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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Os Morros de Aquidauana

Pegar estrada é uma das sensações mais prazerosas que podemos desfrutar.

Postado em 27 de Março de 2014 - Fabio Pellegrini

Os morros te esperam em Mato Grosso do Sul Os morros te esperam em Mato Grosso do Sul Foto: Fabio Pellegrini

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Pegar estrada ou “fazer rastro”, como dizem os de espírito aventureiro, é uma das sensações mais prazerosas que podemos desfrutar. Seja de bike, moto, carro ou ônibus, a descoberta de novas paisagens - e a sensação de novas experiências estão por vir - mexe com a nossa imaginação.

O viajante que passa pela rodovia BR-262 entre Campo Grande e Corumbá (ou de trem entre Campo Grande e Miranda) tem como referência os imponentes paredões de arenito avermelhado que se estendem entre Dois Irmãos do Buriti e Anastácio.

É a Serra de Maracaju, divisor de águas de Mato Grosso do Sul, cortando o estado de norte a sudeste, limite entre a planície pantaneira e o planalto central brasileiro. Em cada município ela leva vários nomes, como Santa Bárbara, Pindaívão, Serra Negra, Amambai, entre tantos outros.

Seja de bike, moto, carro ou ônibus, a descoberta de novas paisagens mexe com a nossa imaginação.

Mas nesse trecho, em especial, quem levou a honra de denominar a morraria, ainda que de forma popular, foi a vizinha Aquidauana.

Tempos de Guerra

Em tempos da Guerra do Paraguai (ou Guerra do Brasil, para os paraguaios, que durou de 1864 a 1870) os Morros (somente, pois Aquiadauana ainda não existia) foram fundamental refúgio para os habitantes das Vilas de Miranda e Nioaque, primeiros núcleos habitacionais do sul do Mato Grosso uno, quando da invasão paraguaia.

Naqueles altiplanos e em suas fendas, verdadeiros abrigos naturais, conviveram em plena harmonia indígenas de várias etnias, não-indígenas e figuras ilustres do Império Brasileiro, como o Visconde de Taunay (leia-se Toné).

Este, inclusive, assim registrou sua passagem de cerca de nove meses, aguardando reforços para repelir os invasores: “Os Morros! Que época alegre e despreocupada da minha vida! Que período de existência original e divertido! Muitos meses lá passei naquele planalto umbroso da Serra de Maracaju, de março a julho, em situação só comparável com a dos primeiros exploradores de regiões desconhecidas no meio de populações selvagens, mas de trato simpático e meigo. (...) É que experimentei ali, na prática das ideias de e teses de Jean-Jacques Rousseau, a doçura da vida não-civilizada e o contato do homem bom de índole, mas inculto e agreste. (...) Sentia-me deveras feliz no seio daquela esplêncida natureza, debaixo daquelas gigantescas árvores ou à beira de puríssimas águas correntes e na íntima convivência dos muitos índios terena, quiniquinaus, laianos e guanás que nos cercavam”.

Hoje

Atualmente esse conjunto de singularidades resultou na Estrada Parque de Piraputanga. Uma área de proteção ambiental (APA), de pouco mais de 10 mil hectares, definida pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) como prioritária para conservação da biodiversidade.

A ideia é proteger o conjunto paisagístico, ecológico e histórico cultural, já que, além das belíssimas paisagens de contraste entre os morros testemunhos e o vale do rio Aquidauana, há sítios arqueológicos com inscrições rupestres e petroglifos.

Entre os morros testemunhos e o vale do rio Aquidauana, há sítios arqueológicos com inscrições rupestres e petroglifos.

A estrada integra os distritos de Palmeiras (município de Dois Irmãos do Buriti), Piraputanga e Camisão (Aquidauana). E leva ainda a lugares de nomes curiosos como Vale das Bruxas, Buraco da Eva, Furnas dos Baianos, Córrego das Antas, Calçadão do Jorge Farias, Cachoeira do Serrano, Praia do Dinho, Morro do Paxixi, Cachoeira do Morcego, entre outros, que aguçam a curiosidade do visitante e desperta a vontade da prosa com os moradores locais em busca das particularidades de cada lugar desses.

Muita história

Na década de 1930 os nordestinos que trabalharam na construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil (que ligava Bauru a Corumbá) descobriram diamantes no rio Aquidauana e e em seus afluentes, o que provocou uma migração em massa para esses e outros lugarejos, transformando-os de corrutelas e patrimônios.

Já nos anos 1970 e 1980, remanescentes do movimento hippie transformaram a região em point. A graça da turma era pegar o Trem do Pantanal em busca das conexões  sul-americanas para se chegar a Machu Picchu, no Peru. Não sem antes se energizar em Piraputanga, claro!  

Os ranchos da região passaram por um boom imobiliário se modernizaram e são disputados por figurões da alta sociedade e políticos.

De uns dez anos pra cá, com a chegada do asfalto e da telefonia/internet, os ranchos da região passaram por um boom imobiliário se modernizaram e são disputados por figurões da alta sociedade e políticos.

Ao longo do tempo, muita coisa ali aconteceu e muita coisa já foi vista em Piraputanga e região. Seus abrigos rochosos e beiras de rios mexem com a imaginação das pessoas. São aparições fantásticas, fenômenos sobrenaturais, lendas, mas também fatos reais, como relatam Paulo Simões e Almir Sater na belíssima composição Serra de Maracaju:

“Lembro de um velho índio contando histórias

De glórias e tragédias que não vivi

Quando das estrelas vieram deuses

E seus sinais estão por aí

Depois de um certo tempo eles foram embora

Deixando para trás um povo feliz

 

Mas os portugueses e os espanhóis

Invadiram a terra dos Guaranis

Então vieram os bandeirantes

E os retirantes lá das Gerais.

Por muito tempo não houve paz

Sofreu demais quem te ama

Bela Serra de Maracaju

 

Seus mistérios quero traduzir

Descobrir as lendas e memórias

De cada légua que te percorri

Eu cheguei aqui com os meus próprios pés

E hoje tenho minha raiz

 

Dos antigos lagos dos Xaraés

Toco chamamés que eu mesmo fiz

De hoje em diante somos iguais

Quem de nossa terra te chama

Bela Serra de Maracaju”

 

Inspire-se! Passe um fim de semana diferente. Há pousadas, campings, restaurantes, lanchonetes, festas tradicionais, atividades ao ar livre, moradores respeitosos e atenciosos com os visitantes, comida boa, belas paisagens... Os Morros te esperam. 


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