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Quinta-Feira 27.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Castro Alves, jornalismo e a arte do verso

Para não dizer que não falei de poesia.

Postado em 14 de Março de 2014 - Ana Carolina Monteiro

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Dia 14 de março, sexta-feira, comemora-se o Dia Nacional da Poesia. No entanto, essa data não foi criada somente para difundir a arte do versar, mas também, e especialmente, para homenagear o nascimento de um dos maiores poetas brasileiros, Antônio Frederico de Castro Alves. O poeta nasceu em 14 de março de 1847, na, então, Fazenda Curralinho, no estado da Bahia, que mais tarde, em 1900, já município de Curralinho, recebeu o nome de Castro Alves.

Autor de vários poemas, Castro Alves nutria notável entusiasmo por grandes causas sociais, como a abolição da escravatura e foi responsável por introduzir na Literatura nacional uma nova forma de amor. O poeta abolicionista, como ficou conhecido, é até hoje, um dos grandes nomes do romantismo brasileiro.

Contudo, do que se faz poesia?

Até de uma notícia de jornal, como bem mostra Manuel Bandeira nas famosas linhas abaixo extraídas do livro Libertinagem (1930).

 

POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

João Gostos era carregador de feira livre e morava no morro [da Babilônia num barracão sem número].

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

 

João Gostoso, o personagem anônimo do barracão sem número, bebe, dança, canta e suicida-se na lagoa que embeleza a paisagem. Assim como Macabéa, em A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, João Gostoso é o herói anônimo que sucumbe à voracidade da cidade grande.

Para o autor, não são necessárias muitas palavras, metros ou rimas para compor uma tragédia; os fatos bastam por si só. É um poema modernista em sua primeira fase: análise crítica da realidade brasileira expressa por meio de uma linguagem coloquial, sucinta, em que se restringe os fatos, como em uma notícia de jornal.

Seria possível, então, pensar em um jornalismo poético? Porque não! O professor Doutor Jorge Kanehide Ijuim, de quem tive a oportunidade de assistir a aulas sobre retórica, pensamento lógico, silogismos, figuras de linguagem, argumentação, conhecimentos imprescindíveis para a construção de uma boa narrativa jornalística, me ajuda a confabular sobre o assunto, com as ideias publicadas em seu artigo “O real e o poético na narrativa jornalística”, publicado na Revista Conexão, em janeiro de 2010. Vale a pena a leitura. Segundo ele:

“O poeta nutre-se do real para sua criação artística; o repórter apropria-se da poética para dar mais atratividade e compreensão à sua reportagem. (...) Ao aceitar que o fazer jornalístico contribui para a construção social da realidade, o presente estudo vislumbra a possibilidade de o jornalista conseguir suplantar o “efêmero e o circunstancial” e chegar ao “essencial humano”; ir além do “urgente” para atingir o “importante” – ao se apropriar de alguns recursos da literatura para “criar, dar vida, à sua obra” (narrativa jornalística).”

Como a ideia aqui não é convencer ninguém de nada, apenas travar um delicioso debate “Entre Textos” sobre os enlaces possíveis e imprevisíveis entre jornalismo e literatura, depois de instigá-los um pouco, volto a Castro Alves. O escritor e tradutor Claudio Blanc recuperou trechos de uma rara entrevista feita em 1869 pelo jornalista Ermenegildo Francisco Sodré (Taubaté, 1837 – Niterói,1913), um dos grandes nomes do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, com Castro Alves, na ocasião em que o poeta se recuperava da amputação do pé esquerdo, ferido por um tiro de espingarda num acidente de caça.

Segundo o estudioso, o jornalista Ermenegildo manteve, por exemplo, uma relação muito próxima com Machado de Assis. Ao que parece, o grande mestre dava a ler os originais de seus textos ao jornalista, consultando-o em certos trechos.

Ermenegildo também mantinha estreito relacionamento com José de Alencar, o maior escritor brasileiro de então. Consta que a primeira leitura pública do seu Ubirajara foi feita na sala do amplo solar de Ermenegildo, em 1874, pouco antes da publicação da obra, naquele mesmo ano. Há uma nota no Diário do Commercio, de 13 de fevereiro de 1874, que informa o acontecimento.

Segundo o jornal, na tertúlia reservada a uns poucos figurões das letras estavam igualmente presentes autoridades imperiais. O Diário destaca especialmente a presença do Barão de Piqui e de sua filha, duquesa dos Campos Gerais, recém-chegada de uma temporada em Paris.

Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Araújo Porto Alegre, Teixeira e Souza, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire, todos os grandes nomes da literatura oitocentista frequentavam Ermenegildo.

Nos diários e na correspondência do jornalista, há relatos sobre os encontros e debates com esses escritores, valiosíssimos para a história de nossas letras. No entanto, a maior contribuição que Ermenegildo deixou para o historiador da literatura é um registro raríssimo, descoberto recentemente no que restou do espólio do jornalista, de uma entrevista feita com o homenageado poeta Castro Alves.

Nessa ocasião, Castro Alves falou sobre a força da poesia, o sonho republicano, a paixão pela atriz Eugênia da Câmara. Revelou sua intimidade doméstica, a intensidade da sua poesia e desvelou a força do ideal que impelia aquela jovem alma.

Abraço e a até a próxima!!


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