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Quinta-Feira 27.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Quando o romance encontra a reportagem

A coluna Entre Linhas desta semana traz as observações da sensível escritora Lucilene Machado.

Postado em 21 de Março de 2014 - Ana Carolina Monteiro

Confira a entrevista com a escritora Lucilene Machado. Confira a entrevista com a escritora Lucilene Machado.

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“Eu seria igual a todas, não fosse essa angústia vertical escorrendo por minhas veias e artérias, a mesma angústia que me leva a escrever.” Lucilene Machado

 

A Coluna Entre Linhas desta semana está uma delícia. Traz as observações da sensível escritora Lucilene Machado (doutora em Teoria Literária e professora adjunta da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS - no campus do Pantanal, em Corumbá – MS) sobre alguns pontos bastante polêmicos entre o romance e a reportagem. A relação possível entre ficção e realidade, a utilização em comum de elementos narrativos como tempo, espaço, personagens, o papel social do narrador-repórter, enfim. Só lendo para saber...

Entre suas idas e vindas, de Campo Grande a Corumbá, Lucilene nos concedeu esta entrevista e nos deu em primeira mão que lançará em abril sua obra “Desertos e outras infinitudes”. Uma coletânea de crônicas com o apoio do FIC e pela editora Life.

Confira a entrevista.

 

Quais as similaridades e diferenças no processo histórico de construção das narrativas do romance e da reportagem?

Ultimamente fala-se muito sobre o jornalismo narrativo ou literário.  Não é algo novo, nos anos setenta já se discutiu sobre isso sob a etiqueta de “Novo jornalismo”. Hoje os estudos estão se aprofundando no gênero para fixar as práticas de como contar a realidade com as armas da literatura. Até pouco tempo a fronteira entre jornalismo e literatura era muito bem demarcada, mas a irrupção de novas tecnologias e mudanças que vão sendo produzidas no mundo jornalístico em torno da Internet, chama a atenção para a necessidade de se contar boas histórias como um tipo de enfrentamento ao lixo audiovisual, o sincretismo das redes sociais e a febre dos telefones celulares. O jornalismo narrativo se serve ou se utiliza do universo que nos rodeia e para narrar esses fatos. De forma esteticamente bela, recorre às chamadas figuras do discurso, isto é, à forma não convencional de se utilizar as palavras, de maneira que, ainda que elas sejam empregadas em suas acepções habituais, estão acompanhadas de algumas particularidades fonéticas, semânticas, estilísticas que as afastam de seu uso habitual e se tornam especialmente expressivas.

Até pouco tempo a fronteira entre jornalismo e literatura era muito bem demarcada, mas a irrupção de novas tecnologias chama a atenção para a necessidade de se contar boas histórias.

Certamente não é isso o que figura nos manuais de jornalismo que se empenham em eliminar os duplos sentidos e as conotações da linguagem. Eu mesma, quando tenho que ministrar aulas sobre a linguagem jornalística, em seu sentido primário, sinalizo que os recursos literários, estilísticos, retóricos estão confinados ao uso da produção de obra literária, fabulações e relatos de Ficção. Mas, não deixo de enfatizar que, dentro de um aspecto sistêmico,  também se pode fazer arte no jornalismo. Há muita polêmica envolvida se analisarmos as características da não-ficção dentro dos limites oferecidos pelo conceito do gênero, cujas normas conservam conceitos clássicos do jornalismo e questionam os postulados da literatura.

Historicamente, o romance está associado à ficção, ou seja, à narração de fatos imaginários. Do mesmo modo, a tradição jornalística conseguiu impor uma estrutura para redatar notícias prescindindo dos recursos estilísticos vinculados à literatura. Entretanto, nas duas modalidades os mecanismos para narrar fatos são similares. Utilizamos os mesmos recursos quando inventamos uma história como quando narramos um fato vivido. Em ambas as situações, realizamos uma construção da realidade por meio da linguagem. Tanto a notícia como o romance tem uma origem comum como discurso: a notícia é uma narrativa natural que remete a ações de pessoas e é representada por um narrador vinculado a um mundo.

O processo criativo é o mesmo?

O processo criativo é bastante distinto. Sempre há que se ter em mente o leitor, e o leitor literário é exigente, é um leitor altamente qualificado que se preocupa com a estética, de maneira que escrevo várias vezes, utilizo todos os recursos possíveis, corto frases, mudo palavras, elimino outras, cuido para que não fique um texto inchado, para que fique uniforme, sem subidas e descidas, sem acidentes, sem exageros...  sem que o leitor perceba meu excessivo trabalho. Ou seja, quando ele ler vai ter a sensação que eu escrevi o texto no mesmo ritmo em que ele está lendo. Meu foco, na escrita literária, está muito mais na estética do que nas questões ideológicas. Quando escrevo em uma linguagem jornalística, o fato relatado é muito mais rápido. Há o limite de espaço, o tempo, o público que vai ler que, provavelmente, pretende  um texto rápido sem muitas significações. A escrita jornalística posso desenvolver em qualquer lugar. Escrevo em salas de espera, aeroporto e etc. Já o texto literário me exige concentração, silêncio, reflexão, profundidade de pensamento, tentativas metafóricas... e isso não consigo fazer em qualquer lugar. Quando realizo uma construção imagética, leio muitas vezes para ver se é passível de ser usada. Tenho um filtro intuitivo que é acionado. Umas vão permanecer, outras não. Claro que hoje esse processo é muito mais rápido que antigamente.  Porém, devo dizer que essa diferença não é via de regra. Existem textos que estão na fronteira entre um e outro, muitas vezes não conseguimos enquadrá-los nos gêneros. Outro dia li em um jornal de grande tiragem algo como: as diferenças entre literatura e jornalismo são cada vez mais imprecisas, estão se perdendo na noite dos tempos ou dormem o sono eterno no joelho dos deuses. Ou seja, no momento da informação o jornalista se vale de imagens para expressar suas ideias.

O texto literário me exige concentração, silêncio, reflexão, profundidade de pensamento, tentativas metafóricas... e isso não consigo fazer em qualquer lugar.

O que podemos dizer sobre a utilização de recursos em comum, tanto no romance como na reportagem, como tempo, local, personagens, clímax, desfecho?

Os elementos utilizados pela narrativa são os mesmos em qualquer circunstância. Isto é, o que diz respeito aos elementos estruturais clássicos. Tanto os textos literários como os jornalísticos, ou mesmo a narrativa cinematográfica, dramatúrgica, entre outras, ao narrar um acontecimento vai recorrer aos personagens, ao tempo, ao espaço, enredo e narrador. No entanto, houve um salto no que diz respeito à escrita literária. Hoje é comum narrativas que não apresentam espaço, outras vezes não oferecem nenhuma pista sobre o tempo, outras até ousam narrar sem personagens, como fez Clarice em Água viva, um romance sem tempo, sem personagens, sem espaço e sem enredo. Isso não ocorre na narrativa jornalística que vai se utilizar da história, o que inclui tempo, espaço e evidentemente, enredo. Existe uma intersecção onde as duas modalidades se encontram, porém cada uma delas tem se expandido dentro de seu campo de atuação.

Ambas as linguagens possuem função social?

O escritor é uma fiel testemunha de seu tempo - ainda que ele não tenha consciência - e isso já é um papel social. A literatura também serviu (e serve) à história e à ciência como um amigo fiel, recolhendo costumes culturais, as vozes secretas, a moda e etc. Como poderíamos saber dos trânsitos entre realidade e fantasia sem Cervantes? Como entender a sinuosidade das sociedades sem Kafka, Grandes sertões veredas ou Macondo? Incontáveis pessoas compensaram com essas leituras, e outras, a miséria que sentem em suas vidas e também nos fazem conhecer melhor a profundidade da alma humana, gerando com isso novas formas de sentir e atuar. A literatura de todos os gêneros é social, sobretudo porque funciona como um agente transformador. No entanto, a narrativa jornalística e literária vão ocupar papéis diferentes em momentos diferentes. Isso não quer dizer que socialmente uma seja mais importante do que a outra. Elas suprem a necessidade social como também biológica do ser humano.

Qual o papel social do narrador-repórter? Existe um?

O narrador é inventado pelo autor, portanto é o autor quem vai atribuir esse papel ao narrador. É um elemento importantíssimo na narração por ser um elemento que por si só da conta do âmbito que se cria a partir de sua presença. Se há um narrador, há transformação do real e, neste caso, o narrador é alguém que observa e conta, alguém cujo ponto de vista impregna a realidade que transmite, subjetividade, que no caso do narrador histórico ou jornalístico precisa ser conciliado com o dado real, com os dados verdadeiros. O narrador coloca em evidência uma tensão, um compromisso entre duas forças em jogo: o tédio da realidade e a tendência de apresentá-la da forma como ele sente, o que inclui história e literatura. No entanto, a meu ver, o autor (e incluo nele o narrador) não tem  obrigação ou compromisso com o social. O papel do escritor é escrever. Mostrar o mundo e o homem ao próprio homem.  Eventualmente, alguns podem ter um projeto ideológico e militar no terreno social, defender valores morais, políticos, mas não é necessariamente este o papel do escritor. Literatura é arte e o único compromisso da arte é com o belo que, para Platão é o bem, a verdade, a perfeição. Penso que o escritor deve ter a liberdade de estar integrado ou não em um determinado contexto histórico-social, ou simplesmente se ater à sua estética. A obra, por si só, já vai cumprir o papel que lhe é peculiar.

O escritor é uma fiel testemunha de seu tempo - ainda que ele não tenha consciência - e isso já é um papel social.

É possível uma relação entre o mundo da realidade e o mundo da ficção?

O estatuto de ficcionalidade de um romance (e também os contos) é uma das questões mais debatidas pela crítica e pelas modernas teorias literárias. Ainda que se afirme que o indivíduo ficcional não é real, é necessário aceitar que o fictício tem efetividade. Se o vocábulo “ficção” se entende como construção de mundos, tudo o que circunda o ser humano sobre a realidade está impregnado dela. Hoje a filosofia apresenta outros estudos, nos quais não quero me aprofundar, sobre o “capitalismo da ficção” ou a “sociedade do espetáculo”, fenômenos característicos das sociedades de consumo em que nada é real, tudo é ficção. E é, exatamente por meio do espetáculo que nos oferece a mesma realidade, porém uma realidade orientada para o espetáculo, para o show, para a ficção. Nossa expectativa é para algo fictício, até ao ponto de nossa vida também ser uma ficção. Somos também atores representando diferentes papéis conforme a velocidade dos anúncios midiáticos. Deste ponto de vista, a constituição da realidade social é, antes de tudo, histórica e se constitui em matéria-prima para a literatura. Há uma obra bastante interessante sobre o assunto de Ricoeur chamado “Tempo e narrativa” que reúnem duas investigações que transcorrem em sendas separadas, uma sobre o sujeito e outra sobre a ficção. A tese central do livro parte da necessidade transcultural que correlaciona a atividade de narrar uma história com o caráter temporal da existência humana. Dessa suposição se desprende que o tempo se faz tempo humano quando articulado enquanto narração, e a narração ganha significado pleno quando passa a ser condição da existência temporal. De modo que se torna muito difícil falar sobre o assunto. Estamos rompendo as fronteiras não apenas entre ficção e realidade, mas entre estas e o tempo, a história, comportamentos, etc.


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