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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Quatro razões para ser politicamente correto

Para alguns ser politicamente correto é irritante e desnecessário. Não é.

Postado em 19 de Março de 2014 - Rodrigo Amém

Existem benefícios no discurso politicamente correto. Existem benefícios no discurso politicamente correto.

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Eu tenho um amigo que ainda faz a seguinte piada: “Eu adoro humor negro. Ai, desculpa. Humor afrodescendente”.  Uma vez eu perguntei porque ele sempre repetia essa tirada “hilária”. Ele, virando os olhinhos, explicou que “hoje em dia tem que ser politicamente correto em tudo, né?”.  

Meu amigo, aparentemente, acha que a ofensa está na intenção, não na ação. Da maneira que ele vê o mundo, existem dois níveis de discurso: o sério e a brincadeira. E só o primeiro é passível de causar danos. O segundo, quando visto como ofensa, é prova da intolerância do suposto ofendido. Falta de senso de humor, recalque, viadagem.

Ou seja, no mundo do meu amigo, ser politicamente correto é o equivalente a um tipo de burocracia da palavra: irritante e desnecessário.

Eu discordo desse meu amigo. Acho que existem benefícios na adoção do discurso politicamente correto:

Liberdade de expressão

Primeiro, uma correção: ser politicamente correto é uma opção, não uma imposição. Não é uma exigência que impede o discurso. É um posicionamento em relação ao próximo. Ninguém é obrigado a ser politicamente correto. Então, conte a sua piada sobre o quanto advogados valem menos que ratos. Expresse sua frustração com os gays espalhafatosos e chame aquele seu amigo negro de urubu. É seu direito de se expressar.

Os advogados, os gays e seu amigo negro que você chamou de urubu, por sua vez, também tem esse mesmo direito de expressar a indignação com seus gracejos. E tem o direito – amparado pela constituição – de procurar reparação por vias judiciais. Em outras palavras, você tem o direito de dizer o que quiser, mas você não tem o direito de impedir as pessoas de se ofenderem com o que você tem a dizer.

Ao contrário do que muita gente pensa, é assim que funciona uma democracia. Não vivemos uma ditadura só porque existem consequências para o que você resolve sair falando por aí. Pelo contrário.

 Sociedade exige civilidade

Sem dúvida, medir as consequências do que falamos e deixamos de falar pode ser aborrecido para quem não tem o hábito de pensar primeiro e abrir a boca depois. Mas é importante porque denota o respeito ao próximo que é tão importante nas relações em sociedade. Todos nós esperamos ouvir “com licença”, “desculpe” e “obrigado” no decorrer de nossas interações sociais e nos ofendemos quando esse tripé do bom senso social nos é negado. É rude. Ofensivo. A postura “socialmente correta” é solicitar a passagem, agradecer e pedir desculpas. Não é frescura. É sinal de respeito. E prova de que o que dizemos e deixamos de dizer em sociedade tem importância.

Ser politicamente correto aprimora a qualidade do seu discurso

O problema de ser politicamente incorreto é que a prática subentende – quase sempre – o vício da generalização. Por trás da piada de mau gosto, tem sempre a mesma premissa: “todo x é também y”. E o perigo dessas afirmações não é apenas ofender a “x”. É também o empobrecimento do seu próprio discurso. Quem afirma, por exemplo, que todo mendigo é vagabundo, está cometendo uma generalização. Isso pode ocorrer por dois motivos:

1 - ignorância das circunstâncias que levam uma pessoa à mendicância e o que é preciso para reverter esse caso;

2 – Preguiça de considerar todas as facetas do problema e preferir o caminho fácil do preconceito.

Seja você comediante ou político, essa é uma postura que depõe contra a sua capacidade criativa, intelectual e humanitária. As melhores ideias – e piadas – exploram a sutileza, as nuances e nascem da busca por novos olhares sobre uma questão. E nessa busca, o pensamento politicamente correto é um caminho mais enriquecedor e interessante justamente por jogar uma nova luz sobre um mecanismo enferrujado.

É um passo importante no combate ao preconceito

Imagine a seguinte situação: Você chega no trabalho e ouve o seguinte papo na roda: “Você sabe, né? Pior que boliviano é corumbaense! Corumbaense é fogo! Se não está cheirando, está traficando”. Pra você, nascido às margens do rio Paraguai, esse tipo de comentário pode até parecer meio gratuito e injustificável. Mas você entende. É piada. Tudo bem. Na próxima você pega ele.

Um tempo depois, um guarda te para no trânsito, olha seus documentos e pergunta se você é amigo do traficante fulano. No embarque do aeroporto, os fiscais da Polícia Federal fazem uma revista bem mais detalhada na sua bagagem depois de verificar seus documentos. E, na entrevista de emprego, o entrevistador muda de tom quando descobre que você nasceu na Cidade Branca.

Agora imagina uma vida toda marcada por esse estigma. O peso de cada gracinha amontoada sobre um caminhão de agressões passadas. Pense o quanto seria bom se pelo menos as pessoas do seu convívio não alimentassem esses estereótipos que outros usam como arma contra você. Pense quantas formas de humilhação não morreriam junto com os últimos intolerantes e suas horríveis piadas surradas.


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