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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Histórias que nossos rios contam

Muito mais que conexões fluviais, o complexo hidrográfico de Mato Grosso do Sul nos deixou um legado histórico e cultural. Convido todos a um banho de rio para preservá-los!

Postado em 20 de Março de 2014 - Fabio Pellegrini

Devemos muito aos nossos rios, do desenovilmento a herança cultural. Devemos muito aos nossos rios, do desenovilmento a herança cultural. Foto: Fabio Pellegrini

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O sul-mato-grossense é um ser abençoado pela natureza. Seu estado é contemplado por duas bacias hidrográficas: a do Rio Paraguai, a oeste, e a do Rio Paraná, a leste. A Serra de Maracaju praticamente delimita o divisor de águas.

Logo após o Brasil ser descoberto pelos exploradores do Velho Mundo, até cerca de três séculos depois, as conexões fluviais foram as principais vias de exploração, reconhecimento e transporte do Novo Mundo.

O primeiro europeu a passar pelas bandas do atual Mato Grosso do Sul foi Aleixo Garcia, em 1524. Ele e mais três exploradores espanhóis, vieram da costa catarinense, guiados por milhares de indígenas Guarani-Karijó através de peabirus, rotas milenares terrestres, em busca de riquezas minerais.

O primeiro europeu a passar pelas bandas do atual Mato Grosso do Sul foi Aleixo Garcia, em 1524.

Conta o arqueólogo Gilson Rodolfo Martins que a expedição cruzou o rio Paraná, provavelmente na altura da Ilha Grande, entre Paraná e Mato Grosso do Sul, atravessou o planalto sul-mato-grossense e, orientando-se pela malha fluvial, após ultrapassar o Pantanal, alcançou o rio Paraguai, nas imediações do atual município de Corumbá.

Já  no século 18, os exploradores luso-paulistas, chamados de bandeirantes, enfrentavam um percurso de 3.500 quilômetros, desde São Paulo (ainda uma vila), caminhando até Araritaguaba (hoje Porto Feliz) por 155 quilômetros, embarcando no rio Anhemby (atual Tietê), passando pelo rio Grande (atual Paraná).

Ao chegarem no rio Paraná, podiam escolher entre três rotas fluviais do atual estado de Mato Grosso do Sul para alcançarem o rio Paraguai: a primeira (e mais utilizada posteriormente) pelo rio Pardo e seus pequenos formadores até as nascentes, transpondo o divisor de águas ao longo de 15 quilômetros pelo Varadouro de Camapuã (bem próximo da atual cidade) e reembarcavam descendo os rios Camapuã, Coxim e Taquari, subindo o rio Paraguai-mirim.

A segunda alternativa era pelos rios Ivinhema e Miranda, mais ao sul; e a terceira pelos rios Sucuriú e Piquiri, ao norte, até atingirem o rio Paraguai. Os monçoeiros faziam o mesmo rumo à Cuiabá, onde se encontrou ouro, o que deu início ocupação da fronteira oeste brasileira.

Essas jornadas eram extremamente estafantes pois os viajantes enfrentavam as agruras da natureza e a resistência dos povos nativos. Muita gente padecia por fome e pestes. Algumas expedições nem tiveram sobreviventes. Não bastassem carrapatos, mosquitos e marimbondos, sempre se corria o risco de ataques de animais peçonhentos e ferais, como jararacas e onças-pintadas.

No século 18, os bandeirantes enfrentavam um percurso de 3.500 quilômetros para chegar ao coração do Brasil.

Em 1727, o capitão João Cabral Camelo, experiente sertanista, sobreviveu àquela que seria a maior tragédia monçoeira da história:

“Pelas onze horas da manhã navegava o comboio Paraguai abaixo, quando os monçoeiros ouviram grande urro pela parte da direita vendo logo depois sair de um sangradouro onde se achava escondida pela ramagem da vegetação ribeirinha, grande flotilha de paiaguás, nada menos que cinquenta canoas, todas bem armadas. Em cada uma delas vinham dez a doze bugres de agigantada estatura, todos pintados e emplumados e foram mesmo chegando a tiro que cobriu-nos de uma tão espessa nuvem de flechas que escureceu o sol.”

No livro Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas De 1825 a 1829, o desenhista Hércules Florence faz um amplo e minucioso relato sobre gente, paisagem e situações ocorridas durante a expedição Langsdorff, que passou pelo atual território de Mato Grosso do Sul: “Espantoso pensar que se percorrem quinhentas e oito léguas de Porto Feliz a Cuiabá, quase que incessantemente em leitos de rios, ao todo dez, itinerário esse em que unicamente duas léguas se fazem por chão firme”.

No trajeto, ele descreveu o que via nas margens do rio Pardo: “Do referido salto para cima se compõe o rio de campos deleitosos, nos quais, das mesmas canoas em que se vai navegando, se estão divertindo os olhos em ver os animais que pastam neles, como são veados brancos, cervos, lobos, tamanduas-guassu, e da mesma forma, perdizes, codornizes, curicacas [...]”

Navegava-se de Corumbá a Nioaque. Os rios eram mais largos e profundos. Hoje encontram-se assoreados.

O escritor ponta-poranense Luiz Alfredo Magalhães, autor do belíssimo Rio Paraguay Da Gaíba ao Apa, ressalta o quanto nossos rios eram navegáveis e hoje não são mais: “Navegava-se de Corumbá a Nioaque. Eram mais largos e profundos. Hoje encontram-se assoreados. Até meados do século passado os barcos chamados de vapores faziam o transporte da população de Corumbá, Miranda e Nioaque.

O Visconde de Taunay, oficial do Império brasileiro na Guerra da Tríplice Aliança, em suas Memórias, assim descreveu os bons momentos que passou às margens do rio Aquidauana:“Sobremaneira notáveis as paisagens daquele mal-conhecido Mato Grosso, especialmente quando se caminha ao longo do Aquidauana, rio bem pouco fundo aí, cristalino a mais não poder, já precípite e espumante de encontro a cabeços de rochas, já a deslizar mansamente por sobre leito de fínissima areia. Corre entre margens relvosas e floridas, em que se alteiam flexuosos taquaruçus e elegantíssimos coquerais, a lhe formarem admirável moldura, cercado de mataria animada por um sem-número de aves, tão pitoresco, enfim, tão cheio de encantos e  magia[...]”. 

Devemos muito aos nossos rios. Por eles que nossa história foi escrita. Graças a eles os primeiros núcleos habitacionais, que hoje são cidades, se formaram. Através deles chegaram nossa música, nossos costumes e tradições. Fornecem a nós (e forneceram aos nossos antepassados) a água que bebemos, que sustenta as criações, as lavouras, proporcionam peixes, que nos mantém vivos.

Mas ao mesmo tempo, nossos rios foram testemunhas do violento processo de extermínio étnico das populações nativas, da extinção de nossa fauna, de nossa flora e da degradação do solo.

Devemos muito aos nossos rios. Foram por eles que nossa história foi escrita.

É dessa forma que estamos tratando nossos rios, em pleno século 21. Despejando esgotos de cidades inteiras. Dejetos de indústrias. Contaminando suas águas com agrotóxicos. Entupindo-os com terra, areia e pedra durante a construção de estradas “visando o desenvolvimento”.

O Zoneamento Ecológico Econômico do Estado, apresentado em 2009, atesta: “Os dados de monitoramento demonstram que as bacias hidrográficas de Mato Grosso do Sul vêm sofrendo crescente degradação na qualidade de suas águas. Já se detectam trechos comprometidos devido a lançamentos de efluentes industriais e esgotos domésticos”.

Convido todos a um banho de rio. Pode ser nos cristalinos Formoso ou Salobra, da Serra da Bodoquena. Nos Verdes, no Amambai, no Aporé, no Apa. Pode ser também nos turvos Aquidauana ou Taquari. No Paranazão ou no Paraguai. Ainda é possível banhar-se neles em alguns pontos. De preferência (e por segurança) na época da estiagem, quando estão baixos e “limpos”. Não deixe de fazer isso. Reserve um momento para uma imersão em suas águas, e escute o que nossos rios têm a nos contar.


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