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Domingo 03.jul.2022

Ano X - Nº 494

Coluna

A questão identitária no cheiro do ralo

Individualismo e coisificação.

Postado em 25 de Abril de 2014 - Ana Carolina Monteiro

O Cheiro do Ralo, filme de 2007, dirigido por Heitor Dhalia. O Cheiro do Ralo, filme de 2007, dirigido por Heitor Dhalia.

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Uma atmosfera de degradação, ambientes e olhares sem vida ou sabor. Escambo de sensações que disfarçam a distância de emoções reais, onde tudo e todos são negociáveis. Essas são algumas das características imediatamente perceptíveis em O Cheiro do Ralo, filme de 2007, dirigido por Heitor Dhalia. Ambientado em São Paulo, baseado no livro homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli, narra a história de um comerciante chamado Lourenço. Em O Cheiro do Ralo o protagonista surge como alguém frio, aparentemente despido de sentimentos e até mesmo sádico que, surpreendentemente, parece revelar possíveis traços de carência afetiva e de emotividade.

O filme é composto de muitos planos fixos de câmera, poucas locações e cenários inertes de passagem que dão a ideia de rotina. As sequências induzem o público a um voto de silêncio involuntário. Isso se deve e muito, a grande incorporação do papel em Selton Mello, cujos silêncios, encaradas e mesmo algumas tragadas de cigarro comunicam com muita naturalidade a composição oscilante do personagem, muitas vezes cumprindo o papel de anti-herói de si mesmo.

Lourenço é o dono de um curioso negócio, aonde as pessoas vêm vender seus objetos, normalmente em momentos de dificuldade financeira. Não parece ser exatamente um brechó, pois os objetos comprados pelo mercador não são colocados à venda. O cenário aproxima-se mais de uma loja de penhores – sem direito a estorno – onde fragmentos da vida dos personagens são convertidos em mercadoria e acondicionados nas prateleiras.

Certo dia, Lourenço é tomado pela visão de uma bunda numa lanchonete próxima e faz de tudo para possuí-la, para também convertê-la em mercadoria. Tal operação, o coloca em contato com a dona da bunda, garçonete, que na história não tem nome, nem rosto: doravante reduzida à parte de sua anatomia, a moça também vende ao mercador o que ele deseja. Paralelamente, o ralo do banheiro passa a exalar um mal cheiro que constrange Lourenço diante de seus clientes e a luta para exterminar o cheiro do ralo, até finalmente ser vencido por ele, é o pano de fundo da história.

A cidade que entra pela porta de ferro da rua desabitada é codificada pelo capital e tudo vira mercadoria.

O Cheiro do Ralo asfixia pela ausência de cidade, aqui entendida como a máquina que opera bifurcações, proliferações de sentido, encontros com o outro e com o mundo. A cidade que entra pela porta de ferro da rua desabitada é codificada pelo capital e tudo vira mercadoria. Aqui não há lugar para a história. O que vem do ralo é o mundo que retorna para a realidade de Lourenço, cheirando à merda. É este mundo-cidade, irredutível ao estriamento produzido pelo capital que nauseia Lourenço, já que embaralha a monótona e repetitiva redução de objetos, histórias e pessoas a seu valor de troca.

A cidade na qual Lourenço vive tem contornos definidos: é possível acompanhar uma sucessão de vazios e paisagens desabitadas nos deslocamentos feitos diariamente entre a casa e o trabalho. Ninguém tem nome próprio, todos compõem a paisagem imóvel que testemunha a vida do protagonista. Nem mesmo a feliz proprietária da bunda avidamente desejada tem um nome, ele é impronunciável: reduz-se a uma mímica labial, dando uma tessitura onírica para a personagem. Toda e qualquer presença da cidade, do mundo em sua alteridade, deve ser banida como sujeira indesejável. O mendigo que tenta construir uma história (ainda que provisória) na fachada da loja de penhores tem seu destino selado pela truculência do segurança e o ralo é vedado com cimento, para evitar presenças impossíveis de serem codificadas. A história é banida da vida e instaura-se um presente permanente, sem obstáculos para o fluxo contínuo do consumo. O futuro é visto como previsível e controlável e é evocado como necessitarismo, a fim de responder às contingências do presente coisificado, o que destitui o tempo do agir histórico.

A vida só parece existir como uma sucessão de negociações, algumas enfadonhas, outras excitantes, mas todas ancoradas em Lourenço-buraco, por onde parece esvair toda a merda resultante desta máquina, que reduz tudo à mercadoria. Ao conseguir comprar a bunda, Lourenço afirma, entre feliz e aliviado: “E assim mais uma coisa – a bunda – se torna como as coisas que eu tranco na sala ao lado [...]”.

Quando tudo se equivale à mercadoria, ocorre uma desvalorização do real, do material, do objeto concreto, pois tudo passa a ser mensurado a partir de uma equivalência universal ao capital: Reduzidas à condição de mercadoria todas as coisas encontram seu lugar no mundo como uma equivalência.

A vida só parece existir como uma sucessão de negociações, algumas enfadonhas, outras excitantes, mas todas ancoradas em Lourenço-buraco, por onde parece esvair toda a merda resultante desta máquina, que reduz tudo à mercadoria.

O cheiro do ralo é um portal, lugar de redenção e reflexão. A garçonete (Paula Braun) não está dentro desse mundo, logo, aparece mais segura, menos dependente. Apesar de demonstrar interesse em Lourenço, ele tem problemas com esse tipo de relacionamento, já que “se bobear os convites vão pra gráfica”.

Talvez a loja de Lourenço seja uma alegoria da vida que tem sido produzida, daquilo que se vive e se torna a partir dos modos de subjetivação contemporâneos. A subjetividade capitalística é a mercadoria invisível da loja de penhores e Lourenço reedita a cada cena o vazio que o constitui. Sem natureza e sem pai, Lourenço opera por fragmentos, colecionando objetos, buscando construir algum plano de consistência para uma vida que, excretada pela máquina capitalística (vida de merda?) parece incapaz de compor qualquer território existencial. Vida que é fluxo vertiginoso do capital que só se detém aos solavancos, reduzindo o desejo a mais uma mercadoria: a bunda.

Entretanto, a vida-feita-cheiro, em sua imaterialidade, desestabiliza as certezas de Lourenço. Ele afirma em certo momento: “É tão difícil acontecer uma coisa que eu não tinha previsto [...]”. Talvez daí venha sua fascinação pelo olho-que-já-viu tudo, já que não há surpresas para este olho prótese que Lourenço incorpora a seu corpo, a fim de reassegurar sua posição de controle, estremecida pelo cheiro incontrolável que insiste em sair do ralo. O olho-que-já-viu tudo parece saber de mundos que existem além da Loja de Penhores, parece ter visto coisas que não cabem na estreita vida de Lourenço.

Em um momento que lhe escapa, Lourenço afirma: “De todas as coisas que tive, as que mais me valeram, as que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar, são as coisas que não estão ao alcance de nossas mãos. São as coisas que não fazem parte do mundo da matéria.” Essas coisas estranhas, irredutíveis à condição de mercadoria, revelam a fragilidade de Lourenço, a qual é, paradoxalmente, sua maior força, pois é o que o permite esboçar alguma resistência em meio à sujeição (quase) absoluta aos processos de subjetivação capitalísticos.

Apesar de cômica, a trajetória de busca se mostra também dramática. É preciso comprar a bunda, ela tem de fazer parte de seu acervo.

Apesar de cômica, a trajetória de busca se mostra também dramática. É preciso comprar a bunda, ela tem de fazer parte de seu acervo. “O poder é afrodisíaco”. É preciso pagar pra ver, e o espectador poderá ter a mesma sensação de Lourenço, da bunda como objeto (há exemplos pela mídia), às vezes dissociado do corpo e da pessoa. Ora, ao longo de toda a história da humanidade o homem cria objetos para suprir suas necessidades, porém o leitor provavelmente deve se lembrar de situações da vida cotidiana na qual o próprio homem fica subordinado ao objeto, e não o contrário.

Quais os limites de uma sociedade cujo alcance do fetichismo é cada vez mais indeterminado? A história depende muito dos objetos que entram no caminho do personagem, aliás, há cenários riquíssimos em informação nas paredes, móveis etc. São muitos objetos, muitas histórias que os cercam. A fotografia utilizada envolve em muitos tons de pastel e bege, considerada adequada para a absorção do sentimento, do clima das coisas e dos elementos que rodeiam o filme.

A admirável representação de Selton Mello como protagonista, não diminui a riqueza dos coadjuvantes na amarração da trama. Belas atuações como a de Silvia Lourenço no papel de uma viciada, responsável por trágicos e cômicos desdobramentos nas suas visitas e com uma humanidade muito interessante em sua atuação. O vendedor do olho postiço, no qual se cria a história de um pai para Lourenço, compondo a tripla obsessão ralo-bunda-pai frankstein. Belos personagens como o vendedor do violino, o entregador de pizza, além do carismático Lourenço Mutarelli, criador da obra literária homônima inspiradora do filme, como segurança.

Quais os limites de uma sociedade cujo alcance do fetichismo é cada vez mais indeterminado?

Lourenço não se mistura à cidade-mundo. A cidade aparece no filme feita de espaços e percursos previsíveis e desabitados. Quando tropeça nela, ao encontrar um mendigo na porta de sua loja, pede ao segurança que limpe a área. Nesse momento, inicia uma conversa onde define o que seja o lixo: “O Homem é o Deus do Conforto. O lixo é o troco. O Homem criou o lixo pra ocupar os desocupados.” Não há lugar neste mundo para o que não é passível de ser codificado segundo a lógica do capital.

Tudo tem seu lugar. Nem o lixo sobra, nem surpreende. O filme termina com Lourenço sendo assassinado pela vida. Uma forma de vida estranha, não a vida plastificada que nos acostumamos a ver na TV, mas um trapo de vida, que já parecia completamente escravizado pela droga: uma moça magérrima que vai sempre à Loja vender pequenos objetos para se drogar. Em uma dessas vezes, sem ter o que vender, Lourenço propõe-lhe que venda sua nudez e ela se despe, enquanto o mercador se masturba e goza ao realizar mais uma compra. A moça, constrangida, submetida à vergonha de ter virado mercadoria, sai transtornada e retorna, armada, para um acerto final. É essa vida esquálida, que ao afirmar-se em sua precariedade, mata a vida vazia, a vida oca do mercador. E nessa cena final, Lourenço se arrasta até o ralo para sorver o seu cheiro. “O cheiro do ralo é como se eu me reencontrasse. O cheiro é meu. Foi ele quem me trouxe a bunda. É um presente do inferno.” “Eu vou me reconectar com o meu Eu.” Tudo começa e termina no ralo. Não há lugar para a cidade-mundo, não há espaço-tempo para uma vida não colonizada pelo capital. A vida é dura.


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