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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Do profundo Pantanal

156 famílias têm reaprendido a viver, lutando pela água para beber, cozinhar e produzir.

Postado em 28 de Março de 2014 - Ana Carolina Monteiro

No Pantanal 156 famílias têm readaptado suas vidas com as benfeitorias oferecidas pelo Projeto Social Geração de Renda para as Comunidades do Pantanal. No Pantanal 156 famílias têm readaptado suas vidas com as benfeitorias oferecidas pelo Projeto Social Geração de Renda para as Comunidades do Pantanal.
Do profundo Pantanal  No Pantanal 156 famílias têm readaptado suas vidas com as benfeitorias oferecidas pelo Projeto Social Geração de Renda para as Comunidades do Pantanal. No Pantanal 156 famílias têm readaptado suas vidas com as benfeitorias oferecidas pelo Projeto Social Geração de Renda para as Comunidades do Pantanal. No Pantanal 156 famílias têm readaptado suas vidas com as benfeitorias oferecidas pelo Projeto Social Geração de Renda para as Comunidades do Pantanal.

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Uma região de muitas histórias. Cantada nas músicas de Almir Sater. Onde famílias centenárias, de geração em geração, se estabeleceram e têm vivido, ao seu estilo, em meio a animais silvestres, sem energia elétrica, morando em casas cobertas de palhas de acuri, de chão batido, se locomovendo a cavalo ou a pé, plantando para sobreviver, sem água canalizada, mas mantendo firme a tradição do povo pantaneiro. No coração do Brasil, em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Estamos falando da região conhecida como o Pantanal de Paiaguás. O Pantanal, entretanto não é um só. Existem 10 tipos de pantanal na região com características diferentes de solo, vegetação e drenagem, o do Paiaguás é o maior deles. Lá, 156 famílias têm reaprendido a viver, inclusive lutando pela água para beber, cozinhar e produzir, numa seca vista antes somente há 55 anos.

Hoje, seis comunidades tradicionais da região, também chamado profundo Pantanal, formam grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais. Corixão, a primeira delas, rio acima, a 80 km de Corumbá. Cedrinho, Cedro, Limãozinho, Colônia São Domingos, a mais antiga, com maior número de famílias (56) e onde convivem descendentes das etnias indígenas guanãs e bororos, e Colônia Bracinho, a mais distante, a 140 km de Corumbá, todas em circunvizinhança, às margens do Rio Taquari. Nessas comunidades, estas 156 famílias têm readaptado suas vidas com as benfeitorias oferecidas pelo Projeto Social Geração de Renda para as Comunidades do Pantanal, patrocinado pela Petrobras e conduzido pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Diocese de Corumbá, uma das únicas no Estado ainda a sobreviver e com projetos ativos. A outra é a da Diocese de Dourados.

“É um povo muito sofrido, mas que tem uma capacidade imensa de se adaptar às mais diversas situações. Desde 1959, quando aconteceu uma grande seca na região, como esta agora, assim me contou o seu Justino Paz, um dos moradores mais antigos das comunidades, essas famílias têm mudado seu estilo de vida e adaptado toda a sua rotina, moradia, agricultura, transporte, estudo das crianças, ao cenário do Pantanal.”, explica a coordenadora executiva do projeto, Amélia de Pereira Santana Zanella.

Amélia é membro de longa data da CPT da Diocese de Corumbá, entidade responsável e titular do Projeto, e que desde os anos de 1990 trabalha com essas comunidades tradicionais. “Inicialmente, nosso empenho era dar visibilidade a essas famílias, esquecidas e ignoradas pelo Poder Público. Organizar a documentação dos que não tinham nem registro de nascimento, e não podiam se inscrever nos programas sociais do Governo. As crianças não tinham acesso à educação, à saúde. Hoje, elas têm médico, dentistas, periodicamente, as vacinas estão em dia. A maioria já está registrada. Melhorou muito depois que conseguimos que as comunidades fossem conhecidas, mas ainda temos muito a fazer”, conta Amélia Zanella.

Bisavós

Para compor esta reportagem eu precisava conversar com alguns moradores das Comunidades, mas onde achá-los, a não ser a quilômetros de distância, Pantanal adentro? Amélia me ajudou e saiu contatando quem poderia estar pela cidade. Depois de várias ligações - sim eles têm acesso a celular, e muitos já andam com seus aparelhos por onde quer que vão - Amélia não achou um, mas uma família, de 3 irmãos, que com um jeito desconfiado e observador, me recebeu, na sede do Projeto em Corumbá, na tarde de sexta-feira (28) para uma conversa com muitas pausas e olhares fugidios. Deociney Soares Cunha, 34, Marcioney Soares Cunha, 24, com sua esposa e a filhinha Myllene, de 1 ano e 3 meses, e Marioney Soares Cunha, 23, todos moradores da Comunidade Cedrinho, onde também vivem outras 10 famílias me contaram um pouco do que é viver como pantaneiros. “Tem também uma irmã nossa que mora na cidade, a Deocileic, ela tem 33 anos”, apresenta o mais velho deles, Deociney.

Lembraram de seus bisavós que eram descendentes de paraguaios e argentinos, por parte de pai, portugueses, e alemães, por parte de mãe. O irmão mais velho, Deociney, funcionário municipal, mais falante que os outros dois, é hoje, morador da cidade. Ele conta que deixou a Comunidade Cedrinho, onde nasceu e cresceu, para estudar e galgar novos rumos, mas sempre que pode volta para rever a família e os amigos. “Tenho o ensino médio completo. Passei em dois concursos, mas não quis assumir, hoje sou contratado da Saúde. Sempre vou pra lá. Esses dias, mesmo, eu saí daqui umas nove horas da noite para trazer a nenê que estava doentinha e passando mal”, relata.

Já os outros dois, muito tímidos - Marcioney, 24, e Marioney, 23 - estudaram até a 4ª série, ainda vivem e trabalham com seus pais na Comunidade, onde nasceram e foram criados, e não têm planos de sair de lá, pelo menos por enquanto. “A gente não tem muitas opções, não é fácil a vida lá na Comunidade, mas já está bem melhor do que em outras épocas. A gente acostumou a viver lá”, relata Marcioney, que estava na cidade com a esposa Cleuza, 21, para cadastrar a bebê Myllene no Projeto Bolsa Família.

Os irmãos contam que a vida deles é trabalho. De domingo a domingo, respeitando apenas os horários de “sol forte”. “A gente acorda cedo, umas cinco, seis da manhã, toma chimarrão, depois é servido o café da manhã que a mamãe faz. Saímos pra trabalhar, aproveitando que tá fresco, e voltamos lá por onze horas para almoçar, e esperamos um pouco o sol forte baixar pra voltar pra roça. Lá pelas cinco da tarde, a gente volta pra casa. É assim a nossa vida”, narra o caçula da família, Marioney, solteiro, mas de namorico com uma moça da comunidade Corixão.

- Mas e o lazer - pergunto?

Aos risos, os três, respondem que gostam de jogar bola na casa dos vizinhos, se reunir para conversas em família, e claro, tomar o famoso teréré. “Tem as festas religiosas também, né. Minha mãe que organiza as festas lá no Cedrinho. A festa do Divino Espírito Santo. Aí todo mundo se reúne e se diverte junto”, explica Deociney.

Aos risos, os três, respondem que gostam de jogar bola na casa dos vizinhos, se reunir para conversas em família, e claro, tomar o famoso teréré.

Os irmãos contam que para vir até a cidade, geralmente para fazer compras, ou consultar médicos, eles precisam juntar dinheiro de 5 ou 6 meses de trabalho. “A passagem de barco é muito cara, em torno de R$ 70 por pessoa, e ainda a gente tem que pagar R$ 10 por unidade do que carregamos, menos a nossa bagagem que não é cobrada. Por isso muita gente não vem na cidade”, disse Deociney. “Eu mesmo, já fiquei 2 anos sem vir pra cidade”, completa Marcioney, pai da pequena Myllene.

No caso desta família, a dificuldade de transporte foi minimizada com a compra de um barco de madeira a motor, chamado rabeta. “Com o dinheiro de uma passagem a gente consegue colocar uns 30 litros de óleo diesel na rabeta e fazer uma ida e uma volta, nós quatro, mais a nenê. Rende muito mais”, esclarece Deociney, que está afastado do serviço por problemas no tendão do ombro direito e hoje se vira como piloteiro, na maioria das vezes para o próprio Projeto.

Os irmãos se despedem de mim mais descontraídos, mas antes posam para foto e pedem para eu mostrar depois onde vai ser publicada a reportagem.

Mãos à obra

O Projeto Geração de Renda foi aprovado na seleção de 2012, dentro do Programa Desenvolvimento e Cidadania, da Petrobras, atualmente em reformulação pela estatal, com o objetivo de melhorar as condições de vida daquelas 156 famílias, por meio do acompanhamento na produção, transformação e comercialização dos produtos nativos e cultivados localmente, como coco, goiaba, maracujá, melão, melancia, abóbora, mandioca, milho, cana, banana. “A ideia é dar condições para que essas pessoas cultivem estes alimentos para subsistência e o excedente possam comercializar, in natura ou em doces, entre eles, e até mesmo na cidade. Nossa ideia é inseri-los na Feira do Produtor, que acontece a cada 15 dias aqui em Corumbá, e na feira de Domingo. Também estamos pensando em instituir a Compra Solidária, junto às pessoas de nossa Paróquia, conhecidos, familiares, e quem quiser adquirir os produtos das Comunidades”, continua Amélia.

Iniciado em setembro de 2013, com a liberação da primeira parcela de um total de seis, quadrimestrais, o Projeto prevê cinco fases a serem trabalhadas até setembro de 2015: Habitação e Água; Agricultura, em execução no momento; Transportes, com a aquisição de 40 carroças e 2 barcos de alumínio; Geração de Renda, fase da comercialização dos produtos cultivados; e Organização Comunitária, fase mais desafiante, segundo a Coordenadora, por exigir das famílias algo como liderança e cooperativismo. Estilos de conviver ao qual as famílias ainda não estão acostumadas, uma vez que cada uma cuida do que é seu, do jeito que acha melhor.

“Mas acreditamos que se essas famílias têm condições de organizar três dias de festas religiosas, todos os anos, quando tarefas são divididas, responsabilidades partilhadas, com certeza vão conseguir se organizar entre si e garantir benefícios em comum, apesar de todas as adversidades do local. É para isso que estamos trabalhando”, torce Amélia Zanella.

O possível do impossível

Na atual fase do Projeto, todas as famílias estão trabalhando em seus poços manuais, a fim de garantir água para subsistência e para o que chamam de “Quintal Produtivo”, roças cercadas, com cultivo em grande variedade. Segundo a coordenadora, a meta é que cada família tenha seu poço pronto e funcionando até dezembro deste ano.

Para isso, as comunidades têm recebido, aos poucos, manilhas de cimento de 50 cm x 1,10 de diâmetro, produzidas numa fábrica em Corumbá, levadas de barco até o Porto da cidade, de onde são embarcadas em lanchas e seguem até as comunidades. Ao chegarem aos portos de cada uma das 4 comunidades beneficiadas, às margens do Taquari, as manilhas são transportadas pelos moradores, em sistema de mutirão, como podem, em carros de boi, e barcos de alumínio. Apenas nas Comunidades Corixão e Cedrinho, por dificuldades de transporte, os poços estão sendo construídos com tábuas de piúva seca. “A gente aproveita as árvores mortas, que secaram depois da fase da cheia”, conta Marioney Soares Cunha, morador de Cedrinho.

Após a perfuração do poço, as manilhas são colocadas uma sobre a outra, como em uma torre, até uma altura de 10 metros. Uma vez que o terreno é muito arenoso e a água barrenta. “Estamos usando sulfato de alumínio, cedido pela Sanesul, para decantar a água e dar uma melhorada na qualidade dela para beber”, acrescenta Amélia.

Além disso, 100 choupanas estão recebendo telhados de Eternit, suficientes para cobrir 28 m2, ou até dois cômodos das casas de palha de acuri, planta que quase não se encontra mais naquela região. “Esses telhados foi uma ideia que tivemos para aproveitar uma sobra de recurso, depois de contemplar todas as temáticas do Projeto, e no intuito de atender a um desejo antigo, principalmente das mulheres das comunidades, que é o de ter uma cozinha coberta ou um quarto coberto para evitar a proliferação da sujeira das fezes dos morcegos, que se alojam aos montes entre as lonas pretas, usadas para impermeabilização, e as palhas das casas”, explica a coordenadora do Projeto.

Muito ainda se tem por fazer. “Estamos lutando por estradas, transporte adequado e sem custo para as famílias, escolas dentro das comunidades, para que 100% deles tenham seus registros de nascimento e acesso aos programas do Governo. Vamos trabalhar para que em cada comunidade haja uma Unidade de Produção para preparo do que irá ser comercializado, enfim” o trabalho continua, finaliza Amélia. Mas o que importa é que os primeiros passos, a pé, a cavalo, ou de barco, já foram dados.


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