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Ano X - Nº 469

Especial

O perigo da obesidade infantil

Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2. Todos têm em sua base a obesidade.

Postado em 17 de Abril de 2014 - Redação Semana On

No Brasil, a obesidade atinge quase 40% das crianças e adolescentes. No Brasil, a obesidade atinge quase 40% das crianças e adolescentes.

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em todo o mundo, quase 43 milhões de crianças apresentam sobrepeso. Aqui, no Brasil, a obesidade atinge quase 40% delas, incluídos os adolescentes. A doença, nos pequenos, se caracteriza quando a relação entre o peso e a altura da criança alcança um Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30. Entre as suas causas destacam-se fatores genéticos, hormonais, desmame precoce, dieta desbalanceada e a falta de exercícios físicos. Na maioria dos casos, hábitos de vida prevalecem em detrimento da genética. Isso significa que, na maioria das vezes, a responsabilidade é, sim, dos costumes alimentares endossados pelos pais. Afinal, as crianças não têm maturidade para fazer escolhas por si mesmas. De 12% a 17% das crianças brasileiras com idades entre 5 e 9 anos são obesas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outro dado alarmante é que 74% delas vão apresentar hipertensão arterial na vida adulta.

A obesidade e o sobrepeso infantil no Brasil aumentaram em 1.000% nos últimos 40 anos no Brasil, segundo o pesquisador e médico Víctor Keihan Rodríguez Matsudo, um dos responsáveis pelo Estudo Internacional de Obesidade Infantil, desenvolvido em vários países. Ele adverte que a tendência é a porcentagem continuar subindo. “A situação é dramática porque a quantidade de crianças com excesso de peso é muito maior do que as que têm obesidade, de modo que, em pouco tempo, aumentará a quantidade de crianças obesas”, comentou.

Segundo os dados observados no estudo, quanto mais jovens são as crianças, menos exercício elas praticam – uma dinâmica que, na avaliação do cientista é alarmante. “Crianças de sete e oito anos não estão fazendo nada, e não têm uma experiência agradável da atividade física, mas gastam o dia inteiro na internet porque as mães acham que é lindo que crianças com dois anos saibam usá-la. Estão condenando as crianças no futuro porque se não sentem o prazer da atividade física quando crianças, como vão vivenciá-lo na idade adulta?”, questionou.

De 12% a 17% das crianças com idade entre 5 e 9 anos são obesas. Outro dado alarmante é que 74% delas vão apresentar hipertensão arterial na vida adulta.

As atividades físicas são recomendadas em todas as faixas etárias, portanto o ideal é tirar a criança da frente dos aparelhos eletrônicos. "Os padrões mudaram, pois hoje as crianças são mais sedentárias e pelo menos 90% das menores de dois anos ficam muito tempo na frente do computador e da televisão", revela reforça a nutróloga e pediatra da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) Claudia Hallal Alves Gazal. Ela indica a redução do tempo de uso desses aparelhos para, no máximo, duas horas por dia. "Assim a criança evita mudar alguns padrões do tempo de sono, por exemplo, pois dormir pouco ajuda a desenvolver obesidade", completa.

Saúde Pública

Segundo Matsudo, existe 90% de possibilidades de uma criança sedentária também ser um adulto sedentário. “O Brasil hoje disputa com a China ser o país que mais aumenta de peso corporal por pessoa por ano, e os brasileiros têm ganhado meio quilo de peso corporal por pessoa ao ano, o que é um desastre”.

De acordo com o Ministério da Saúde, uma em cada três crianças brasileiras sofre com a obesidade. Por isso, segundo Gazal, a obesidade infantil deve ser tratada como um problema de saúde pública. "É importante falar sobre a prevenção, como evitar que os fatores de risco se instalem nas crianças, bem como detectar, tratar e reduzir a quantidade de complicações recorrentes da doença", opina. 

Para a especialista, a prevenção deve ser realizada logo no início do pré-natal da gestante. "Já existem estudos que provam que qualquer tipo de problema logo no início da vida contribui para o excesso de peso a longo prazo, portanto é preciso avaliar e monitorar as grávidas", justifica. A orientação alimentar também deve ser feita da forma correta, bem como o acompanhamento do crescimento fetal intrauterino.

Outro fator que costuma contribuir para a obesidade infantil é a falta de aleitamento materno. A pediatra também aconselha evitar alimentos com excesso de açúcar e gordura logo no primeiro ano de vida da criança. "Esses estímulos dados para o bebê ajudam a modificar preferências futuras".

A médica aponta ainda que é necessário intervenções de responsabilidade do setor público, privado e da sociedade para evitar que em 2020 existam 60 milhões de crianças obesas. "É necessário políticas de saúde pública, agrícolas, facilitação do transporte de produtos saudáveis e a promoção de atividades físicas", destaca.

Gazal afirma que a propaganda também tem um papel fundamental para evitar a obesidade. "O público infantil é vulnerável e é muito exposto a propagandas televisivas. 71,6% das peças publicitárias para crianças são de alimentos de fast food, doces e refrigerantes", alerta.

A pediatra ressaltou os esforços da Anvisa para regulamentar a propaganda direcionada para esse público. "73 países regulamentam e a Anvisa tenta desde 2010 fazer um controle e colocar alertas em alimentos com excesso de açúcar e gordura, mas é pressionada pela indústria de alimentos", finaliza.

Diabetes

O avanço da obesidade infantil tem alterado a incidência do diabetes tipo 2 na população brasileira. A doença, que geralmente se manifesta na maturidade, já registra diversos casos entre crianças e adolescentes. No Instituto da Criança com Diabetes, centro especializado que atende a 2.500 pacientes em Porto Alegre (RS), 3% dos casos são de diabetes tipo 2.

“Houve mudanças nos hábitos das crianças. Elas convivem muito com videogame e computador e reduziram as atividades físicas. A alimentação também mudou, elas comem muito enlatado, fast food”, diz o endocrinologista Gustavo Francklin. De acordo com o especialista, crianças e adolescentes diabéticos devem praticar atividade física regular pelo menos quatro vezes por semana e manter uma alimentação saudável, comendo de cinco a seis vezes por dia. Devem ser evitados gorduras e carboidratos.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, Balduino Tschiedel, o aumento da obesidade entre crianças e adolescentes e o aumento de casos de diabetes tipo 2 nessa faixa etária podem significar o aparecimento de complicações ainda mais cedo, como problemas renais crônicos e amputação de membros.

O desafio de mudar

Quanto mais cedo os pais começarem a lidar com o problema, melhores serão os resultados. “As crianças, em geral, se mostram mais abertas às mudanças na dieta e à reeducação alimentar. Cabe à família insistir e participar, dando o exemplo”, aconselha Rogério Lima, membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot).

As mudanças necessárias começam com a introdução de alimentação saudável e a prática de atividades físicas. Além disso, é preciso “reduzir as atitudes sedentárias (TV, videogame, computador) para menos de 2 horas diárias”, ensina a endocrinologista pediátrica Christiane Kochi, professora adjunta da Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia São Paulo.

Uma boa estratégia é dar oportunidade à criança de saber de onde vem os alimentos, como eles são cultivados e distribuídos. Quando ela toma conhecimento da origem, evolução e distribuição dos alimentos passa a colaborar mais com o processo. “Por isso, é importante levar a criança às compras, fazer passeios em chácaras com plantações, criações de animais etc. Ela deve também participar da elaboração da refeição, e os alimentos devem ter boa apresentação, com cores, aromas e sabores variados”, orienta Koshi.

Um dos principais equívocos que os pais cometem é não respeitar a saciedade de sua prole. Desde pequenas, as crianças saudáveis controlam a quantidade de alimento que necessitam ingerir durante o dia.

Para incentivar o movimento, os especialistas afirmam que isso deve ser feito da maneira mais lúdica possível, principalmente com os menores, para estimular práticas que sejam agradáveis. É preciso envolvê-los. “Os jogos como futebol, o vôlei, o basquete e outras atividades como andar de patins, bicicleta, pular corda e bambolê, entre outras, são extremamente positivas para o tratamento. Criança precisa brincar, movimentar-se e correr para melhorar a coordenação motora”, afirma Carmen Assumpção, endocrinologista e diretora do Departamento de Andrologia Feminina da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem-RJ).

Um dos principais equívocos que os pais cometem é não respeitar a saciedade de sua prole. Desde pequenas, as crianças saudáveis controlam a quantidade de alimento que necessitam ingerir durante o dia. Podem se alimentar menos em uma refeição e depois compensam na outra.  “A insistência para que se termine uma refeição é prejudicial, mesmo porque, muitas vezes, colocamos a quantidade de alimento que nós queremos e não a quantidade que a criança necessita”, diz a endocrinologista Christiane. “Antes de pensar em agir no sobrepeso, os pais devem descobrir como evitá-lo. É mais eficaz, mais econômico e menos sofrido para todos”, alerta o pediatra Moises Chencinski. Para o especialista, o importante não é ensinar o que é proibido e sim o que se pode e deve comer de forma adequada. Essa é uma das razões por que é recomendado evitar usar o alimento como uma ameaça, um brinde ou uma troca, realizar refeições diante da TV (não há concentração naquilo que se come). Além disso, é desaconselhado pular refeições, oferecer alimentos desprovidos de qualidade nutricional apenas para que a criança não fique com fome, além de trocar as frutas por sucos – mesmo os naturais.

Muito Além do Peso - Obesidade, a maior epidemia infantil da história. Confira o documentário.


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