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Segunda-Feira 06.dez.2021

Ano X - Nº 470

Coluna

Estou em tilt. Como lidar?

Dicas para manter o sangue frio em tempos de discussões quentes

Postado em 24 de Fevereiro de 2017 - Rodrigo Amém

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Os meus companheiros de velha guarda devem ter essa lembrança: jogar pinball. Esses ancestrais do videogame que consistiam, basicamente, em impedir que a bolinha de metal caísse. Mas ela sempre caía. Aí rolava um ódio profundo que fazia nossos hormônios adolescentes ferverem. E a gente dava umas pancadas furiosas nas laterais da máquina. Resultado, o pinball parava de funcionar, uma espécie de represália ao nosso vandalismo. Isso tinha um nome: Tilt. O pinball tiltava e não adiantava reclamar: quem mandou provocar a máquina?

Passadas algumas décadas, o termo tilt foi apropriado culturalmente. Saiu do linguajar dos nerds oprimidos de fliperama para os jogadores de pôquer. Num circuito onde autocontrole é a diferença entre a vitória e a derrota, se deixar levar pelas emoções pode custar caro, literalmente. E hoje, esses profissionais chamam a raiva que prejudica as decisões de tilt.

Mas não é só nos fliperamas e cassinos. Tiltar é um problema para todo mundo, todos os dias. Volta e meia, eu tilto. Eu leio ou presencio algo que me impede de tomar decisões sensatas e pensar racionalmente. Aí, meu caro, já era. Tiltado, eu deixo de ser produtivo. Eu perco meu tempo respondendo textão de gente que eu não conheço, rebatendo argumentos que não são relevantes sobre notícias que não são verdadeiras. Um desperdício de energia e, principalmente, de tempo: meu único recurso não renovável.

Permita-se dez minutos para xingar muito no twitter. Quando o alarme tocar, relaxe, respire fundo e volte a ser um sensato e produtivo membro da sociedade. Pelo menos até o próximo post daquele seu tio horrível.

Mas como evitar? Como impedir que os trolls da sua timeline tiltem seu dia? A campeã mundial de pôquer Annie Duke oferece algumas sugestões:

1- Viaje no tempo

O post ignorante sobre a fantasia racista da subcelebridade fez se sangue ferver. Pergunte-se: se isso tivesse acontecido há dois anos, eu ainda estaria enfurecido com essa idiotice? E eu ainda vou lembrar do textão que eu quero escrever hoje, cinco anos depois? Se a resposta é não, provavelmente o gasto de energia desse tilt não é justificado. Mude de assunto, feche o Facebook, foco no trabalho. Entre o bate-boca e a produtividade, escolha sempre a produtividade. Essa é a definição de uma atitude sensata.

2 - Quem lucra com isso?

Um deputado fala que as minorias têm que se curvar diante das maiorias, por exemplo. Pergunte-se: quem sai lucrando com a sua revolta? Será que a atenção que você dedica a esse político picareta não está fomentando a presença dele na mídia? Será que ele não está usando o seu tilt como plataforma política? Será que não é uma forma de manipulação pelo discurso inflamatório? Não pense em fascismo, trabalhe.

3 - Canalize o tilt para a produtividade

Em face de uma demonstração de desonestidade intelectual que faz seu sangue ferver, você pode usar o tilt como combustível para fazer a diferença. Imagine que, toda vez que alguém postar uma mensagem defendendo o rodeio ou denunciando maus tratos em animais de rua, você reserve um real de doação para um abrigo ou uma entidade de proteção dos animais. Ao fim do mês, seu tilt vai produzir um impacto positivo nessa realidade que tanto te incomoda. Não tem dinheiro? Doe horas de trabalho voluntário. O tempo que você gastaria no textão vai ser bem melhor aproveitado na divulgação de feiras de adoção, por exemplo.

4 - Permita-se desabafar

Convenhamos, tem vezes que o tilt é inevitável. #VaiTerTretaSim. E tudo bem. O ser humano é esse bicho complexo e, na maior parte do tempo, nada racional. O importante é que você entenda que está tiltando e não deixe isso te consumir demais. Use um marcador de tempo, daqueles de cozinha. Permita-se dez minutos para xingar muito no twitter. Quando o alarme tocar, relaxe, respire fundo e volte a ser um sensato e produtivo membro da sociedade. Pelo menos até o próximo post daquele seu tio horrível.


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