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Domingo 03.jul.2022

Ano X - Nº 494

Coluna

Felicidade e escombros

Reflexões de uma mulher qualquer sobre o cotidiano, relações humanas e a cidade.

Postado em 26 de Março de 2014 - Cristina Livramento

Rua XV de Novembro esquina com Avenida Noroeste. Rua XV de Novembro esquina com Avenida Noroeste. Foto: Cristina Livramento

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Às vezes acontece de acordar com uma sensação bizarra no peito. É uma alegria quase incontrolável, sem nenhuma explicação plausível. Eu chamo de sintonia metafísica. Enquanto para uns Campo Grande é a Cidade Morena dos campo-grandenses, para outros (e pra mim) é apenas mais uma cidade com novos endereços, novos shoppings, novos escombros e velhos restos mentais. Sentir essa alegria – do nada – em uma cidade em que você esbarra com os mesmos preconceitos e cobranças culturais de 20 anos atrás, torna tudo ainda mais bizarro.

O prédio da antiga rodoviária é um bom exemplo de como sensações diferentes permeiam a vida e geram reações distintas. Quando vejo o belo, sinto uma espécie de plenitude e êxtase, como se meu corpo, alma e mente se conectassem com o objeto da maneira mais complexa e profunda. Frente ao decrépito, o decadente, como a rodoviária, por exemplo, a sensação de excitação, a qual me refiro, é de desejo de viver. No fim, amores, relações trabalhistas e outros setores da vida, têm essa conotação dolorosa e impactante. Se você sobrevive ao fim dessas relações, em seguida é possível experimentar a libertação. É isso que eu chamo de excitação. As possibilidades todas de renovação e criação estão ali, pairando no ar.

Assim como a antiga rodoviária da capital sul-mato-grossense, abandonada desde a minha infância e hoje quase escombro, as relações que regem a cidade não são muito diferentes. Nem é um quadro exclusivo de Campo Grande. Talvez, pra mim, a diferença esteja aí – em reconhecer que tudo o que eu odeio aqui acontece também em Nova York, São Paulo ou Japão. Não que eu já não soubesse, mas agora é diferente.

Talvez a diferença, entre o ontem e o hoje, seja a compreensão da lição. Entender a diferença entre ser muito bem (in)formado e apreender. Observar mais do que emitir opiniões (o que é diferente de questionar). A vida tatuou na pele, no coração e na mente, a beleza do cotidiano, essa coisa que a gente tanto reluta em transformar num constante frenesi de loucura e tesão.

O péssimo hábito de achar que é preciso estar na crista da onda o tempo todo para se convencer de que está vivo e é a pessoa mais feliz da face da Terra. A vida ensinou a lição que o produtor rural sabe de cor e salteado, há tempo para tudo, plantar e colher. E se você não prepara a terra, não aduba, não molha, nada cresce e nunca terá frutos. O escombro, a dor, os questionamentos, a construção do próprio pensar e agir, são fundamentais para entender o seu (e o meu) papel individual no contexto da cidade.

Talvez a diferença, entre o ontem e o hoje, seja a compreensão da lição. Entender a diferença entre ser muito bem (in)formado e apreender.

O fato é que somos covardes, carentes e ignorantes. Para dissimularmos esses ingredientes indignos de qualquer pessoa considerada “bacana”, nos munimos de arrogância, superioridade e informação. A minha e a sua opinião não fazem a menor diferença nesse mísero metro quadrado. O eterno e real é o ato. É a ação do homem que muda a história, renova ou mata. O resto é perfumaria.

Essa alegria trouxa que me expande o peito, apesar das constatações de que nada mudou, da solidão e da saudade que me amarram as pernas, é uma das conquistas mais bonitas que o ser humano pode alcançar. É isso que chamo de sintonia metafísica. A revolução, a bandeira por uma causa, tão em moda, começa dentro de você, sem plateia nem aval do vizinho. Precisa de coragem e honestidade. É um diálogo de você com você mesmo. E só pode ser construído no cotidiano, encarando a beleza do caos.


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