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Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

Apesar de vocês, o devir ainda nos pertence

Qualquer um(a) deveria ser cidadã(o), não só na Constituição, mas nos encontros cotidianos da vida

Postado em 18 de Julho de 2018 - Emerson Merhy

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Uma das minhas netas me enviou um texto que tinha escrito sobre o preconceito, dizendo que existiam certos grupos a tal ponto centrados em si mesmos, etnocêntricos, que quando olhavam as coisas do mundo que eram diferentes em relação a eles mesmos, não conseguiam compreender essa diferença como algo positivo, pois sempre as viam unicamente a partir de suas maneiras etnocêntricas de pensar e valorar as coisas. Desse modo, pensavam esses outros, que não pertenciam aos seus grupos e modos de ver o mundo, como inferiores e/ou ameaçadores, que só existiam para serem dominados e submetidos, para os servirem, ou para serem eliminados.

Em seu texto, ela apontava que o etnocentrismo praticado deste jeito era uma das razões da nossa vivência atual, isto é, da imensa violência que vemos, vivenciamos e sentimos no dia a dia, sob várias formas, como o racismo, as guerras contra outros povos, os feminicídios, a homofobia…

É inegável a quantidade de verdade que há nessas suas ideias, ainda mais quando aponta que deveríamos caminhar para convivências menos etnocêntricas, acolhendo a diferença do outro como algo interessante, na medida que a diversidade é que deve ser legal, por mostrar que a vida é feita disso: multiplicidade.

Diante desse texto, imediatamente me remeti a várias situações já vividas nessa longa história de 500 anos de Brasil, que sempre foi marcada pela violência contra as diferenças, em relação aos grupos colonizadores. Entretanto, também foi marcada por lutas de muitos coletivos que pretendiam e pretendem mudar esse nosso passado, na busca de uma sociedade que suporte a existência da diferença como uma riqueza, além de tomar todos como equivalentes, enquanto viventes, inclusive esse outro que denominamos de natureza natural.

É nesse sentido, que dou glória aos Zumbis da nossa história e suas lutas contra a escravidão e a exploração, ao Almirante Negro e sua luta contra a ditadura racial, aos Gracilianos Ramos presos por suas ideias libertárias e igualitaristas, aos Capistranos, aos Amarildos, as Marielles, ao Lula e todos os outros que como anônimos se inscrevem nesses autos-de-resistências.

Legítimos representantes pela busca de um país que pode e deve escrever seu passado de outra maneira, trazendo assim a possibilidade de uma construção, aqui e agora, de uma convivência social dos mais diferentes grupos dentro de uma relação democrática, produzida em cada encontro, de modo molecular, e não só a partir dos dizeres universalizantes, muitas vezes vazios, de que somos, no Brasil, uma democracia social já consolidada. Glória a todos esses que apostavam que a democracia é algo a ser exercido na experiência real com o outro, conteúdo fundamental do que tem que ser uma vida entre equivalentes.

Por isso, não cabe termos só um regime democrático politicamente, quando o eleitor que vota ferozmente pela sua manutenção, ao chegar em casa, se dá ao luxo de bater na sua mulher. Ou se é democrático de modo molecular, ou tudo é uma grande balela, nos universais.

O mundo das práticas de saúde

No caminhar desse meu pensamento, e quase que por ofício, me remeti na direção do mundo das práticas de saúde, aqui e agora, no Brasil.

Memorizei as lutas de centenas de milhares, desde a época da ditadura militar iniciada em 1964, trazendo para cena as nossas experimentações de lutas sociais por mais distribuição de bens e riquezas, entre os vários grupos que compunham a sociedade brasileira, procurando relacionar isso com a luta por saúde, educação, melhores salários, condições de vida em geral e  conquista de uma sociedade livre e democrática, na qual os cidadãos participariam de uma forma ativa na própria construção das políticas governamentais.

Veio a mim a experiência vivida com tantos outros dos nossos movimentos, nos vários cantões do país, organizando coletivos que se reconhecessem no direito a terem modos de viver mais qualificados, noção central dessas apostas, mas também usufruídos por qualquer um, pois sem saúde para todos de modo igual e justo, não chegaríamos lá.

Vejo a nós, milhares e milhares de brasileiros, lutando cotidianamente nessa direção, procurando construir territórios comuns entre todos, que apontassem para a possibilidade de mudarmos os modos de viver dos grupos mais marginalizados quanto ao usufruto da riqueza, material e simbólica.

Apareceu a mim, com grande clareza, como brigamos durante todos esses anos em todos espaços relacionais e institucionais, pelo fim de uma ditadura e pela construção de novas normas legais para a produção da nossa vida coletiva. Brigamos por uma nova Constituição, brigamos para que o dia a dia de cada uma e cada um fosse modificado nas suas experiências socializantes, para que pudessem viver a vida de uma maneira plena e cidadã, na qual as necessidades de qualificar a vida de cada um fosse sempre a ética fundante das relações macropolíticas e cotidianas.

Ousadas pretensões, pois tinham como desafio superar 500 anos de práticas etnocêntricas racistas, dominadoras e exploradoras da vida e do trabalho do outro, por um elite branca e conservadora, radicalmente preconceituosa contra a diferença; porém, vejo que era mais que ousadia, era absolutamente uma necessidade para vários coletivos, pois era a única maneira da maioria continuar vivendo e disputando o que poderia ser o futuro em relação aos ideais daquela elite, para a qual bastava deixar a maioria ir simplesmente morrendo, lentamente, na medida que não lhe fosse mais útil.

Antigos e novos campos de luta

Nos movimentos sociais da saúde tínhamos capacidade, no fim da ditadura, de avançar constitucionalmente apostando que qualquer cidadã e qualquer cidadão deveria ser um sujeito de direitos igualitários, em suas simetrias, isto é, considerar que qualquer vida deveria ser equivalente a qualquer outra e deveria ser vivida, como uma vida bem vivida. Como dizem os povos amazônicos, uma vida plenamente vivida é a expressão do “bem viver” e esse “bem viver” não é só não ter uma doença e possuir muitos bens materiais acumulados, mas é poder cantar e dançar, como disse um líder do Povo Tukano, no 13º Congresso da Rede Unida.

Mesmo não tendo toda essa clareza dessa liderança, chegamos perto em nossas ideias, lutamos para que nesse país cada uma e cada um tivesse o direito pleno à saúde, considerada como a construção de uma vida qualificada em suas várias dimensões e não simplesmente aquela no limiar de uma sobrevivência.

A construção do Sistema Único de Saúde (SUS), criado há 40 anos, a partir do artigo 196 da Constituição Brasileira de 1988, foi animada por esses processos imaginários e simbólicos inscritos pelos movimentos sociais, gerados e protagonistas na luta pela democratização.

De novo, outra pretensão ousada, mas agora que ali no dia a dia dos serviços de saúde as práticas fossem as mais amplas possíveis, indo de um leque curativo ao da produção incessante de mais vida em cada um e em todos, bem como que as relações cotidianas a serem construídas em cada encontro, entre equipe de saúde e usuários, do campo da saúde fossem as menos etnocêntricas possíveis, tendo sempre claro que o polo central desse encontro deveria ser sempre a vida de um(a) cidadão(ã), que pedia passagem para ser cada vez mais qualificada, como bem viver.

Olho, agora, depois de 40 anos e vejo como é necessário travar muitas novas lutas para realizarmos essas pretensões, mas vejo um crescimento enorme de coletivos que compraram essas apostas, vejo lutas bem sucedidas, e, infelizmente, vejo também derrotas diante das ações das elites econômicas e políticas, desse país, que vêm sendo efetivamente verdadeiros anjos brancos do atraso, para utilizar livremente um termo cunhado por Jessé de Souza.

Essa elite nunca deixou de lutar para destruir esse imaginário de um Brasil sem dominações, de coletivos simétricos, instalados nas suas diferenças, vejo essa elite construindo diariamente, pelo uso dos seus meios de comunicação, em especial a radiodifusão e a televisão, um pensamento com a pretensão e capacidade de fazer cabeças, inclusive de muitos dos que ela mesma despreza e excluí, inculcando sistematicamente com falas, imagens, reportagens distorcidas e grandes farsas discursivas a noção de que qualquer coisa que fosse pública seria sempre uma porcaria, sempre coisa de corruptos, que só faria mal para as pessoas, e lá no fundo passando a imagem-desejo de que o bom mesmo é mercantilizar a vida, pois só o mercado trataria todos como igual. E, dependendo da capacidade de qualquer um é que se definiria quem seria elite e quem seria fracassado, mas o mercado daria igual oportunidade a todos. Uma hipocrisia sem fim, pois a realidade da vida mostra que desde sempre os miseráveis desse mundo não têm as mesmas oportunidades no mercado.

Mas, apesar disso, vejo, hoje, que mesmo aos tropeços avançamos tanto, a ponto de incomodarmos essa elite branca do atraso, que a mesma vem batalhando de novo para construir uma ditadura que lhe seja favorável, porém com outros moldes do que seria esse regime ditatorial. Agora, sob uma falsa legalidade jurídica, que trata bem desigualmente os desiguais, isto é, aqueles que a elite branca do atraso sente como ameaçadores de suas ideias colonizadoras e dominadoras estão sendo punidos por um sistema judiciário de plantão para punir, nem que para isso tenha que inventar discursivamente provas nunca provadas. Aliás, um judiciário formado em sua maioria por membros dessa mesma elite branca do atraso. Diariamente, vemos magistrados expressarem opiniões tão preconceituosas que não acreditamos que quem as expressou seja de fato um magistrado.

Nesses quase três últimos anos, no Brasil, com esse golpe branco dado pela elite branca do atraso,  vemos o quanto já se conseguiu destruir o que era público, que beneficiava indistintamente a maioria que tinha sido incluída no bem viver, desde o fim da ditadura.

Nessa direção, o ataque ao SUS é exemplar por ter sido o campo de política governamental que mais avançou na direção de que é possível se construir um país, no qual qualquer um(a) deveria ser cidadã(o), não só nas palavras da Constituição, mas nos encontros cotidianos da vida, em qualquer lugar. Seja em um serviço de saúde, sala de aula, Centros Comunitários, entre tantos.

Porém, essa destruição só está sendo feita de forma tão feroz porque com políticas como a do SUS, não afirmamos só a competência de ofertas públicas de cuidado, mas também afirmamos que a vida de todos é a verdadeira riqueza de um país. Ou seja, esse campo de luta tem um conteúdo simbólico forte, mesmo que ainda não tivéssemos conseguido instaurar de modo pleno a democratização molecular do cotidiano nas redes de saúde, indicando que ainda haveria muito para ser feito nessa direção, onde a cada encontro os que aí estão devem ser tratados sempre em simetria, como sujeitos de direito e do bem viver. Isso, inclusive, dá um fôlego para nós todos, que acreditamos nesse caminho, a fazer nos nossos encontros verdadeiros processos democráticos de convivências e de relacionamentos, isto é, não precisamos pedir licença para ninguém para considerar o outro que encontro como simétrico a mim mesmo.

Essa possível experimentação, que nos pertence, de um Brasil de outro modo, é hoje uma marca que a elite branca do atraso não conseguirá acabar, pois ela pode viver em nós como corpos sem órgãos nas multidões, pois só a nós nos pertence a voz e o pensamento, com os quais podemos experimentar outros mundos no dia a dia da vida.

Mesmo não sendo no hoje sua plena consagração, se estivermos imbuídos dessa aposta e dessa nossa potência, iremos contaminar de modo molecular o conjunto das vidas, centrada na imagem básica de que nossa vida só cabe na medida que a vida do outro valha a pena. E, desse modo, o devir nos pertence.


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