luz?

Não, e nem estamos perto disso. Pelo contrário. E a possível vitória do PT em 2022 não ajuda em nada que enxerguemos uma luz no fim do túnel. Se por um lado derrotar Bolsonaro é um dever de primeira grandeza, por outro o PT é parte imensa do problema que explica a falta de alternativas.

Bolsonaro derrotado não significa que a extrema-direita irá recuar. Assim como nos EUA, onde pesquisas mostram que [Donald] Trump já é favorito para as próximas eleições e a extrema-direita tomou de assalto o Partido Republicano, no Brasil o extremismo de direita garantiu seu lugar ao sol e não vai retroceder. Pelo contrário, vai se aproveitar do discurso antipetista, que voltará a ser seu principal argumento.

Isso não seria em si um grande problema se a esquerda tivesse, desde 2013, sido capaz de criar novos quadros e preparar uma alternativa ao PT. Mas não foi, não quis e hoje o que a esquerda mais produz é o discurso autoritário de grupelhos que se colocam como representantes de minorias.

Ao autoritarismo do PT durante seu governo (Lula e Dilma) com repressão pesada e violenta à Junho de 2013 e protestos contra Copa e Olimpíadas, Belo Monte e outros episódios, temos agora (também) o autoritarismo de grupos universitários e infiltrados em movimentos sociais ganhando apoio e espaço desproporcional da mídia que criam dificuldades para a própria esquerda, além de argumentos para a direita ampliar sua força e presença.

E por direita me refiro inclusive aos que estarão ao lado do PT ganhando ministérios, cargos e verbas enquanto se juntam à repressão de quem ousar ir às ruas reclamar da situação – algo que veremos cada vez menos dado o nível de cooptação e neutralização de movimentos sociais pelo PT e por identitários à serviço do PT ou de partidos submetidos a ele.

O senhor também disse, em 2017, que Junho de 2013 e a Lava Jato abalaram as estruturas políticas no Brasil. Como analisa a forma como esses dois acontecimentos foram lidos pelas elites? O que veio depois desses dois grandes abalos e como ainda nos impactam hoje?

Se Junho de 2013 foi neutralizado pelo PT, a Lava Jato foi neutralizada pelo Bolsonarismo, que mastigou e depois cuspiu fora figuras como Moro. Não que tenham deixado de ter alguma influência social – particularmente o lavajatismo, que ainda segue vivo com Moro enquanto suposta terceira via –, mas é sem dúvida muito menor do que outrora.

Bolsonaro soube usar a Lava Jato e depois deixá-la morrer ou se enfraquecer, mas ainda vamos observar a capacidade do lavajatismo se reerguer quando começar a campanha eleitoral para valer, e é fato que as recentes ações da justiça em anular condenações de diversos políticos corruptos mostram que o lavajatismo terá dificuldades em retomar sua força.

Quanto às elites, eu as vejo com posição ambivalente. Se começaram criticando 2013, passaram a enxergar ali uma forma de impor um discurso como jamais haviam conseguido – vide MBL e outros movimentos que passaram a ocupar as ruas junto ou como consequência da repressão (nas ruas, na academia e como discurso) em grande parte patrocinado pelo PT – , e do outro lado, se a elite começou ao lado da Lava Jato como forma de minar o PT (envolvido até o pescoço em escândalos de corrupção), esta passou a apoiar e agir pela neutralização da onda de combate à corrupção uma vez que ela própria poderia se tornar alvo.

Isso, claro, diz menos sobre 2013 e a Lava Jato do que sobre a elite. No fim das contas, os dois fenômenos foram usados, apropriados pela elite quando lhes interessava e depois descartados.

O processo eleitoral pelo qual o Brasil passará em 2022 vem depois de transformações tecnológicas e de redes sociais, avanços da extrema-direita no mundo e ondas de neoconservadorismo - e até mesmo uma pandemia global. Como esses elementos incidem sobre a política do século XXI? De que forma podemos ver esses elementos no Brasil de 2022?

É interessante pensar que as redes sociais foram extremamente importantes para o espalhamento da onda de protestos de esquerda, progressistas e populares da década passada ao mesmo tempo em que são fundamentais para a tomada de assalto, hoje, da extrema-direita. E isso em nível global, mas se repetindo no Brasil.

No Brasil, temos uma particularidade. Por mais que as fake news não sejam exatamente uma novidade, o partido que começou a usá-las de forma mais pesada foi o PT. Tanto contra seus inimigos quanto internamente, para manter a militância engajada e o resto da esquerda em cheque. O ano de 2013 foi paradigmático – militantes pagos pela CIA, Black Blocs fascistas, tentativa de golpe estrangeiro etc. –, mas o PT usou pesadamente o expediente das fake news através de suas redes como os MAV ou os BlogProg, além de meios como DCM, Brasil 247 e afins, que até hoje se especializaram em espalhar mentiras e desinformação pela rede.

O que Bolsonaro fez foi se apropriar dos métodos petistas e criar sua bem-sucedida rede de blogs, perfis, bots e ativistas e, aí, se espelhar em Trump com uma agenda de extrema-direita. Ou, na verdade, seria mais correto dizer que a extrema-direita se juntou em torno de Bolsonaro, já que este tem pouca ou nenhuma capacidade de mobilizar tamanha rede.

O ano de 2022 será, como a eleição passada, disputada pesadamente na internet e novamente veremos a enxurrada de fake news tomando conta e até com agências de fact-checking se mostrando pouco confiáveis – basta lembrar há poucos dias como a Agência Lupa espalhou uma série de fake news sobre termos “racistas”, que na verdade não o eram, porque resolveu replicar o discurso fanático e nonsense da militância identitária.

Se não podemos confiar nem em quem deveria checar notícias... As próximas eleições possivelmente serão as mais sujas até então.

Em uma eventual derrota de Bolsonaro em 2022, o que há de vir do bolsonarismo?

O bolsonarismo – se entendermos como uma materialização ou unificação da extrema-direita – seguirá mais vivo do que nunca. Não terá o mesmo peso parlamentar (já que parte do poder de Bolsonaro vem do chamado “Centrão” e este sempre apoia quem tem a chave do cofre), mas sem dúvida terá solidificado uma forte presença online, uma rede ampla e uma base política não desprezível. Terá a dificuldade de conseguir fazer surgir um novo nome que consiga manter toda esta estrutura unificada e funcionando, mas sem dúvida enquanto campo ideológico seguirá forte.

O desafio da extrema-direita, caso Bolsonaro perca, será o de conseguir manter sua unidade e encontrar uma nova liderança. Não é tarefa fácil, mas tampouco impossível. O fato é que as bases já existem, a rede de fake news e desinformação existe e a possível vitória de Lula dará nova força, e veremos o discurso antipetista ressurgir como unificador.

Infelizmente a esquerda seguirá presa ao discurso identitário, de um lado, e ao petismo, que seguirá buscando esmagar qualquer alternativa do outro (ou, na verdade, estamos falando da mesma coisa). Claro que existe uma possibilidade ínfima de que o criador seja devorado pela criatura e, no poder, o PT não seja capaz de sustentar o discurso radical identitário e a base acabe rachando, mas sem uma real alternativa a ambos, isso pode ser mais prejudicial que benéfico à esquerda.

O que há de comum e distinto entre lulismo e bolsonarismo? É possível, já a partir de 2022, superar essa dualidade?

Por mais que existam diferenças enormes, ambos se centram em um discurso autoritário (em graus diferentes na prática) ausente de projeto sustentável e sem compatibilidade entre discurso e prática. Ambos dispostos a se vender ao “Centrão” (seja por necessidade, seja por conveniência) e a fazer de tudo para se sustentar no poder, que vem antes de qualquer efetivo comprometimento ideológico. Uma diferença fundamental talvez seja o fato de que Bolsonaro é mais uma cria da extrema-direita, ou seja, ele é uma figura que unifica, mas não necessariamente controla, ao passo que Lula é a figura que centraliza e unifica – com autoritarismo – a esquerda.

Moro surge como uma terceira via com capacidade para quebrar a dualidade – mas no fim ele é apenas uma faceta da extrema-direita hoje bolsonarista e assumiria seu lugar. Nem à direita e nem à esquerda existem, hoje, alternativas efetivas à dualidade lulismo versus bolsonarismo. Tampouco vemos qualquer tentativa real de construção dessas alternativas.

O que é urgente para a pauta eleitoral do Brasil de 2022? E como tem visto esses temas desenhados entre as possíveis linhas políticas e seus pré-candidatos?

Urgente seria uma alternativa ou alternativas ao dualismo autoritário que temos hoje, mas isso é irreal – não há tempo, tampouco vontade política de nenhum dos lados do espectro político de fazer isso acontecer.

Logo, o urgente seria, apesar do calendário eleitoral, que a esquerda (e mesmo a centro-direita, os liberais) fosse(m) capaz(es) de propor algo novo, de se livrar de ranços autoritários, de discursos do século passado como stalinismo, do lulismo e do identitarismo e buscasse uma forma de propor pautas de inclusão efetivas, mudanças reais e de se mostrar aberta ao diálogo e ao novo.

Eu vejo como uma tarefa muito difícil para a esquerda ser capaz de se livrar do PT enquanto não houver na direita uma alternativa que ao menos compreenda os direitos humanos como fundamentais – da mesma forma que acho difícil uma alternativa liberal à direita sem que a esquerda seja capaz de repensar sua fidelidade canina ao PT.

Hoje, vemos um cenário eleitoral com Lula, Bolsonaro e Sergio Moro. O que esse quadro revela? Como apreender as questões de fundo dessa conjuntura que se materializa nesses três nomes, como os que têm maior intenção de votos segundo pesquisas?

Que seguimos caminhando para o mesmo abismo que antes, mas agora com um sub-Bolsonaro fingindo ser alternativa. Isso revela simplesmente que após anos, revoltas sociais, repressão, ascensão da extrema-direita etc. nós não saímos do lugar. Você entra nos sites próximos ao PT e continua o discurso do “PIG” ou “Partido da Imprensa Golpista”, os mesmos ataques à Globo (e nisso são idênticos aos bolsonaristas), a mesma louvação ao Lula, agora com direito a ataques fratricidas dentro da própria esquerda porque alguém escreveu uma linha que parece transfóbica, homofóbica ou machista e deve ser cancelada(o).

Bem, então, diante de tudo o senhor vê a esquerda nacional...

Em uma situação ainda pior que em 2017, quando concedi minha primeira entrevista ao IHU. Além de todos os problemas que apontei na época, vemos ainda mais força dos movimentos identitários, um processo muito mais amplo de neutralização de alternativas e movimentos sociais (tanto por pressão do PT quanto pela necessidade de se derrotar Bolsonaro). A esquerda não foi capaz e não quis criar alternativas, se acomodou no lulismo e mesmo quem tenta pensar em algo novo acaba vítima da militância tradicional do PT ou é acusado de algum pecado por identitários e é forçado ao silêncio.

Gostaria de dizer que vejo mudanças, alguma melhora, mas o fato é que hoje estou mais pessimista do que em anos anteriores. O discurso de classe foi completamente substituído pelos discursos de minorias oprimidas com o objetivo de neutralizar completamente qualquer possibilidade de transformação e de diálogo na sociedade. Não que questões de minorias não sejam importantes, pelo contrário, mas a forma pela qual as questões estão sendo instrumentalizados é preocupante. A esquerda se tornou refém dela própria e de seus elementos mais radicais que não propõem qualquer tipo de transformação, mas tão somente buscam garantir seu pequeno poder.

Imaginemos que Lula vença a eleição, o que propõe de novo? Nada. Irá se aliar aos mesmos elementos corruptos, realizar as mesmas negociatas, mas dessa vez com uma crise social mais profunda, com mais de 600 mil mortos, com uma extrema-direita organizada e com movimentos sociais absolutamente neutralizados e uma militância que não apenas garante mais ódio vindo da direita como também silenciam a própria esquerda – que se torna incapaz de sequer formular novas ideias.

A esquerda acaba neutralizada pela própria esquerda, só que não mais só pela força e manipulação em sindicatos e movimentos (como historicamente PT e PCdoB fizeram), mas também no campo cultural, através da mídia, nas universidades etc. É irônico que a mídia, tão atacada pelos lulistas, seja fundamental para o espalhamento do identitarismo apropriado pelo lulismo para neutralizar a própria esquerda e manter a hegemonia do lulismo.

Muitos analistas, especialmente historiadores, afirmam que o maior problema do Brasil é ainda não ter superado o pensamento da época colonial. O senhor concorda? O que reside nesse pensamento e como ele se apresenta hoje?

Concordo em parte – é um problema –, mas acredito que o grande problema seja a forma pela qual a esquerda busca combater esse pensamento colonial – que no fim não altera em nada a situação, não cria qualquer ponte com o resto da sociedade ao passo que reforça discursos vitimistas de um lado e promove um imenso backlash do outro sem que nada efetivo ou viável seja proposto. Não que o backlash da direita seja em si um problema, ou que não seja esperado, o problema real é que nada é efetivamente criado para justifica-lo ou mesmo fazer frente a ele – e muitas vezes a própria esquerda é vítima.

Estamos diante de uma esquerda que se contenta em aparentar que faz algo, que se limita a uma disputa estética. Que acredita que autoritarismo, policiamento de linguagem, cancelamentos em universidades e no meio artístico vão promover mudanças efetivas enquanto nas escolas e periferias os evangélicos conservadores ganham espaço.

O bolsonarismo tem cada vez mais arraigo social, mas a esquerda preferiu brincar de guerra cultural entre a classe média e entre si mesma.


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