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Ano X - Nº 469

Especial

O Brasil dos extremos

Polarização política pode ameaçar a democracia.

Postado em 17 de Março de 2016 - Victor Barone

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O engenheiro Mauro Toniasso, 65 anos, descobriu na última quarta-feira (16), quando dirigia pelo centro do Rio de Janeiro, com a esposa, a dona de casa Maria Elisa ao lado, a face mais dura da polarização radical que tomou conta da política brasileira. Enquanto ia visitar a filha, Toniasso se deparou com um grupo protestando contra a presidente Dilma. Um adesivo de campanha simpático ao PT, agarrado ao para-brisa de seu Ford K, foi o estopim para uma série de agressões que culminou com um vidro estilhaçado, o capô amassado e uma sensação de que o país está prestes a mergulhar em uma crise de civilidade sem precedentes. “Essa raiva dirigida ao outro que pensa diferente é incompreensível. Participo ativamente da política desde sempre, gosto de política. Nunca havia presenciado uma atitude como esta”, afirma.

A violência pode ser o resultado direto desta polarização. Hoje, o clima de hostilização é tão forte que qualquer militante e político de esquerda está passível de sofrer violência física ou moral. Na última quarta-feira (17), o ex-deputado Vanderlei Siraque (PT) foi agredido com um soco no rosto por uma manifestante contrária a Lula em frente ao apartamento do ex-presidente (assista ao vídeo abaixo) – e atual ministro da Casa Civil. Por todo o país, políticos de esquerda são vítimas de escrachos quando localizados em ambientes públicos. “Já em 2013, pessoas com camisas vermelhas foram espancadas em manifestações”, afirma o professor Bernhard Leubolt, da Universidade de Economia de Viena, na Áustria.

Antes se dizia que o brasileiro era um povo apático e despolitizado, em junho de 2013 gritaram que o "Gigante acordou", e agora assistimos a linchamentos morais nas redes e empurra-empurra nas ruas entre petistas e antipetistas. Cada grupo mais convencido de que sua versão sobre os escândalos de corrupção sob investigação carrega verdades absolutas e inquestionáveis. De um lado, o ex-presidente Lula é pintado como mocinho inocente perseguido pela direita e pela mídia golpista, que não se conformariam com suas raízes humildes e sua popularidade. No outro, é execrado como vilão que roubou a Nação e precisa ser exterminado junto com seu partido, se preciso com força militar, como se isso expurgasse toda corrupção da história do país.

Do ódio à violência

Até onde essa polarização pode chegar?  “Até então o discurso era de ódio, agora é de violência. Há um abandono da palavra como recurso político, virou acerto de contas na rua”, observa o professor Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo.

Ao pesquisar a literatura internacional sobre o fenômeno, o escritor e jornalista Carlos Orsi encontrou dados que ajudam a iluminar também o quadro nacional. No estudo norte-americano Affect, Not Ideology: A Social Identity Perspective on Polarization, publicado em 2013 no periódico Public Opinion Quarterly, os autores mostram que o que efetivamente polariza são as emoções, não as diferenças ideológicas. Com falta de clareza sobre projetos partidários, eleitores tendem a personalizar sentimentos de amor ou raiva. Orsi lembra que outros estudos acadêmicos indicam que, quando um grupo de pessoas com opiniões moderadas, mas convergentes, se reúne para conversar, tende a sair com visões mais radicais. Por isso, ambientes que reforçam nichos, como as redes sociais, são canais que aceleram o acirramento.

“As pessoas vão se radicalizando quando limitam seu leque de fontes. São movidas por ódio, seja a Lula, seja a (José) Serra. Mas, se compararmos os programas políticos dos dois quando disputaram a Presidência (em 2002), o de Serra era até mais à esquerda do que o de Lula. As pessoas encaram o confronto simbólico como se fosse mais fundamental do que a discussão em si”, observa Orsi.

Para analistas, parte desse simbolismo foi alimentada pelo próprio PT, com seu discurso do "nós contra eles", do "povo contra a elite branca". Após a condução coercitiva de Lula, quando muitos esperavam que ele pudesse dar explicações públicas sobre as acusações de recebimento de vantagens, o ex-presidente usou o pronunciamento para atacar seus opositores e lembrar sua origem pobre, reforçando a trajetória de superação do ex-metalúrgico que passou fome na infância. Segundo o cientista político francês Stéphane Monclaire, professor da Universidade de Sorbone, Lula tentava reeditar o discurso que o ajudou a superar o escândalo do mensalão, em 2005.

“Naquela época, o (marqueteiro) João Santana fez pesquisas e viu que as pessoas pobres se identificavam tanto com Lula que consideravam que atacá-lo era atacar elas mesmas. Consideravam o Lula quase como Papai Noel, que dava presentes, e se sentiam no dever de mostrar reconhecimento com o voto. Hoje, o benefício do Bolsa Família não é mais visto como presente, mas direito adquirido. Aumentou o nível de instrução, as pessoas estão mais informadas. Tenho dúvida de quantos vão responder ao chamado”, reflete, definindo o cenário atual mais como "ameaça de polarização" do que de "polarização forte".

Para Frei Betto, autor de dois livros sobre os governos do PT, “A Mosca Azul” e “Calendário do Poder”, seria por falta de politização da nação ("mais de consumistas do que de cidadãos") que o debate político migrou do racional para o emocional.

“Quem discute em torno de propostas políticas para o país? Como elas não existem, nem da parte do governo, nem da oposição, fica-se na ofensa pessoal, no panelaço, no bate-boca de comadres. Temo que esse clima emotivo crie o caldo de cultura que faça o Brasil se encaminhar do Estado de Direito para o Estado da Direita”, diz.

O antropólogo Roberto DaMatta não crê no acirramento dos confrontos abertos nas ruas, lembrando que o Brasil não tem tradição de briga. “A gente adora um bate-boca, mas não vai além disso. Passamos de uma monarquia institucionalizada, cheia de barão, marquês, princesa, para uma república que continuou com o mesmo sistema de maneira disfarçada. Você tem alguma dúvida que os senadores sejam barões e os juízes marqueses? Não tenho. Acho que esse é o problema”, reflete.

José de Souza Martins, professor de sociologia da USP e autor do livro “Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder”, vislumbra o perigo de radicalização.  “Se os grupos que se opõem ao PT engolirem a isca, poderemos chegar a extremos sem retorno. Parece-me que os alucinados que radicalizam essa polarização sem conteúdo estão apostando na possibilidade de ferir as instituições. O Brasil tem tido crescente presença de multidões na rua e multidões violentas, como as que lincham e fazem justiça com as próprias mãos. Para que se manifestem falta pouco”, alerta Martins, que também estuda fenômenos de linchamentos.

Ao mesmo tempo em que se preocupam com extremismos, especialistas avaliam que os avanços nas investigações trazem conquistas para o país, como fim da sensação de impunidade e maior clamor por ética. Mesmo diante de um quadro de incertezas, DaMatta ressalta que chegamos à crise do "você sabe com quem está falando?", que pode nos levar à maior igualdade: “A ideologia igualitária, que contraditoriamente cresceu com contribuição do próprio PT, leva à ideia de que todos somos iguais perante a lei. Isso gera maior conflito, porque então todos temos direito de opinar, de acusar e se defender. Mas não é ódio, é a diversidade. O Brasil já passou por coisas piores”.

Origem definida

Para Bernhard Leubolt, a radicalização da polarização política no país tem origem. “O ano de 2014 foi marcado por uma eleição presidencial muito polarizada em que Dilma derrotou Aécio por uma margem muito estreita. A polarização política passou então a fazer parte do dia a dia das pessoas, e não mais só da política. Esse sentimento vem sendo alimentado pelos grandes escândalos de corrupção, que implica políticos de todos os principais partidos políticos”.

Leubolt afirma que a mídia tem tido um papel importante neste processo ao reforçar apenas o envolvimento de personalidades importantes do PT nos escândalos. “E isso coincide com o aparecimento de grupos particularmente polarizantes. Alguns grupos, por exemplo, pedem abertamente um golpe militar contra o ‘PT comunista’, afirmando que o partido quer criar a uma nova ‘Cuba’, etc”.

Segundo o filósofo Paulo Eduardo Arantes, professor aposentado da USP, há uma polarização assimétrica entre uma "nova direita", surgida após as manifestações de junho de 2013, e a "esquerda oficial". "Nos protestos, apareceu uma direita social e insurgente, que foi para as ruas em grande número para se contrapor ao status quo de um ponto de vista conservador", analisa.

O filósofo argumenta que já existia no Brasil uma "direita residual", que tende a propor intervenções militares. Enquanto este é um segmento minoritário, a "nova direita" tem um maior apelo popular.

Para ele, a assimetria se deve a uma radicalização da direita, que, no entanto, não foi acompanhada pela esquerda. "Uma polarização supõe dois termos antagônicos e extremos, só que um dos polos está em falta. A esquerda institucional, de governo no Brasil, é muito moderada, muito propensa à negociação", aponta.

Mais equilíbrio

A ameaça ao equilíbrio social foi apontada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, no último dia 10, em coletiva de imprensa, divulgou nota em que pede manifestações pacíficas no país, fala do risco de polarização da sociedade brasileira e da importância do respeito a diferentes pontos de vista para a democracia.

A CNBB avaliou que é inadmissível que partidos “alimentem” a crise econômica do país com a atual crise política e defendeu que o Congresso Nacional e os partidos políticos têm o “dever ético de favorecer e fortificar a governabilidade”. O texto também alerta para o risco de a polarização da sociedade levar a um choque.

“O que nós queremos é que se garanta a ordem constitucional no país. Que os encaminhamentos sejam feitos dentro da legalidade e com respeito à Constituição”, disse o presidente da CNBB, Dom Sergio da Rocha, destacando que a instituição não tem uma posição partidária. “Ao contrário, queremos estar abertos ao diálogo com todas as partes. Insistimos que a busca por soluções seja por meio do diálogo e do respeito, sem recorrer à agressividade e violência, que não condizem com a vida democrática”, disse.

O vice-presidente da CNBB, Dom Murilo Krieger, disse que para que a paz seja preservada no Brasil, todos precisam colaborar. “É uma realidade que é função do Congresso Nacional cuidar de que o país caminhe bem, com leis justas. Os partidos, independente de estarem no poder ou na oposição, têm uma contribuição importante pela força que representam. E se, de repente, um país como o nosso ficar ingovernável, vai ser difícil falar em paz social”, afirmou.

Dom Krieger manifestou preocupação com o momento atual que o país enfrenta. “A gente sabe que há momentos em que as pessoas perdem o bom-senso. E a gente está notando que isso pode acontecer de repente”, disse, argumentando que se cada cidadão procurar defender só o seu ponto de vista “de forma tão veemente”, se esquecendo do respeito ao outro e às instituições, eles vão acabar se ferindo mutuamente.

A nota divulgada pelos bispos também defende a apuração rigorosa de suspeitas de corrupção no país. “É preciso apurar até o fim ou não se fará justiça”, disse Dom Sergio da Rocha.

Coxinhas e Petralhas

Enfrentamento entre manifestantes, insultos racistas, generalizações burras. De um lado as cores nacionais apropriadas como símbolo opositor, de outro, camisetas e bandeiras vermelhas. Defende cotas para negros? Comunista! Apoia a meritocracia? Coxinha! Quer uma reforma agrária? Vermelho!  Critica o governo Dilma? Fascista! E por aí vai.

Não se trata de discordâncias políticas, o que é saudável em qualquer democracia. No Brasil, hoje, defende-se opiniões com a lógica da torcida organizada, da paixão isenta de razão. Aí, o nível desce tremendamente. Pessoas bradam com ódio, frases vazias de qualquer sentido, "Quem defende bandido é bandido." "Bandido bom é bandido morto". Isso, além de não contribuir em nada e demonstrar completa ignorância sobre qualquer assunto, fomenta ódio e aumenta a tal onda que me refiro.

Fulano argumenta X. E X poderia ser algo favorável ao ECA, ou à união homoafetiva, ou uma defesa a tolerância religiosa e o Estado laico. X poderia ser também um posicionamento contrário ao machismo, ou ao racismo, enfim, qualquer postura repleta de bom senso e tida como progressista. Invariavelmente, o contra-argumento segue a linha: "Mas e o Foro de São Paulo, seu petralha??!!  Tá com dó? Leva pra casa! Gayzysta!!! Feminazi!! E o mensalão?? E se estuprarem toda sua família?!?!?!".

Para o jornalista Victor Sá, esse radicalismo nervoso está acontecendo em diversas esferas. “Teve jornalista que fez uma crônica sobre a morte de um cantor e além de enfrentar um cyberbullying cruel, está sendo processado. Teve humorista que entrevistou a presidente e foi ameaçado de morte por aparentemente não ter perguntando algo sobre "a utilização de urnas venezuelanas bolivarianas" durante a eleição (?!). Uma atriz famosa desabafou em sua rede social a respeito de alguma treta no aeroporto e quiseram fazer dela a cara da direita alienada”.

O Brasil inventou uma dicotomia entre petralha x coxinha, um binarismo reducionista absurdo. É uma situação que beira o surreal, mas que se torna compreensível quando descobrimos, por exemplo, que 38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Não conseguem interpretar um texto. É o caso da mocinha do vídeo abaixo, que reproduz frases feitas como se estivesse participando de um momento vital para a construção de um “Brasil melhor”.

Em meio aos reducionismos e maniqueísmos que regem o Brasil, ficamos com a certeza de que um país menos corrupto é feito com participação, instrumentos democráticos de controle social e com espaços para que a sociedade interfira, dialogue, controle e apresente caminhos. Quanto mais democrático, mais participativo, e mais liberdade para expressar opiniões, maior a tendência de diminuir a corrupção. No entanto, este debate precisa ser feito dentro da civilidade. Quando os fins justificam os meios, quando passamos a tolerar a quebra dos paradigmas democráticos, o que sobra é o totalitarismo: a polarização política no Brasil ameaça o equilíbrio da democracia e desnivela o bom senso das pessoas.


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