Semana On

Quinta-Feira 19.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Imprensa local entre a violência e a sociedade

A mídia em geral precisa acordar para sua responsabilidade social. Será que estas notícias de violência retratam o cotidiano do espaço urbano?

Postado em 20 de Março de 2014 - Gerson Martins

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Uma rápida passagem pelos jornais - impressos, cibermeios, TV ou mesmo rádio - locais coloca o leitor entre um clima exacerbado de violência e as fofocas da alta sociedade. No decorrer da semana o leitor se depara com dezenas de notícias que estampam o crescimento da violência urbana e, pela morbidade que instiga a curiosidade humana, merecem destaque da imprensa local a cada dia. No final de semana, para boa parte dos leitores, pelo menos para aqueles mais afortunados, basta ler a imprensa semanária para se deparar com uma sociedade que se deleita numa economia proporcionada pelo chamado país emergente.

Os principais semanários locais, que gozam da tradição de um sistema de imprensa que sobrevive às custas do poder público, estampam, nas primeiras páginas 90% de fatos políticos ou de empresas públicas (!), nas páginas seguintes os leitores se deliciam com as vaidades normalmente caracterizadas por meio de páginas e páginas de fotografias, quase nada de texto, não há o que escrever, afinal "uma imagem vale mais do que mil palavras". A moda da frequência às padarias mostra claramente um leitor que se esvai nas páginas políticas e de sociedade desse tipo de imprensa.

As páginas políticas são de um jornalismo questionável, pois não seguem os princípios jornalísticos de apuração, isenção; tratam, na maioria das vezes, diga-se 90%, de comunicados, chamados relises enviados pelo poder público e pelas empresas públicas, além das autarquias federais e estaduais. E é importante esse tipo de comunicado, pois de certa forma dá transparência às ações de governo, mesmo que ufanistas. As outras páginas, cerca de 70% do jornal! são ocupadas com inúmeras colunas sociais, que também têm sua importância, divulgam de forma indireta o enriquecimento de uma sociedade e, portanto, seu desenvolvimento!

As páginas políticas são de um jornalismo questionável, pois não seguem os princípios jornalísticos de apuração, isenção.

Do lado do cibermeios e também dos impressos diários, o leitor se depara com manchetes e títulos que publicizam o crime, a violência, o que também que não deixam de espelhar uma realidade urbana, mas sobrepõe a todos os outros fatos que também são relevantes para o leitor. Em artigo publicado no Observatório de Imprensa, o cientista político e professor da UnB, Venício de Lima pontua claramente os danos que a exacerbada espetacularização da violência provoca na sociedade. O crime, o roubo, o estupro, a violência em geral fica banalizada. O que se percebe, no relato de muitas pessoas que costumam ler jornal, seja na internet, seja TV ou impresso é uma asco, um mal-estar, que, por exemplo, foi publicado pelo professor da UFMS, Ângelo Arruda, há poucos dias na sua página no Facebook.

As edições da segunda-feira são um primor de banalização da violência. Toda o espectro de violência acontecida no final de semana, pelas diversas situações que uma sociedade carregada de preconceitos e que produz ricos cada vez mais ricos a custa de pobres cada vez mais pobres, é relatada nas páginas dos jornais, nos telejornais e nos cibermeios.

No artigo do Observatório de Imprensa, o cientista político Venício Lima destaca que em 2008, foram divulgados os primeiros resultados de uma longa pesquisa realizada por professores da Rutgers University, nos EUA, que vincula violência na mídia e agressividade em jovens.

A mídia em geral precisa acordar para sua responsabilidade social. Será que estas notícias de violência retratam o cotidiano do espaço urbano?


Voltar


Comente sobre essa publicação...