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Quinta-Feira 27.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Burocracia

As origens e meandros do nosso bom e velho burocratismo.

Postado em 14 de Março de 2014 - Jorge Ostemberg

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Plunct Plact Zum Não vai a lugar nenhum!! Tem que ser selado, registrado, carimbado Avaliado, rotulado se quiser voar! Se quiser voar... Pra Lua: a taxa é alta, Pro Sol: identidade Mas já pro seu foguete viajar pelo universo É preciso meu carimbo dando o sim, Sim, sim, sim. O seu Plunct Plact Zum Não vai a lugar nenhum! Plunct Plact Zum (RAUL SEIXAS)

 

Me dá cansaço a simples ideia de contabilizar os anos que passei junto às cadeiras escolares de várias instituições públicas.

Comecei em um lugar surreal. O surrealismo “me persegue”. De manhã a escola se chamava “Enzo Cientelli”; à tarde chamava-se “Arlindo Lima”; é! E esse último nome predomina hodiernamente; é como é conhecida a escola pública que me diplomou em fundamental e 90% do ensino médio.

Meus registros via MEC atestam rigorosamente meus quatro anos e duras penas em Florianópolis. Isso tudo e mais, foi levado quando comecei Letras na UFMS. Lá está farta documentação, seja onde for, o tal “Arquivo Morto”. Então, seguindo o jogo social, fiz ENEM para retornar e liquidar os dois anos finais de Letras, uma segunda faculdade. No dia da matrícula, porém...

Sentei-me, confiante, com documentos básicos, e o trio atendente, frio à moldes de “Todos os Nomes”, obra kafkiana de Saramago, atendia, porém sem uma organização de senhas, hoje básica em setores público, com tradicionais filas. No meio, um gordão de cara fechada, cercado aos lados por duas moçoilas; a da direita me atendeu. Quando dei informações, como cinéfilo há quarenta anos, sinto-me credenciado a dizer que começou uma forma teatral para disfarçar a quase aparente intensa má vontade em esclarecer, orientar e conduzir a essência do que ela estava ali a fazer. Findou-se tudo em “seus documentos estão em ‘arquivo morto’, não pode fazer a matrícula, a não ser que traga todos os originais, inclusive os de Dourados, hoje!”.

Me dá cansaço a simples ideia de contabilizar os anos que passei junto às cadeiras escolares de várias instituições públicas.

Quase enxerguei nela um sorriso de satisfação. “Estou eliminando esse ‘velho’ de conversa alegrinha, de ousadia em querer ombrear jovens em curso”. Claro que isso pode ser uma barbaridade da inferência imaginativa; mas, conhecendo o mundo há 5 décadas, posso dizer que meu pensamento não é tão absurdo assim, e a burocracia brasileira, privada e pública, tem algo de muito cruel e é muitas vezes desserviço e não o contrário.

Houaiss diz que burocracia se trata de “sistema de execução da atividade pública, esp. da administração, por funcionários com cargos bem definidos, e que se pautam por um regulamento fixo, determinada rotina e hierarquia com linhas de autoridade e responsabilidade bem demarcadas”.

SISTEMA

Palavra dotada de grande poder de nos irritar ou afrouxar. “lutar contra o sistema”, “vencer o sistema”, “o sistema é bruto”, “foi vencido pelo sistema”. Há milhares de frases nessa linha, mas...

O sistema é parte de tudo que compõe a vida e a sociedade. Seja de uma molécula, um átomo (eles são importâncias sociais “invisíveis”, menos aos cientistas), uma comunidade fechada como algumas médio-orientais, ou abertas como algumas nórdicas ou latinas. Órgãos biológicos, sistemas cósmicos, redação, tudo, tudo mesmo, implica em algum(s) sistema(s).

Óbvio!

Então, porque temos tantos problemas com a parte burocrática, se ela é inerente aos sistemas, sejam quais forem?

A natureza é geralmente mais sábia que nós. E como afirma o sempre Maquiavel, temos que ter como vantagem sobre um enfrentamento, com qualquer objeto, aspecto ou parte das naturezas, a previsão. Temos que nos adiantar, em que o eminente florentino já foi aqui citado, quando lembra que enchentes são portentos naturais e podem causar imensos desastres, oremos ou não. Mas precisamos prever tudo e pautar com providências profiláticas, além de orarmos; aqueles que são a isso dados.

Etimologicamente, a palavra burocracia vem talvez da palavra grega purrus (cor de fogo) que foi à burrus (marrom avermelhado), em que veio bura, termo que designa um tecido grosseiro, avermelhado, em francês conhecido como burel, que às costuras fazia a roupa dos monges e penitentes. Em forma quadrada ou retangular, pela generosa acolhida aos líquidos e maciez que propiciava às mesas, a elas acabou indo o tecido, especialmente em mesas de trabalho (seriam ótimas também para carteados, uma boa canastra).

Bureau passou a designar, aos poucos, o lugar onde havia mesas para despachos documentais. A palavra já nasceu com sentido um tanto negativo; mas acabou filtrada para sobriedade; voltando depois, como ocorre nos dias de hoje, o termo burocracia (já acrescido, após um sinédoque transformá-lo em escritório) a ter conotação recusável.

Max Weber re“inventou” a burocracia clássica em que incluiu a necessidade de impessoalidade, concentração dos meios da administração, nivelamento entre diferenças sociais e econômicas e fortalecimento do emprego de autoridade. Na tradição da pesquisa descritiva, alguns autores comentam (citações indiretas):

Stoner; Freeman e Maximiniano: a teoria da burocracia desenvolveu-se dentro da administração ao redor dos anos 40, principalmente em função da fragilidade e parcialidade da teoria clássica e das relações humanas de então”, a base da referida teoria é o trabalho de Max Weber em sociologia, que recomendou determinados modelos.

Daft: Weber, sociólogo, preocupava-se com o sentido organizacional na sociedade moderna, “via na racionalização um remédio contra a parcialidade distributiva”; com a burocracia, viriam estruturas racionalmente planejadas e procedimentos formais para trazer COMPETÊNCIA.

Motta e Vasconcelos: Burocracia pode ser entendida como um sistema que busca organizar, de forma estável e duradoura, a cooperação de um grande número de indivíduos, cada qual detendo uma função especializada; deve se separar as esferas pessoais, privada e familiar, daquela do trabalho, diferentemente do que ocorria nas antigas (e novas) sociedades, embaralhando-se, à deriva, funções e poderes.

Enfim, a maioria dos autores; com algumas variações, apontam mesmo Weber como o principal mentor, a maior referência sobre a invenção burocrática, propriamente dita.

Mas é preciso “se livrar de Weber”, à despeito de que isso pareça impossível, se considerarmos toda a sua vasta contribuição para instalar as evidências de que não é possível conduzirmos negócios, a partir da revolução da indústria, no mundo, sem instalarmos sistemas objetivos de funcionamento administrativo, burocracia.

Se livrar, porque as dinâmicas atuais de relações de mercado imprimiram relações mais intimistas, em que aconselha um dos atuais pensadores de marketing e mercado; Jeff Jarvis (na obra “O que a Google faria): “Os clientes estão no comando...”; “as pessoas podem se encontrar em qualquer lugar e se unir a favor de você ou contra”; “mercados são conversas”; “a transparência (leia-se verdade e realidade) é o novo poder dos negócios”; e o principal: A NOVA ATITUDE É: CONFIAR NAS PESSOAS, OUVI-LAS.

Ainda Jarvis: “Quando Governo, Mídia, Universidades, tratam “clientes” como massas de tolos, crianças, canalhas ou prisioneiros, não as ouvindo, promovem uma corrente de construção negativa sobre tais instituições, e isso têm tido consequências muito ruins.

Essa palavra, CONFIAR, como qualquer outra em questão nos empreendimentos, não pode ser considerada com leviandade; com deboche, com aquém compreensivo. Como diz um bom provérbio: “ore por proteção, mas tranque a porta”. Confiar não é ser imprudente e desconsiderar com ingenuidade a necessidade de confirmações, para que atividades administrativas prossigam. É ter o pressuposto de que há direitos não elencados formalmente em papéis; é entender que a verdade humana suplanta a verdade burocrática e que muito das injustiças sociais são realizadas devido a estupidez que começa na cegueira de regulamentos mal formulados; de falta de alcance destes; ou logicamente não existiriam advogados, promotores, juízes e todos os outros para interpretar e aplicar o que está escrito.

Considerando o empreendedorismo; cabe aqui o alerta de Raul Seixas “tem que ser selado, registrado, carimbado avaliado, rotulado se quiser voar!”. Não há como empreender adequadamente sem servir o aparelho burocrático e ter sua própria estrutura burocrática.

Dessa maneira; a melhor consideração vinda para a conclusão deste artigo, que apenas toca inicialmente no tema “burocracia”, revelando um pouco de etimologia e conceituação, é recomendar investigação, com paciência e prudência, através de profissionais ou órgãos adequados, sobre qual a melhor linha processual burocrática; para não esbarrar nos eternos mal humorados e implacáveis atendentes e fiscalizadores em geral (não o são todos, claro).

Não há como empreender adequadamente sem servir o aparelho burocrático e ter sua própria estrutura burocrática.

Muito se falará ainda em burocracia. Mas finaliza-se aqui, com esta recomendação; não se deve ignorar que o principal ato na questão é a previsão de que ela existe e quanto mais se adiantar em busca, organização de informações e do conjunto de licenças operacionais, e internamente, dos controles organizadores, mais chances tem o empreendedor com os espaços em que vai operar.

Porém, é preciso, no caso da montagem de seus controles burocráticos, lembrar-se que é necessário haver somente o suficiente, nessa era de cada vez maior valor da situação de respeitosa intimidade entre empresário e clientes, que a confiança é estabelecida da forma mais natural possível, lembrando-se que desde os primórdios da negociação, se os papéis dão alguma garantia, a confiança é que os cria e deve ser a reflexão inicial.

Farei novo ENEM, e migrarei para a Administração; Kafka para mim, somente na literatura; é tempo de empreender em outra direção; continuo amando Letras, Literatura e milhares de pessoas mortas e vivas que compartilham o mesmo... SIGAMOS!


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