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Terça-Feira 19.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna

Um festival de sentidos

Arte e cultura em intercâmbio no Pantanal.

Postado em 18 de Abril de 2014 - Ana Carolina Monteiro

Já se passaram dez anos do primeiro Festival América do Sul. Já se passaram dez anos do primeiro Festival América do Sul.

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Já se passaram dez anos do primeiro Festival América do Sul. Gastronomia, teatro, literatura, circo, música, dança, artes plásticas, oficinas, mostras, debates, palestras, tudo junto e misturado em meio ao Pantanal e o patrimônio histórico e cultural de Corumbá. A sementinha foi o antigo Festival Latino Americano de Artes e Cultura, lá em 1996. Nesta 11ª Edição do Festival da América do Sul (FAS) que acontece em Corumbá, de 30 de abril a 4 de maio, com o tema “Sinta a arte, viva a cultura”, a ideia é proporcionar ao público uma experiência artística marcada pelo encontro de diferentes culturas, diferentes sons, diferentes imagens, diferentes movimentos, diferentes sentidos, para degustar, ouvir, ver, tocar e cantar. O evento conglomera manifestações da Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Peru, Chile, Colômbia e, claro, do Brasil, numa troca de experiências pautadas pelo que há de melhor na cultura sul-americana da atualidade.

São cinco dias de festa, “mas já foram dez”, lembra a artista plástica Marlene Mourão, a Peninha, como é conhecida no meio artístico, que participa desde a primeira edição do FAS, em 2004 e este ano, como convidada, apresenta seus quadros pintados em acrílico, “numa espécie de aquarela”, como ela mesma define, na Exposição “Corumbá – O Pantanal, sua Gente e os Seres que aí permeiam”. Para ela, “os primeiros Festivais foram incríveis. Havia debates sobre o meio ambiente, literatura, políticas públicas. A gente não sabia para onde ir, de qual atração participar. Os bolivianos participavam com suas danças. Da argentina tinha o Tango. Os shows do Milton Nascimento, do Ney Matogrosso foram de arrepiar. Havia atrações de circo de tecido nas ruas”. Segundo Peninha, mesmo com o atual formato um pouco desgastado, “o Festival é um evento que não pode acabar”.

O atual formato com diversas atrações ao mesmo tempo, lançamento de livros, bate-papos com os artistas, exposição de obras de artes, intervenções urbanas, apresentações circenses, teatrais, e de dança parece estar um pouco obscurecido pelos shows nacionais, tidos como as grandes atrações. “As pessoas vêm mais por causa dos shows nacionais. E deixam de aproveitar muita coisa, por exemplo, a diversidade gastronômica que o Festival oferece. Com comidas típicas de Corumbá, do Brasil e da América do Sul”, declarou o empresário Antônio Albaneze, um dos responsáveis pelo Fegasa, festival gastronômico que pela terceira vez integra o FAS, e este ano vai servir pratos das chamadas “comidas de rua” criados e servidos em meio às 25 barracas da Praça da Alimentação do Festival, dispostas lado a lado na rua Sete de Setembro, no centro de Corumbá.

O Festival

São cinco dias de Festival numa estrutura com dois palcos, um pavilhão para feiras, cinco exposições fixas, uma delas é a dos homenageados - Horácio Ferrer, poeta e historiador argentino, Aurélio Miranda, cantor e compositor sul-mato-grossense e Lobivar de Matos (in memorian) poeta e escritor corumbaense.

As mais de 80 atrações ocuparão as ruas e as praças de Corumbá, divididas em 16 sessões e mostras de cinema, lançamentos de livros, bate-papos com escritores e músicos, intervenções urbanas com skate, grafite, rap e break, oficinas de viola de cocho e siriri, confecção e manipulação de bonecos, dança e percussão, esta última com a banda Afroreggae, que também oferece palestra sobre “Violência e Sociedade”. Outro que vai ministrar palestra é o argentino homenageado Horácio Ferrer sobre música, poesia, história e otras cositas mas.

Serão apresentados 20 espetáculos de dança, teatro e circo, tanto nas ruas como nos palcos do Festival, e 15 shows musicais. Um evento gigantesco, orçado em R$ 2 milhões de reais, do qual fazem parte artistas corumbaenses, sul-mato-grossenses, brasileiros e de destaque em outros países do continente como Los Masis (Bolívia), Dante Ledesma (Argentina), Ana Prada (Uruguai) e Lizandro Aristimuño (Argentina).

O ator e diretor de teatro Salim Haqzan, que também acompanha o Festival desde as primeiras edições, relata que sente falta da vivência com os artistas, que antes vinham até Corumbá para se apresentar, alguns até ministravam oficinas, e ainda circulavam pelas ruas da cidade por um ou dois dias. “Nestes últimos cinco anos, perdeu-se muito da interação com os artistas”. Em seu depoimento, o ator lembrou grandes nomes que marcaram alguns dos FAS, como os grupos Cordel do Fogo Encantado, Palhaços Lume, Grupo Galpão. “Todos passaram por aqui e deixaram algo de seus trabalhos nas oficinas, nos bate-papos, na troca de experiência. Isso não se tem mais hoje, o que empobreceu o Festival.” Salim foi o responsável pela pesquisa do espetáculo de rua “Areôtorare – O verbo Negro e Bororo do Índio Profeta”, que revisita as obras Areotorare (1935) e Sarobá (1936) do escritor modernista Lobivar Matos, que segundo Salim, foi quem inspirou Manoel de Barros a escrever sobre o Pantanal. A peça será encenada pelo grupo de Teatro Imaginário Maracangalha, na Praça da Independência, no dia 03 de maio, dentro da programação de Artes Cênicas do FAS 2014.

Diferencial

Uma das grandes atrações de todas as edições do Festival e que é a “cara de Corumbá”, de acordo com a vice-prefeita e diretora da Fundação de Cultura do município, Márcia Rolon, é o Quebra-Torto com Letras, que este ano acontecerá seguidamente, nos dias 01, 2 e 3, sempre às 08h, no Moinho Cultural. Poetas, escritores, e até o músico Paulinho Moska vêm para um bate-papo informal, mas “muito enriquecedor. É o momento que o público pode se deliciar com as experiências dos artistas, suas viagens, sua histórias, tudo ali, de pertinho, de forma bem pantaneira”, confirma Márcia, saboreando um delicioso e típico quebra-torto. “Esse é um diferencial do Festival”, disse a vice-prefeita. O quebra-torto é um café da manhã tradicional do Pantanal, bastante reforçado, mais parece um almoço, e serve para alimentar os peões em seus longos dias de trabalho na região pantaneira. É um desjejum que tem arroz de carreteiro, mandioca, ovos fritos. Há ainda pães, biscoitos doces, bolo de fubá, bolo de mandioca e, para beber, sucos, café, e leite. Segundo Márcia Rolon, o Quebra-torto com Letras é uma atração única e da qual geralmente participam estudantes, professores e a população local. “É 100% corumbaense”, finaliza Márcia Rolon.

Pra Aprender

Durante todos os dias do Festival haverá espaço para o aprender e o ensinar. São oito oficinas e 3 palestras, os temas variam e marcam o encontro do local com o global. As novidades nesta área ficam por conta de uma contação de história com o contador, autor e palestrante Fábio Lisboa que trará para a Sala Rio Paraguai, no Centro de Convenções de Corumbá, o “Mistério Amarelo da noite”. E tem ainda o Sarau Literário “Bate-Papo com música”, uma roda de música, com a participação da Cia Ó do Borogodó e de Roberta Valente, onde será contada a história do chorinho, ritmo tão importante da MPB, no Moinho Cultural.

Avaliação

Para o poeta corumbaense, Benedito Carlos Gonçalves de Lima, “velho participante de eventos culturais” em Corumbá, e uma presença confirmada no Quebra-torto com Letras, do dia 02 de maio, no Moinho Cultural, e que segundo ele mesmo teve o privilégio de comparecer “a todas as dez edições” anteriores, o evento “teve momento altos e momentos tênues. É claro, que as circunstâncias econômicas e políticas refletiram em cada um desses momentos. As primeiras Edições foram mais recheadas de atrações que atingiram todos os segmentos, dando uma visão mais ampla da Cultura Latino Americana. Aconteceram mais discussões sobre o contexto sul-americano. E é nesse viés que se deveriam concentrar as próximas, com o fito de se resgatar e envolver mais, não só os corumbaenses e ladarenses, como também os próprios latinos americanos, que para cá poderão se aportar, dada a envergadura da proposta de integração no Mercosul”, declara o escritor, almejando novos ares para o Festival, que ainda completa dizendo que “é interessante que os valores da terra, em cada segmento, sejam contemplados. Temos o privilégio de ver uma escritora como Iolete Moreira buscando a inserção de autores corumbaenses no Quebra-Torto com Letras. Isso é muito bom. Estimula os talentos. A Vernissage de Peninha e por aí afora”, conclui o poeta.


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