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Terça-Feira 19.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna

O que será que aconteceu no vizinho?

Quando a tragédia e a dor deixam de ser apenas mais uma manchete na tevê e se concretizam dentro da própria casa.

Postado em 11 de Abril de 2014 - Cristina Livramento

Moradores e curiosos assistem a retirada do corpo de Erlon, no Bairro São Jorge da Lagoa. Foto: Minamar Junior/Midiamax(Reprodução) Moradores e curiosos assistem a retirada do corpo de Erlon, no Bairro São Jorge da Lagoa. Foto: Minamar Junior/Midiamax(Reprodução)

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“Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras.” Oração da serenidade

 

A violência que assola o país pode ser resumida em uma única entrevista, exibida durante esta semana, no MS Record, 1ª Edição. Em alguns minutos, Angela Fernandes, do projeto Mães da Fronteira, conseguiu colocar em palavras quem somos e como o caminho, da conscientização sobre o significado de cidadania, pode ser incrivelmente doloroso.

Angela Fernandes e Lilian Silvestrini foram unidas pela dor, em 2012, após o sequestro seguido de morte de seus filhos, Leonardo Fernandes, 19 anos, e Breno Luigi Silvestrini de Araújo, 18 anos. A noite, em que aconteceu o crime, era só mais um dia qualquer na vida deles e de seus pais. Até a notícia do latrocínio.

Ao saírem de um bar, em Campo Grande, Leonardo e Breno foram sequestrados até o macroanel rodoviário, entre as saídas para Aquidauana e Rochedo e, em uma tubulação que passa por baixo da rodovia, os jovens foram obrigados a ajoelhar e foram assassinados. Tudo isso por conta de uma caminhonete que seria trocada por drogas na fronteira.

É impossível passar despercebido. Mas, naquela rua, ninguém se incomodou com o odor, ninguém avisou a Polícia. O odor, o som do disparo de arma de fogo.

Angela, mãe de Leonardo, estava na televisão para comentar o desfecho do sequestro, também seguido de morte, do empresário Erlon Peterson Pereira Bernal, 32 anos. Erlon saiu de casa para mostrar o veículo que tinha colocado à venda, em um site na internet, para um possível comprador e não voltou mais. O corpo do empresário foi encontrado pela Polícia, no domingo (6), no Bairro São Jorge da Lagoa, dentro de uma fossa, no quintal da casa de uma adolescente envolvida no sequestro e morte do rapaz.

Lino Bernal, pai de Erlon, contou para a imprensa o último comentário do filho, antes de sair do escritório para mostrar o automóvel ao possível comprador. “Ele brincou afirmando que a insistência era tanta que poderia ser até um assalto”. Não era brincadeira, era real.

Como também era real o cheiro do corpo, em decomposição, de Erlon na rua da residência da adolescente. A maioria das pessoas já passou por um animal morto, pela estrada ou mesmo na cidade, um gato, um cachorro atropelado. É impossível passar despercebido. Mas, naquela rua, ninguém se incomodou com o odor, ninguém avisou a Polícia. O odor, o som do disparo de arma de fogo - Erlon foi morto com um tiro na cabeça no mesmo endereço em que o corpo foi encontrado - e a movimentação naquela casa, faziam parte de um dia qualquer.

Profissão dos criminosos

Segundo a titular da Delegacia Especializada de Furtos e Roubos de Veículos (Defurv) Maria de Lourdes Cano, Rafael da Costa da Silva e Weverson Gonçalves Feitosa, ambos com 22 anos, na época do crime, eram estudantes de radiologia e se conheciam há um ano e meio. Rafael foi o responsável pela agressão e execução de Leonardo e Breno. Weverson ajudou Rafael nas agressões. A motivação da quadrilha era o “dinheiro fácil”.

Os envolvidos no latrocínio de Erlon, Thiago Henrique Ribeiro, 21 anos, trabalhava em uma fábrica de refrigerantes na saída para São Paulo, Jeferson dos Santos Souza, 21 anos, é pedreiro, Rafael Diogo, conhecido como “Tartaruga”, era empregado de uma lavanderia de hospital. Todos os envolvidos no crime foram apresentados para a imprensa, esta semana, na Defurv.

Dinheiro fácil, vida fácil, mais um crime, de novo outro dia, a manchete no jornal, a notícia na tevê. Criminosos e vítimas seguem tendo suas vidas transformadas em momentos históricos.

A dor universal

Angela, durante a entrevista para o jornal local, lembrou do relato da deputada federal Keiko Ota (PSB), sobre o dia em que ela e o marido, o comerciante Masataka Ota, chegavam em casa, à noite, após mais um dia, como outro qualquer, de muito trabalho.

Ao chegarem na rua da casa onde moravam, chamou a atenção a quantidade de viaturas da polícia e se perguntaram “o que será que aconteceu na casa do vizinho?” E o crime não havia acontecido na casa de nenhum dos vizinhos, o crime havia acontecido dentro da casa deles.

Keiko é mãe de Ives Yoshiaki Ota, sequestrado, em 1997, na zona leste de São Paulo, pelo motoboy Adelino Donizete Esteves a mando do policial militar Paulo de Tarso Dantas, que fazia bico como segurança em uma loja de Masataka. Dantas teve apoio de outro segurança da loja, o soldado da Polícia Militar, Sérgio Eduardo Pereira de Souza.

Ives brincava dentro de casa quando foi surpreendido pelo motoboy e levado para cativeiro, a própria casa de Adelino. Lá reconheceu Dantas, que ordenou a morte do garoto. O motoboy deu um copo de leite com chocolate e uma espécie de calmante ao menino naquela mesma noite. Depois, Adelino o colocou – já sedado – em um buraco no próprio quarto da enteada, debaixo do berço dela, e disparou dois tiros no rosto de Ives.

A motivação do crime era a tentativa de extorsão de R$ 800 mil que, mesmo após a morte de Ives, teve continuidade. O corpo do garoto de oito anos passou a valer R$ 80 mil.

Angela, vítima do cenário catastrófico de políticas públicas, de educação, cultura, saúde, moradia, alimentação, transporte e emprego, instauradas no Brasil, estava na tevê dando o próprio testemunho de que o problema do vizinho é também meu e seu.

Nenhuma penalidade ou vingança trará a vida de Breno, Leonardo, Erlon e Ives de volta. É preciso que a punição para crimes hediondos seja revista, assim como todo o sistema prisional precisa ser revisto, mas todas essas medidas podem afetar apenas o futuro, jamais o passado. Pais e mães agora são, pela dor, uma única voz em uma tentativa desesperadora em conseguir fazer com que nós (eu e você) consigamos pensar, na prática, um futuro melhor.

Um futuro melhor para as famílias das vítimas, um futuro melhor para que a motivação pelo “dinheiro fácil” e a coisificação do significado da vida seja, por fim, abolido.

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