Semana On

Segunda-Feira 06.dez.2021

Ano X - Nº 470

Coluna

O produto sempre tem razão

O problema do fake news não é o texto, é o leitor

Postado em 23 de Março de 2018 - Rodrigo Amém

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No sábado (24), o Facebook tirou do ar uma página chamada Ceticismo Político, como punição por suas postagens de Fake News. Em entrevista ao jornal O Globo, Carlos Afonso, o responsável pela referida página (cujo pseudônimo reaça era Luciano Henrique Ayan), confessou que seu serviço recebia investimentos e contribuições de fontes que ele prefere não revelar. Mais importante que isso, ele afirmou: "Sinto dizer aos meus oponentes: o método funciona que é uma beleza".

Essa declaração do Afonso tem menos de confissão e mais autoelogio. Afonso não está arrependido. Ele está celebrando seus resultados às vésperas da próxima campanha eleitoral. Ele está tirando a máscara e anunciando serviços. E O Globo deu a publicidade esperada.

Nesta segunda-feira o celular do Carlos vai tocar até ficar rouco. Uma porção de candidatos vai procurar sua expertise de "influenciador digital" e ele fatalmente abrirá novas contas de Facebook antes do fim da semana que vem.

Ayan está tranquilo. Como um Hugo Gloss das trevas, sua carreira segue forte. Só que, ao invés de cobrir o tapete vermelho de Hollywood, ele vai ajudar a irrigar o tapete de lama de Brasília.

Mas o que me intriga nisso tudo é o porquê. Não, não as motivações de Carlos. Essas são muito claras. Mas por que esse cidadão pode se vangloriar de ter enganado um monte de gente e, ainda assim, a maior consequência que ele enfrentará é o eventual aumento de sua carteira de clientes?

Um esclarecimento: o cliente de Ceticismo Político é quem paga pelo seu serviço, não quem lê suas postagens. E que serviço é esse? Fortalecimento de base política. Em outras palavras, o cliente do Carlos está comprando likes e compartilhamentos. Está comprando "audiência". O "produto" é o leitor, o compartilhador. O produto é seu pai, sua mãe, seu vizinho reaça. O produto é você.

E para o produto de Carlos, nada disso importa.

Porque o produto de Carlos se enxerga como cliente. Sua demanda é por reafirmação de mundo, não por informação ou esclarecimento. Entre um boato em conformidade com sua opinião pré-concebida ou uma verdade contrária à sua ideologia, o produto correrá para figurar nas prateleiras da "loja de boatos".

Então Carlos está tranquilo. Como um Hugo Gloss das trevas, sua carreira segue forte. Só que, ao invés de cobrir o tapete vermelho de Hollywood, ele vai ajudar a irrigar o tapete de lama de Brasília.

E o produto seguirá fielmente exposto nas prateleiras do seu mercado, a espera do comprador.


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