Semana On

Quinta-Feira 27.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Cultura regional: por que (e como) devemos valorizá-la.

Quando falamos em cultura regional, o que te vem à cabeça? Almir Sater? Os bugrinhos de dona Conceição? Os bois das telas de Humberto Espíndola?

Postado em 14 de Março de 2014 - Fabio Pellegrini

Somente na área do artesanato, estima-se a produção de 5 mil artesãos em Mato Grosso do Sul. Somente na área do artesanato, estima-se a produção de 5 mil artesãos em Mato Grosso do Sul. Foto: Fabio Pellegrini

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Mato Grosso do Sul é um estado novo, por sua criação recente, mas com uma singularidade cultural riquíssima. A diversidade de povos que aqui se estabeleceram ao longo dos séculos, seus costumes e tradições, a fronteira com Paraguai e Bolívia, a constante mistura de elementos importados e também de elementos nativos, torna-o um celeiro de artes.

Nossos artistas são talentos expressivos e dignos de nossa admiração. Seja na música, na literatura, no teatro, na dança, nas artes plásticas, enfim, em todas as vertentes da cultura.

A cultura está diretamente ligada ao conceito de economia criativa. A Organização Internacional do trabalho (OIT) indica uma participação de 7% em bens e serviços culturais no Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Mato Grosso do Sul é um estado novo, por sua criação recente, mas com uma singularidade cultural riquíssima.

No Brasil estima-se que a economia criativa formal represente entre 1,2% a 2% do PIB e aproximadamente 2% da mão de obra e 2,5% da massa salarial formal. A partir do ano 2000 o conceito de economia criativa vem sido fortalecido principalmente por agregar valores ao turismo.

O turista que vai a Bonito, por exemplo, não quer somente ir fazer os passeios emblemáticos como a Gruta do Lago Azul e uma flutuação no rio Formoso. Ele quer também conhecer o processo de fabricação da cachaça Taboa e adquirir bolsas feitas com neoprene descartado pelo atrativo turístico e produzidas por jovens mães em situação de vulnerabilidade social.

O pescador esportivo ou o fotógrafo de natureza que vão a Corumbá, além de visitar o Casario do Porto e se deliciar com um pintado a urucum, passam também na Casa do Massa Barro para levar uma lembrancinha para suas casas e acabam conhecendo o trabalho de socialização e alternativa de renda aos jovens artesãos.

Cada peça cultural consumida pelos turistas vale mais que o dinheiro. Nessa troca há uma relação que traz dignidade, esperança e respeito.

A moça estrangeira que visita a pousada pantaneira não quer somente cavalgar entre corixos e capões e desfrutar um bom quebra-torto no desjejum: quer aprender a fazer o trançado do laço do peão boiadeiro e levar um chaveiro com o trançado com couro bovino.

Cada uma dessas peças levadas pelos turistas deixa muito mais do que as notas de R$ 20 ou R$ 100 que ficam. Nessa troca há uma relação que traz dignidade, esperança e respeito. Os integrantes dessa cadeia produtiva se sentem valorizados, com possibilidade de ter melhor qualidade de vida e se tornarem mais criativos.

Em regiões turísticas, povos tradicionais que antes saíam de suas terras natais em busca de trabalho nos grandes centros urbanos, hoje sustentam suas famílias praticando seus saberes seculares. Isso retrata de forma clara o que se chama de desenvolvimento sustentável.

Povos que antes saíam de suas terras em busca de trabalho nos grandes centros, hoje sustentam suas famílias praticando seus saberes seculares.

E qual a nossa parte nisso? Caso você tenha uma viagem agendada para outro estado ou país, leve algumas lembrancinhas regionais e presenteie as pessoas com as quais você se relacionou durante a estada fora. É um gesto simples, mas de muita gratidão. É provável que o presenteado fique curioso sobre a origem e utilidade do material. Motivo suficiente para ele se interessar a vir conhecer as belezas de sua terra.

E quando os amigos de fora vierem, leve-os a espetáculos de dança, apresentações musicais, recitais de poesia, lançamentos de livros, exposições de artes visuais, vernissages, peças de teatro, saraus, eventos ao ar livre...

Temos uma infinidade de artistas da terra em plena produção, com uma vontade imensa de mostrar seus talentos e merecedores de nosso apreço. O que não podemos é ficar alienados a um modelo cada vez mais massificado de cultura imposto via televisão e internet.


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