Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

A garrafa de água e os bebedouros – Parte 1

Biomercado: novos modos de vida e política

Postado em 25 de Julho de 2018 - Emerson Merhy

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Como uma simples decisão de beber água em garrafinha de plástico, comprada no bar, ou utilizar um bebedouro público pode ter toda essa dimensão. Por quê? Política e modos de vida em que sentidos?

Além disso, diante da minha liberdade de escolha como consumidor, o que isso tem a ver com a minha não liberdade, como cidadã(o) plena(o), na escolha de quem serão os juízes do STF (Supremo Tribunal Federal), ou mesmo dos Chefes de Polícia da comunidade em que vivo?

Esse simples ato de pagar a água de beber, quando estou com sede, me parece tão natural, que não consigo ver nele problema algum e muito menos tantas questões de outra natureza, mesmo porque os que não podem pagar têm sempre a opção de buscar água de outro modo.

Sei que todos nós precisamos de água para viver, mas se posso pagar porque não comprar quando preciso. Imagino que quem não consegue pagar sempre terá à disposição, de uma maneira bem fácil, uma fonte de água como, por exemplo, os bebedouros públicos. Se eu ficar mais atento e olhar bem mais de perto, com atenção, começo a perceber que não é bem assim, há lugares que facilitam esse acesso e há outros que não.

Por exemplo, dentro de qualquer Shopping Center sempre encontro bebedouros, mas nos Metrôs não é bem assim. Pelas ruas em geral também não. Nem torneiras públicas com boa água existem, distribuídas por praças em diferentes lugares das cidades, como acontece em cidades como Roma e Barcelona, onde essa oferta tem até um charme especial para os estrangeiros.

Aqui também podemos encontrar praças com fontes de água jorrando, alguém diria, mas quando precisei de uma delas não tive coragem de utilizá-la, isso quando as autoridades municipais não as desligam, transformando-as em fontes secas, para que moradores de rua não as usem.

Entretanto, a vivência muito comum para uma maioria que pode comprar um copinho ou uma garrafa de água vai, por essa experimentação do dia a dia, inculcando uma certa naturalização de que um bem coletivo, a água, que deveria ser acessível para todos, deve ser comprado quando se pode pagar. Vai se naturalizando que para produzir a vida é necessário consumir produtos no mercado, que funcionaria como um biomercado, único local em que poderíamos de fato ter coisas que fariam da nossa vida uma vida melhor.

Mesmo os que não conseguem comprar sempre que precisam, ficam no desejo de um dia conseguirem isso, na busca de produzir a sua própria vida de uma maneira melhor, pelo menos imaginariamente. E uma grande imagem coletiva acaba se construindo nessa experiência: que para ter essa vida mais qualificada é necessário ser um consumidor-comprador de todos bens individuais e coletivos que se necessita; e, pior, aquilo que não for obtido por esse caminho, via relação com o biomercado, sempre será de qualidade duvidosa.

Assim, eu e muitos sempre suspeitamos da qualidade da água de um bebedouro qualquer, mas não damos a mínima para a água de uma garrafa que compramos em um bar. Em nossa imaginação ela é sempre pura e de boa qualidade para se beber.

Da água para a vida diária

Saindo dessa conversa sobre a água como mercadoria, posso ver que esse tipo de raciocínio também se faz em relação a saúde e os modos de garanti-la, também quanto a educação e várias outras esferas das nossas vidas. Inclusive, fico muito surpreso quando alguém me conta que em uma creche municipal, onde está sua filha, há o que tem de melhor em cuidado e processo formativo educacional. Fico na espreita, suspeitando dessa informação, fico duvidando dela, mesmo porque encontro respaldo nas opiniões diárias que dizem que o que é público não presta, tanto quando converso com outros, ou ouço notícias dadas pela maioria dos veículos de comunicação de massa.

Mesmo sabendo que, em geral, esses veículos são de propriedade de uma parcela muito pequena da elite econômica e política, mas muito pequena mesmo, que sempre defendeu o mercado como única solução para tudo, inclusive para produzir a vida, acabo não duvidando destas informações, geradas de modo bem espetacular, para denegrir tudo que é público.

Além disso, há vivências em vários momentos, como na saúde, apontando que de fato não somos bem cuidados ali no dia a dia de alguns serviços, porém o interessante é verificar que se isso acontece em um serviço público a experiência adquire uma dimensão bem reforçadora da minha imagem e do meu olhar, sobre o quanto o público não presta; mas se for em um serviço privado, construo uma desculpa qualquer para dizer que aquilo foi uma infelicidade uma incompetência muito localizada. Não recolho as vivências como experiências de modo equivalente, meus a priori, pouco questionados, pesam nessa hora.

A (bio)mercantilização da vida é tão natural, e meu lugar nisso, como consumidor-comprador, é tão óbvio, que não consigo imaginar outra possibilidade, inclusive porque vou esquecendo que houve outros momentos que não foram assim, ou sou um daqueles que nunca viveu experiências diferentes dessas.

Há algo nesse modo de viver, hoje, nas sociedades neoliberais capitalísticas que vamos experenciando e vivenciando a todo momento, que vai nos colocando em situações de experimentações bem restritas, como se só nos fosse autorizado, pelos arranjos dos modos de viver a vida, algumas possibilidades de vivenciar os modos de viver. E é dentro desses modos limitados que vamos produzindo certos saberes para as nossas experimentações existenciais, como por exemplo as vivências em redes de produção de vida que se constituem com poucas variações possíveis para o experimentar.

Nesses tipos de redes bem precárias, onde as nossas relações com as diferenças dos muitos modos possíveis de viver são bem empobrecidas, as nossas vivências são bem viciadas e limitadas, a ponto de certas crianças ficarem espantadas quando veem outras crianças ao vivo, que são muito distintas delas, seja pela cor da pele, seja pela pobreza da roupa, seja pelo modo de falar, seja pelos tipos de brincadeiras, entre muitas outras características.

Essas situações podem gerar modos de viver e pensar o mundo de modo bem preconceituoso, bem etnocêntrico, inclusive ao valorar que algumas vidas são mais importantes que outras, criando imagens em certos coletivos que compõem nossa sociabilidade de que: se não consegues viver como alguém que usufrui do seu lugar de consumidor-comprador do biomercado, então podemos deixá-lo morrer, isso quando não pensamos em fazê-lo morrer, simplesmente eliminando a tiro, por exemplo.

Por isso, não é estranho hoje no Brasil olharmos as estatísticas sobre as populações e vermos que a mortalidade infantil está voltando a crescer, que a desnutrição entre jovens está aumentando e que jovens negros estão sendo mortos.

A construção imaginária da vida neoliberal passa pelo fato de que muitos que estão produzindo sua vida no biomercado, vivem suas experiências como positividade e não como falta, como produções de si e modos de viver mais e melhor, o que lhes permite recolher produções de saberes sobre o exercício da liberdade de escolha como consumidor, como um direito mais fundamental que os todos os outros. Por isso, muitos passam a defender em seu sentido profundo a noção de que ter a liberdade de consumidor é mais central que a de cidadanias em geral, além de considerarem que esse modo de viver, obtendo os bioprodutos no biomercado, é a maneira mais certa de organizar uma vida coletiva, e que bens coletivos não mercadorias são de outra época e não dessa.

Assimilam com muita tranquilidade que sua própria vida, como um todo, é componente do biomercado e suas vivências mostram isso todo dia, pois todo dia compram suas garrafinhas de água, com a maior naturalidade, e se veem como capitalistas empreendedores de si.

Consumidor-trabalhador

O mais impactante desses novos processos de produção das vidas, que coloca cada um como corresponsável pela própria produção do viver neoliberal, é quando vivenciamos a experiência de sermos também consumidores-trabalhadores genéricos, e não só compradores. Se ficarmos atentos a isso veremos que, nessa sociedade neoliberal capitalística, trabalhamos 24 horas por dia, mesmo sem ganhar monetariamente nada com isso, considerando como natural e até interessante o fato de que para consumir tenho que trabalhar para uma certa corporação, pois sem isso, que se constitui como uma necessidade necessária, não poderei viver.

Essas experiências podem ser percebidas quando perguntamos: quem é o bancário do banco que utilizo para colocar meu dinheiro e ter um cartão de débito/crédito.

Essa pergunta fiz quando, em um momento de greve nacional dos bancários, percebi que para as minhas necessidades bancárias nada tinha mudado, mesmo com as agências fechadas fisicamente. Aí, me dei conta de que com o aplicativo no meu celular conseguia fazer as tarefas que antes só seriam feitas por um trabalhador bancário ao vivo, nas agências.

Vi que se houvesse um esquema paralelo das agências para me entregar papel-moeda, então 100% das minhas necessidades estariam satisfeitas. E isso havia em abundância.

A greve, desse modo, foi um fracasso, pois os bancos não precisavam mais de tantos bancários, agora éramos milhões a trabalhar de graça para eles.

Percebi que éramos construtores cotidianos da vida neoliberal e do próprio neoliberalismo, como um consumidor de um novo tipo, não mais aquele que chega e paga para levar um produto, como a garrafinha de água. Éramos agora o consumidor-trabalhador, aquele que tem que trabalhar para o capital, para poder consumir o bem que quer obter.

É isso: trabalhamos para o capital do banco, como bancário, produzindo valor intensivamente, porque não recebemos nada por isso e nem somos reconhecidos formalmente como bancário. O ciclo de valoração do capital percorre outros circuitos que não só aquele da clássica separação entre a produção da mercadoria e o seu consumo por nós, que podemos comprá-la.

Produzimos valor capital com a produção da nossa vida como um todo, 24 horas por dia. Nossa vida é capital, como diria Peter Pal Pelbart. E essas novas experiências nos possibilitam construir novas subjetivações nos nossos modos de viver, que passam pela produção contínua da produção do modo de vida neoliberal, ao mesmo tempo que vivemos.

Isso tem que nos levar a levantar algumas novas questões.

Será que esse modo de viver é vivido por todos que compõem o que chamamos de sociedade brasileira?

E se houver coletivos que não são incluídos, o que acontece com eles, que vivências eles têm e como constroem suas experimentações nos modos de viver?

É possível viver de outros modos? Ou chegamos ao fim da nossa história em sociedade?

Os ditos incluídos, que vive, 24h por dia a produzir o capital neoliberal, vivem algum incomodo com isso?

Acho que fui sendo levado pelos novos caminhos para pensarmos sobre a produção da existência no mundo atual, aí esse texto foi ficando maior do que imaginei no começo da sua redação. Por isso, vou parar aqui e convidar os leitores para lerem, a segunda parte, na próxima sexta feira quando ela for publicada.

Continua


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