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Ano X - Nº 494

Mundo

Neonazismo e xenofobia mancham beleza do futebol Croata

Neste domingo, os craques da Croácia enfrentam a França e uma história pouco honrosa

Postado em 12 de Julho de 2018 - Redação Semana On

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A surpreendente campanha da seleção da Croácia garantiu um lugar na final da Copa, mas também expôs o vínculo, ao menos simbólico, de alguns de seus jogadores e membros da comissão técnica com os movimentos ultranacionalistas, xenofóbicos e até mesmo neonazistas que permanecem mostrando força no leste da Europa.

Após a vitória contra a Argentina por 3 a 0, os jogadores fizeram uma comemoração nos vestiários. O Jogador Dejan Lovren grava a celebração (veja abaixo), onde aparecem ele e outros jogadores cantam a música “Bojna Cavoglave” da banda Thompson. Essa banda é famosa por fazer apologias do regime fascista croata, os ustashas, durante a Segunda Guerra Mundial.

Essa canção, tem a frase “Za dom spremni” (Pelo nosso país, prontos!), slogan da campanha e a saudação ustasha, nascida em 1929, como uma sociedade secreta, e depois convertida em um movimento fascista, que foi apoiado por Hitler. O grupo, durante a guerra, teve o campo de concentração Jasenovac, tendo como estimativa de até 100 mil mortos. Nele se encontravam sérvios, padres ortodoxos, judeus e ciganos.

Logo depois das quartas de final, o zagueiro Demogoj Vida e o assistente técnico Ognjen Vulkojevic apareceram em vídeos dizendo “Slava Ukraini”, expressão que pode ser traduzida como “Glória à Ucrânia”.

A frase parece ser uma simples saudação ao país onde Vida e Vulkojevic passaram parte de suas carreiras, já que ambos atuaram por anos no Dínamo de Kiev. A fórmula vem sendo repetida pelo presidente ucraniano Petro Poroshenko em encontros internacionais, em entrevistas na TV e em comunicados à nação. Também virou o mote de soldados ucranianos que lutaram pela retomada da Crimeia, em disputa com a Rússia.

Em resposta a reportagens da imprensa inglesa, a embaixada ucraniana no Reino Unido disse que “Gloria à Ucrânia” seria uma simples expressão patriótica, comparável a outras como “Viva a França” ou “vida longa à Rainha”. Mas para um observador atento das relações de poder no leste europeu, a expressão ucraniana é mais que isso.

Os historiadores localizam as primeiras aparições de “Glória à Ucrânia” e sua resposta “Glória aos heróis” ainda nas primeiras décadas do século 20. A saudação ganhou nova força entre 2013 e 2014 quando foi o grande aglutinador dos protestos que tiraram do poder um presidente alinhado ao governo russo em prol de uma gestão mais nacionalista e pró Europa.

Antes disso “Glória à Ucrânia” foi a saudação preferencial do Exército Insurgente Ucraniano (UPA) e da Organização Ucraniana Nacionalista (OUN), cujos membros lutaram pela independência da Ucrânia antes e depois da Segunda Guerra Mundial, mas que também cometeram atrocidades contra inimigos como poloneses e judeus.

UPA e OUN representavam a resistência contra o governo da União Soviética e estavam alinhados aos nazistas da Alemanha. Nessa época “Glória à Ucrânia” era a versão local do “Heil Hitler”, a tradicional saudação nazista.

Nacionalismo, com o toque do fascismo

Ao repetirem a frase após uma vitória dramática sobre a Rússia, Vida e Vulkojevic deram um recado aos amigos ucranianos, mas sofreram sanções quase imediatas. O assistente técnico foi descredenciado pela federação croata e recebeu uma multa de R$ 58 mil da Fifa, que não costuma tolerar manifestações políticas em seus eventos. O zagueiro recebeu uma advertência. Os croatas também precisaram vir a público pedir desculpas.

No último dia 10, outro vídeo veio à tona. Em mais um momento de celebração, Vida ergue uma garrafa de cerveja e volta a dizer “Glória à Ucrânia”.

“Quando eles dizem essas palavras, eles não estão fazendo uma manifestação ingênua”, avaliou Jorge Christian Fernandez, professor de história contemporânea da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. “É uma demonstração clara de afinidades políticas dos croatas com a Ucrânia e com esse mundo ‘mais ocidental’, em oposição à Sérvia e à Rússia.”

“A Croácia tem uma afinidade histórica com o Ocidente e, tanto lá como na Ucrânia, permanecem latentes esses movimentos ultranacionalistas, xenofóbicos, que sonham com uma Europa de pureza racial e cujas manifestações se tornam cada vez mais populares”, disse o professor.

Neste segundo vídeo, Vida pronuncia outra expressão de aparência controversa, citando o nome da capita da Sérvia: “Belgrado queima”, diz ele. Seria uma referência à guerra que opôs as nacionalidades após a dissolução da Iugoslávia? Procurada pela reportagem, a embaixada da Sérvia em Brasília levou na esportiva e não viu sentido ofensivo na provocação do jogador. A Fifa anunciou que está investigando o caso.

Croatas cantam música de banda ultranacionalista

Referências ao passado bélico dos Balcãs apareceram em outro vídeo comemorativo.

Ao menos dois croatas celebraram a vitória sobre a Argentina, na primeira fase da Copa, cantando versos da música “Bojna Cavloglave”, composta por Marko Percovic, da banda Thompson. A letra é conhecida como um hino nacionalista e nasceu durante os anos da guerra de independência contra a Sérvia. Os versos cantados no vídeo pelo zagueiro Dejan Lovren, do Liverpool, podem ser traduzidos como “Por nossas casas, por nossos irmãos, por nossa liberdade, nós estamos lutando.”

Mas a música inicia com a saudação “Para nossa casa, estamos prontos”, um símbolo do Ustasha, a organização paramilitar croata que colaborou com os nazistas durante a Segunda Guerra e permaneceu com influência sobre país mesmo depois do fim dela.

A história da Ustasha começa com a invasão nazista à Iugoslávia, conta o professor Sergio Aguilar, da Unesp de Marília (SP), observador da ONU durante a guerra civil nos Balcãs e autor do livro "A Guerra na Iugoslávia: uma década de crises nos Bálcãs".

“Os nazistas proclamaram o Estado Croata Independente e instalaram um governo fantoche extremista e nacionalista denominado Ustasha”, escreveu ele. “Esse governo croata estabeleceu leis antissemitas e foi responsável pelo extermínio de sérvios, judeus e ciganos. O regime Ustasha tinha como insígnia a shahovnica - um escudo xadrez vermelho de origem medieval, que foi retomado propositalmente pelo movimento nacionalista que resultou na independência da Croácia na década de 1990.”

Jogo na Euro teve suástica no gramado

A ideologia do Ustasha associava elementos do cristianismo com a xenofobia, o ideal de raça pura e o uso da violência. E suas consequências para a Croácia atual permanecem vivas. Marko Percovic, o compositor da música cantada no vestiário da seleção croata, é um conhecido defensor do Ustasha e, por causa disso, já teve shows cancelados em outros países europeus.

Em 2004, acusado de neonazismo, Percovic foi proibido de tocar em Amsterdã. Em 2009, o veto veio da Suíça. Os fãs da banda Thompson, batizada com o nome da metralhadora que Percovic usava durante a guerra contra a Sérvia, costumam ir aos shows vestidos com uniformes em referência ao Ustasha.

Foto campo

Em 2013, a saudação tradicional do Ustasha já tinha sido feita pelo então zagueiro Josip Simunic depois que a Croácia se classificou ao Mundial de 2014 ao vencer a Islândia em Zagreb. O jogador pediu à plateia para cantar com ele um lema bem conhecido dos ustachis. “Za dom” ( “Em casa”) disse Simunic três vezes para o estádio, microfone na mão levantada, enquanto o público respondeu “Spremni” ( “Pronto!”) – veja o vídeo abaixo. Essa foi uma das saudações dos “ustachis”, o protetorado croata da Alemanha nazista.

Simunic recebeu um gancho de dez jogos e não pôde vir ao Brasil. A cena de Simunic se dirigindo à torcida foi parar em camisetas e virou símbolo de movimentos neonazistas no país. Apareceu em maio em uma manifestação em memória dos mortos do Ustasha.

Em 2015, durante um jogo contra a Itália pelas eliminatórias da Euro, uma enorme suástica apareceu no gramado do estádio de Split (veja acima). A federação croata foi multada em 100 mil euros, a seleção perdeu um ponto na classificação e teve que fazer dois jogos de portões fechados. Na ocasião, a entidade também veio a público pedir desculpas.

Rivalidades e xenofobia

O caldeirão de rivalidades nos Bálcãs atravessa a história, chegando até à Batalha de Kosovo, em 1389, após a qual áreas sérvias foram dominadas por otomanos –muçulmanos como os kosovares, entre outros povos balcânicos, de hoje.

A semente dos ódios atuais entre croatas e sérvios, por sua vez, foi regada na Segunda Guerra Mundial.

Os nazistas ocuparam a Iugoslávia em 1941, e cederam o controle croata ao grupo fascista local, o Ustase. Seguiu-se um massacre de 300 mil a 600 mil sérvios.

Em 1945, o país foi reunificado e tornou-se comunista. Ao fim, os croatas sempre se ressentiram com o domínio de Belgrado sobre o país. Apesar de eslavos, são católicos e adotam o alfabeto latino.

Isso explodiu com a erosão do Estado socialista, centralizado na mão de Belgrado. Em 1991, a Croácia declarou sua independência em meio a uma violenta guerra civil, que deixou talvez 15 mil mortos, com registro de crimes de guerra de ambos os lados.

O futebol sempre esteve no centro da expressão das rivalidades. Times croatas e sérvios eram rivais nas ligas iugoslavas, e a seleção de Zagreb surgiu um ano antes da independência –sendo reconhecida em 1993.

Na verdade, o fascismo sempre esteve relacionado com o futebol na Croácia.

A Croácia deverá estar em campo neste domingo, lembrando que nem tudo é só futebol, como alegou o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, ao minimizar o episódio do vídeo.

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