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Domingo 03.jul.2022

Ano X - Nº 494

Coluna

Em Belo Monte o gigante despertou

A bola da vez na Amazônia é seu potencial hidrelétrico, já que o consumo de energia elétrica no mundo alcança níveis absurdos.

Postado em 04 de Abril de 2014 - Fabio Pellegrini

A impressionante mega construção. A impressionante mega construção. Foto: Fabio Pellegrini
Em Belo Monte o gigante despertou A impressionante mega construção. Floresta vista do alto. No aeroporto, propaganda dos novos bairros. Cena comum no trânsito desorganizado de Altamira. As dimensões do impacto ambiental impressionam. Lixo no porto geral de Altamira. A periferia de Altamira. Vista aérea de Altamira e novas construções.

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A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo, com 6,8 milhões de quilômetros quadrados que se distribuem por 8 países, sendo o Brasil com sua maior parte: 70%. São aproximadamente 80 mil quilômetros de rios. Pelo menos 50% da biodiversidade terrestre planeta estão ali.

É lá que acontece a polêmica construção da terceira maior hidrelétrica do mundo: Belo Monte. Os impactos ambientais da construção dessa usina são impressionantes. Há 25 mil pessoas trabalhando 24 horas por dia nesse grandioso projeto de engenharia. O visual remete a filmes de ficção científica. A Folha de São Paulo fez uma grande reportagem sobre o assunto, fundamental aos interessados em compreender o que está acontecendo naquele pedaço do Brasil.

A bola da vez na Amazônia é seu potencial hidrelétrico, já que o consumo de energia elétrica no mundo alcança níveis absurdos. Podemos citar as mudanças climáticas e o consumismo desenfreado como causas para tal fato.

Biodiversidade é uma imensa variedade de formas de vida que podem servir como matérias-primas para uma infinidade de invenções humanas.

Para os que pensam que biodiversidade é o ursinho-panda e a oncinha-pintada fofinhos, tem mais: biodiversidade é uma imensa variedade de formas de vida que podem servir como matérias-primas para uma infinidade de invenções humanas (de remédios a microchips de supercomputadores). Ou seja: a Amazônia não é só madeira, soja, gado, ouro e energia elétrica.

A floresta em pé vale muito mais, em longo prazo, do que a floresta deitada em curto prazo. Viva, ela exerce papel vital no regime de chuvas de todo o continente. Qualquer alteração de grandes proporções naquele ambiente comprometeria a produção de alimentos no Brasil e o modo de vida da população.

Processo de ocupação

A Amazônia começou a ser explorada pelo governo federal na década de 1970. Fomentava-se a ocupação da região com o lema “Integrar para não entregar”. Receoso de intenções norte-americanas em “internacionalizar” a Amazônia, o presidente Médici aproveitou a ocasião para aliviar tensões sociais no Sul e Nordeste do Brasil e incentivou a migração dessas regiões para a nova fronteira agrícola, de terras fartas e de baixo custo.

Desde então, a floresta, seus rios e solo vêm sendo devastados a uma velocidade impressionante. Devido à fiscalização, desde 2004, as taxas de desmatamento na Amazônia têm caído consistentemente.  Em 2013, porém, o aumento de 28% no desmatamento na região fez soar um novo alerta.

Três grandes entidades que monitoram a Amazônia - o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) – consideram que esse aumento é inaceitável por três motivos: em grande parte é ilegal; há grande quantidade de área já desmatada porém subutilizada; e o Poder Público brasileiro já possui os elementos fundamentais para combater o desmatamento amazônico.

Em 2013 o aumento de 28% no desmatamento na Amazônia fez soar um novo alerta.

O mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado na semana passada, informa que as mudanças climáticas afetarão toda a humanidade de forma drástica nos próximos anos. Pois é, chegou a hora de pagarmos pelo uso irracional e mal planejado dos recursos naturais do planeta.

Produzido por 309 cientistas de 70 países, o documento teve 50.492 revisões de autores externos. “Esta é a evidência científica mais sólida existente”, afirma Michel Jarraud, da Organização Meteorológica Mundial (OMM). “Com tantas provas, a ignorância não pode mais ser usada como desculpa para a falta de ação”, concluiu.

Voltando a Belo Monte, apesar da enorme perda para a biodiversidade às custas do desenvolvimento, a população local está recebendo bilhões de reais em investimentos que visam o incremento da qualidade de vida. São moradias em locais urbanizados, redes de água e esgoto, melhorias nas áreas de saúde, educação, segurança pública, entre outros benefícios. A expectativa é que as cidades da região passem ter um “padrão FIFA”.

É hora de exigir dos candidatos a gestores públicos propostas concretas que visem um desenvolvimento que atenda ao tripé da sustentabilidade.

Não fosse o mega empreendimento e os levantes populares ocorridos nos últimos anos reclamando pela interrupção da obra e/ou medidas mitigatórias e compensatórias, é bem provável que Altamira e outros municípios afetados pelo barramento do rio Xingu e o represamento de 500 km2 estariam fadados à mesmice dos municípios da região Norte.

Tais investimentos são o que os governos municipais, estaduais e federal do Brasil deveriam realizar por conta própria, mediante a altíssima escala de tributos que o cidadão brasileiro é obrigado a pagar.

2014 é ano de eleição. Para muitos, ano de ganhar dinheiro. Para outros, é o momento da mudança! É hora de exigir dos candidatos a gestores públicos propostas concretas que visem um desenvolvimento que atenda ao tripé da sustentabilidade: ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto.

Em Belo Monte o gigante acordou. E no restante no Brasil?


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