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Domingo 03.jul.2022

Ano X - Nº 494

Coluna

Quem perde e quem ganha com a censura à Rachel Sheherazade

Toda vez que a Rachel falava uma sandice, duas coisas muito importantes aconteciam. Os malucos saiam do armário e podíamos, baseados em fatos e argumentações racionais, lançar um pouco de sanidade sobre os espíritos sem luz.

Postado em 16 de Abril de 2014 - Rodrigo Amém

Rachel Sheherazade é a grande vencedora dessa patacada. Saiu vitimada, fortalecida, defendida por todos que são a favor da liberdade de expressão e contra a censura. Vai continuar com seu emprego no SBT e a emitir suas opiniões. Rachel Sheherazade é a grande vencedora dessa patacada. Saiu vitimada, fortalecida, defendida por todos que são a favor da liberdade de expressão e contra a censura. Vai continuar com seu emprego no SBT e a emitir suas opiniões.

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Uma das marcas da linha editorial do SBT é a contribuição da rede para a história do jornalismo folclórico brasileiro. Trata-se de um compromisso com o entretenimento popular, não sua informação. Para ser carro-chefe do jornalismo da TV do Silvio, a fórmula é simples: apresentadores exóticos munidos de bordões populares e trejeitos caricatos. A lista é grande e histórica: Wagner Montes fez história com o “Povo na TV” (cujos efeitos colaterais Campo Grande conhece perfeitamente), Gil Gomes e o histórico “Aqui e Agora” e mesmo Boris Casoy fazendo biquinho e dizendo que é tudo “uma vergonha” no “SBT Brasil”. Jornalismo no SBT sempre foi caricatural e descompromissado. E, toda vez que deixou de dar certo ou despertar interesse, o departamento de jornalismo da rede paulista foi desmantelado e substituído pelo Chaves (que, ironicamente, também é popular, caricato e baseado em bordões).

Em suma: por mais que o RP do SBT diga o contrário, o jornalismo da emissora nunca foi uma Brastemp de comprometimento editorial. Um dia, alguém encaminhou para o dono do Baú um vídeo viral saído da TV Tambaú, na Paraíba. Uma apresentadora rasgava o verbo sobre a pouca vergonha que era o brasileiro parar tudo para pular carnaval. Uma voz exótica, polêmica e viral era o que seu Silvio precisava para temperar o SBT Brasil renascido das trevas. Nascia o fenômeno Rachel Sheherazade. O projeto do Silvio Santos era exatamente esse: viralizar os editoriais do jornal com opiniões arretadas. A Madalena Bonfiglioli chorava no Aqui Agora. A Sheherazade cuspia marimbondos no SBT Brasil. Agora, com vocês os números da Telesena.

O problema é que, diferentemente da programação do SBT, os tempos mudam. A internet, o crescimento da classe C, o aumento de veículos de informação, enfim, tudo contribuiu para um azedamento geral do cenário político brasileiro. E a extrema direita achou um porto seguro no discurso da Rachel em tempos de tolerância e inclusão social. E Sheherazade virou uma espécie de porta-voz de uma classe média conservadora e acuada na luta pela “moral, família e propriedade”.

Aí o caldo entornou.

Rachel sugeriu que quem defende os direitos humanos devia adotar bandido. O tipo da coisa que seu tio racista fala na ceia de natal e faz sua mãe engasgar. Mas você não faz nada. É o seu tio, ele toma remédio controlado, é natal. Deixa pra lá. Mas Rachel Sheherazade não é tia da Jandira Feghali (Imagina a festa!). E a deputada comunista pediu a cabeça da jornalista. E dizem que teve gente no governo que ameaçou cortar verba de publicidade para o SBT. Resultado: Rachel tirou férias forçadas e, na volta, vai deixar de emitir suas polêmicas opiniões na bancada do SBT Brasil.

Quem perde com isso?

Jandira Feghali queimou seu filme e ficou com fama de censora, inimiga da liberdade de expressão. Há quem diga que o fato dela ser membro do partido comunista em 2014 é prova de que ela não se importa muito com isso. Mas essa história de que a jornalista “incitou a violência” ao apoiar os justiceiros do cadeado é a versão da esquerda da surrada história de ser “contra o casamento gay para proteger as crianças”.  É meio preguiçoso e desonesto, em termos de argumentação.

O SBT perde mais um pouco de credibilidade. Como já disse, jornalismo nunca foi o forte da casa. Mas bater o pé para proteger sua liberdade editorial poderia ser um primeiro passo em direção a uma futura posição de prestígio jornalístico. Mas prestígio é como hype: tem gente que prefere receber sua parte em dinheiro. Adivinha a preferência do Sílvio?

Nós perdemos muito com isso. Toda vez que a Rachel falava uma sandice, duas coisas muito importantes aconteciam. Os malucos da nossa timeline saiam do armário e podíamos, baseados em fatos e argumentações racionais, lançar um pouco de sanidade sobre os espíritos sem luz. O debate era enriquecedor para a consciência política do país. Mesmo entre aqueles que confundem política com time de futebol. Sem os comentários da Rachel, estamos condenados ao retorno dos posts de frases sobre mulher de celulite e infidelidade “assinadas” por Jô Soares, Jabor e Clarice Lispector.

Quem ganha?

Rachel Sheherazade é a grande vencedora dessa patacada. Saiu vitimada, fortalecida, defendida por todos que são a favor da liberdade de expressão e contra a censura. Vai continuar com seu emprego no SBT e a emitir suas opiniões. Só que na internet. Minha sugestão à jornalista é que ela utilize um vlog para dar sequência as suas análises. Blog é mais difícil, porque tem que ler.


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