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Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Duas tragédias, duas formas de fazer jornalismo

A tragédia de Paris não é menor que a tragédia do Rio Doce.

Postado em 03 de Dezembro de 2015 - Gerson Martins

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Em primeiro lugar é preciso dimensionar a duas tragédias. Qual o efeito imediato e mediato de cada uma. Não parece que haja uma pior e outra menos pior. A tragédia de Paris não é menor que a tragédia do Rio Doce. As consequências de uma e de outra serão lamentáveis para a sociedade. Pode-se afirmar que a tragédia do Rio Doce terá um efeito pior para milhares de pessoas durante longos anos. E de outro revela a insensatez, o desprezo e o desrespeito dos governos com a população. A tragédia de Paris é também, e muito mais, uma tragédia anunciada todos os dias pela mídia, embora de um angulo diferente. A mídia em geral separa em “mocinhos” e “bandidos”. Mocinhos, legais, bonitos são os americanos e a elite europeia. Os bandidos são os negros, árabes e a pobreza do continente africano. Quando interessa aos mocinhos financiar os bandidos em busca do lucro, ótimo, mas quando os bandidos se revoltam pela exploração demasiada dos mocinhos, os mocinhos transformam os bandidos em terroristas.

A tragédia do Rio Doce também deveria ser anunciada. Cabem duas responsabilidades. Uma do governo que não fiscaliza mais qualquer coisa e outra da mídia que também está vendada pelos grandes recursos publicitários advindos das corporações comerciais e industriais. Não há mais fiscalização das obras públicas, não há mais fiscalização nas atividades de saúde, do transporte público. Enfim, o estado não cumpre seu papel. E a mídia se concentrou a atacar diretamente os governos e esqueceu de mostrar a ausência do estado na estrutura social.

Quando interessa aos mocinhos financiar os bandidos em busca do lucro, ótimo, mas quando os bandidos se revoltam pela exploração demasiada dos mocinhos, os mocinhos transformam os bandidos em terroristas.

No decorrer do leite derramado, como destacou a cientista da Universidade de Brasília, Dione Oliveira, a mídia “fala” sobre aquilo que aconteceu e não faz jornalismo investigativo. Da mesma forma que a mídia em geral escreve sobre assassinatos, roubos, assaltos, sequestros, homicídios e tantas outras mazelas sociais com sensacionalismo, com muito sangue nas mãos, agora produz notícia com sangue maior ainda, decorrente da destruição de cidades, morte de pessoas, destruição do ambiente conseqüência da tragédia do Rio Doce e, de uma forma mais intensa ainda, pois que o Rio Doce não apresentou a cor vermelha, mas o marrom da lama, a tragédia de Paris que, aí sim, há muito vermelho do sangue derramado das vítimas dos atentados. Como dizem muitos jornalistas, “o povo quer sangue”!

Para a mídia brasileira, o que tem valor notícia é o que está fora do país, a tragédia humana, a comoção somente acontece quando os mocinhos são atingidos. Quando a pobreza das vilas, bairros, pequenas cidades do interior de Minas Gerais sofre uma grande tragédia a repercussão não tem a mesma intensidade. E para que dar repercussão à tragédia do Rio Doce se os poucos moradores entrevistados repetem a mesma fala, “que é coisa de Deus”, “que nada pode ser feito”, “que tem que se levar a vida adiante”!

A mídia internacional começa a dar mais espaço para a tragédia do Rio Doce, até mesmo mais do que a mídia nacional. Também está preocupada em mostrar, a cada minuto, a barbárie do terceiro mundo que invadiu a Europa. A mídia nacional, seguidora cega das grandes corporações de mídia estrangeira, relativiza as grandes tragédias nacionais e repercutem, da mesma forma, a “barbárie dos invasores da Europa”.

A mídia nacional dedicou cerca de uma hora, no caso da TV Globo, para a tragédia do Rio Doce e quase quatro horas para os atentados de Paris. Foram 17 reportagens para o problema de Mariana e 68 reportagens para Paris.


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