Semana On

Domingo 03.jul.2022

Ano X - Nº 494

Coluna

A obra de bugra sarará

No seu 12º livro, a escritora sul-mato-grossense Vanda Ferreira reúne crônicas.

Postado em 04 de Abril de 2014 - Ana Carolina Monteiro

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A Coluna Entre Linhas desta semana abre espaço para a escritora campo-grandense Vanda Ferreira, mais conhecida como Bugra Sarará, que está nos preparativos finais para seu 12º livro, “Mitologia de uma Bugra”, uma coletânea de suas melhores crônicas.

Vanda Ferreira completou 55 anos em fevereiro de 2014, em Campo Grande, onde nasceu e reside. É produtora de literatura e artes visuais, e autora de diversos projetos culturais e ambientais. Tem participação em antologias regionais, nacionais e internacional. É autora do movimento “Pé de LUXO”, “Conservatório da Palavra”, “Roda de Prosa”, “Acampamento de Poetas”, CIRANDINHA PIC NIC, Seminário Sinestesia e literatura, Praças, Jardins e afins. A escritora participa ativamente em festivais, como o de Inverno, em Bonito, e o da América do Sul, em Corumbá, desde o ano de 2007.

Com vocês, uma amostra exclusiva do que estará no próximo livro da escritora.

Boa leitura!

-

COFRE DE HISTÓRIAS

Certo dia fiz longa pausa diante de entulhos. Induzida pela atração incontrolável, pela releitura de coisas antigas, velhas, abandonadas. Pulsa um mundo em cada objeto descartado, substituído ou simplesmente desprezado.

Descobri que estava diante de uma montanha de ideias, mistérios de histórias ocultadas, mascaradas, despejadas ali naquele monte de lixo. Por dedução tentei decifrar o passado de quinquilharias, como, por exemplo, a quem pertenceram, se foram úteis, amadas, mal tratadas... Há justiça destinar para a inutilidade aquilo que nos serviu?

Pausei o olhar sobre um ramalhete de rosas murchas. As pétalas, já desidratadas pelo passado tempo, insistiam em sangrar a originalidade da imponência vermelha do rubi, talvez o capítulo principal de um breve romance. Cena que me inspirou ao retrocesso. O plantio daquelas flores, sua colheita, a comercialização, o presentear, a emoção de cada fase de vida daquelas rosas, tudo que se processou até nosso primeiro encontro, onde a cumplicidade estabeleceu a conexão entre dois mundos de coisas feitas pelo homem vivo e o morto.

Interroguei a mim mesma, e meus “botões” ficaram por demais curiosos quanto à missão daquele ramalhete, que apesar de jazer no lixo, mantinha o certo quê de exclusiva beleza. Teria obtido o êxito ao objetivo que lhe propuseram? Quantos prazeres e a quantas pessoas aquelas rosas teriam proporcionado antes, durante e após sua transformação em ramalhete, além de meu apreço?

Ao avistar uma velha porta quebrada, escombro de algum prédio reformado ou demolido, imaginei se alguém sentou-se ao seu batente para meditar com o pé no chão, ou se algum casal, em beijo de despedida a fez de marco da separação, ou a usou como portal para alegre beijo de reencontro.

Todo lixo tem história. Cada um daqueles objetos já proporcionou alguma ou várias emoções, tristes ou alegres aos seus abandonadores que, por algum motivo, num certo (ou até mesmo incerto) momento fora descartado, posto do lado de fora da intimidade, enfim apartados de suas vidas.

No lixo são jogadas coisas que avivam sentimentos. Desfazemos de capítulos ou promovemos o fim de convivência, fim de história, ponto final de um trecho percorrido em paralelo com a tal coisa depositada na lixeira. Talvez jogamos no lixo as coisas significativas, como se decretássemos a morte de dolorosas lembranças. Desfazemo-nos de coisas sem ritual de despedida, sem chance para voltar. É a hora da maldade, do infame egoísmo no gesto que despreza a continuidade de vida.

Por outro lado, impera a positividade no desejo para limpar passado, na soberana sede pelo novo absoluto, pelo sonho virgem que renova a esperança intuitiva de coisas melhores.

Com certeza, cada um dos componentes daquele amontoado marcou momento histórico, episódio no qual somente o próprio objeto pactuou da cumplicidade sentimental. Nessa apreciação vi infinidade de coisas que juntaram seus destinos, suas lendas, seus fracassos finais, mas que, no entanto, mantiveram as individualidades coadjuvantes ou protagonistas de contos, poemas, canções e prosas.

Ao redor: a velha árvore, o buraco na terra, o caco de garrafa, a lixeira, a panela amassada e furada, a xícara partida e inúmeros outros muitos objetos, cada qual um cofre de histórias codificadas.

Vanda Ferreira


Voltar


Comente sobre essa publicação...