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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Bolha econômica: importância e origem

É possível um mundo sem mentiras ou dissimulações?

Postado em 11 de Julho de 2014 - Jorge Ostemberg

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“Nunca faças aposta. Se sabes que vais ganhar és um patife, e se não sabes és um tolo.” (CONFÚCIO)

Quando se reflete a sociedade quanto aos valores éticos, quanto à moral, às vezes, não muito raramente, surge uma questão estranha: é possível um mundo sem mentiras ou dissimulações?

Vários estudiosos, pensadores sociais e filósofos vão direto ao ponto sobre a necessidade de haver dissimulações no contexto social, e muitas mentiras, pois se a verdade assumir absolutamente e com rigor o espírito das pessoas e leva-las a praticar a franqueza, a sinceridade total, pode haver problemas. Diz Raymond Aron, sempre: “quem diria... a virtude precisa de freios...”.

Muitos podem se lembrar de cenas interessantes do filme “O mentiroso”, com excelente atuação de Jim Carrey, em que seu filho é respondido em um pedido espiritual, e o advogado, personagem de Carrey não mais consegue praticar as mais simples mentiras como: “você foi fabuloso hoje”, quando sabemos que é justamente o contrário. E um advogado que não pode mentir –em instância rigorosa é isso- para proteger seus clientes, bem, ele não existe.

Mas, embora precisem da dissimulação, omissão e da “própria” mentira, os advogados não são conhecidos como mentirosos; no entanto pese sobre eles eternas piadas nesse sentido. O grande comediante inglês Roman Atkinson, o “Mister Bean”, em seu trabalho inaugural no cinema, faz o papel do diabo, e ao selecionar quem fica ou não no inferno, rindo-se diz: “advogados, todos...”. Os teóricos da linguística, como Emanuele Pietro e Armando Plebe observam que a retórica nasceu do exercício da dissimulação linguística; em que muitos gregos antigos, praticantes famosos da retórica “formal”, gabavam-se de construir a verdade, ao invés de descrevê-la.

Talvez essa origem da retórica, como um jogo linguístico aceito na sociedade, onde se sabe dos riscos, tenham natureza semelhante presente no jogo econômico. Talvez haja pouca exceção entre as pessoas, sobre o aspecto de ao ouvirmos um grito na feira: “aqui o melhor produto pelo menor preço”, sempre sabendo que podendo ou não ser verdade, é parte da cultura econômica.

Mas, embora sempre haja níveis de aceitação desse jogo, também se sabe que um Estado coerente, jamais deixará isso ir às raias do absurdo. Assim como na área do Direito, na área econômica, é preciso haver proteção contra a dissimulação e mentira. E mesmo em países altamente evoluídos em leis, é possível existir altos índices de pregação e operações de mercado, em que por detrás haja exacerbação de motivação para aderência a empreendimentos, de tal forma que venha a se configurar crime. E eles podem ser gigantescos e devastadores, como aconteceu a partir do mercado imobiliário dos EUA, contaminando o país e o exterior, principalmente aqueles que não se protegem contra o risco do que convém chamar de “Bolha”.

A importância da bolha está justamente na complexidade que nubla a capacidade de se saber onde acaba o nível de segurança de determinadas apostas. Sendo impossível um mercado sem apostas, não é impossível que indivíduos, empresas e governo se previnam, e isso é essencial.

Da famosa recente bolha imobiliária dos EUA e suas consequências ainda se discute, mas o ponto principal é ligado ainda ao que se conhece como a origem do entendimento do que seja a loucura de uma bolha de mercado, a promoção insana de crença em algo, visando retorno econômico, quando, mesmo de maneira nublada, pode se intuir que há algo errado. Assim ocorreu com o clássico das tulipas, que é boa lição até os dias de hoje.

Paul Strathern lembra que as tulipas chegaram à Europa vindas do Oriente Médio, no século XVI. Tendo caído na graça dos abastados, únicos que poderiam tê-las, no princípio; logo, com cores firmes e brilhantes, foram ganhando preço e tornando-se objeto de intenso mercado. O acaso biológico fez com que a ação de um tipo de vírus vegetal produzisse uma espécie diferente, fragmentada, o que contribuiu imensamente para a loucura do mercado. Alguns exemplos desses absurdos:

Nos primeiros anos do século XVII os preços das flores quebradas alcançaram patamares absurdos. Na região francofônica dos Países Baixos, (o sul da Bélgica moderna), um único bulbo foi trocado por uma pequena fábrica de cerveja (brasserie), o que levou essa espécie a ser conhecida como Tulipe Brasserie. A tulipomania começara, e logo se alastrou pelos Países Baixos e mais além... Por certa soma, podia se obter o direito de comprar uma tulipa numa data futura, a um preço predeterminado. (era o mercado de futuros nascendo).

A loucura prosseguia, em 1635 um único bulbo da mais exótica de todas as flores, “Semper Augustus” foi negociado por 3.000 florins de ouro. Um quadro famoso de Rembrandt, à época no auge, o “Banquete de Baltazar”, foi vendido pela metade deste valor.  Strathern resume o impulso:

Quanto mais o preço dos bulbos de tulipa subia, mais os especuladores eram tentados a compra-los, acalmando assim os temores e reforçando as expectativas dos que os haviam precedido. A confiança se desenvolvia a partir de sua sólida base, como uma pirâmide, ou um castelo de cartas.

E o castelo de cartas ruiu, a bolha estourou, caiu-se na obviedade, a tulipa era somente um bulbo de flor para se plantar no jardim.

A ruína veio para indivíduos, grupos e empresas. Houve uma quebradeira geral. Da noite para o dia, investidores arruinados, grandes casas de negócios faliram, os que haviam se dado bem, os pequenos, voltaram à ruína original ou pior. Muitos que, como jogadores alucinados de pôquer, tomavam-se antes de uma espécie de crença absoluta em seus poderes de ganhar, todos ruíram; até a banca.

A Bolha das Tulipas deixou grandes lições, mas não o suficiente; viria ainda a Bolha do Mar do Sul, uma roubada com títulos, em que até o célebre Isaac Newton investiu algumas libras e as desastrosas consequências provocaram o surgimento da primeira “Lei anti-bolha” e estudos mais profundos.

Historicamente se reconhece a “Bolha das Tulipas”, geralmente, como predecessora, porém, do perigoso desastre das grandes apostas coletivas de mercado. Nada que impedisse a já citada bolha imobiliária mundial, de recentemente e tendências que sempre se repetem, seja de micro tamanho, macro, ou variáveis entre esses dois. Resta sempre a palavra que em se tratando de mercado, aqui se repetirá “eternamente”: PRUDÊNCIA.


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