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Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

Brasil nas Telas

O cinema brasileiro e suas cosméticas

Postado em 16 de Outubro de 2015 - Danilo Custódio

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O cardápio cinematográfico da semana traz algumas brasilidades. A que chega é o Operações Especiais, de Tomás Portella, que, aliás, sabe muito bem o que está fazendo. Digo isso porque o cara já vivenciou experiências em grandes sets, como o da série Som e Fúria e dos filmes O Incrível Hulk e Ensaio Sobre a Cegueira, pra citar alguns dos mais importantes. Essas experiências garantem um aprendizado sem igual na relação com o outro, tanto do ponto de vista pessoal quanto do profissional, ao mesmo tempo em que capacitam da melhor maneira o “domínio técnico”. Operações Especiais com certeza é um filme que vale a pena assistir, apesar dos pesares. Acredito que nele há sim coisa boa por debaixo da cosmética.

Acredito também que nem sempre o problema é maquiar o real. Penso que nós, que estudamos o cinema, devemos nos livrar um pouco desse conceito. Afinal de contas estamos falando de cinema. E cinema é artifício. Mas também não se preocupe porque tem pra todos os gostos. Para minha alegria, nosso cinema cresce, em quantidade e qualidade, a cada dia. Tudo que todos nós precisamos fazer é dar mais atenção a ele. Nesse sentido, vale a pena conferir o portal Brasil nas Telas, da Ancine, que reúne informações dos filmes que entram nas salas comerciais. Fique ligado!

 

Cores e Composições

Only God Forgives é a obra mais recente do mestre faixa preta Nicolas Winding Refn. O cara tem um olhar incrível, capaz de reverberar cores e composições inacreditáveis. É a espetacularização levada a sério. Aqui, a cosmetização é elevada a máxima potência. E uma boa história como essa, por ser um tanto arrastada, merecia sim um olhar plasticamente calculado. Finamente acabado. Elegante. Tanto, que dá gosto de ficar olhando por mais tempo. E de rever depois. Mesmo porque, sinceramente, essa beleza toda é só um detalhe diante de todo o resto. Destaco o tempo de câmera e as tensões criadas, sem deixar de mencionar as atuações. Coisa linda!

 

CRÔNICA

Discussão in progress...

Ive Machado

Existe um formato de processo cinematográfico para a obtenção de um aspecto imagético? Estudar em uma faculdade de artes faz com que você comece a falar estranho, mas também faz você refletir. Já é sabido que por trás de cada material audiovisual (não exclusivamente) que você vê, há uma equipe o executando. Porém, o processo que cada equipe utiliza ainda não estabeleceu um padrão. Embora hoje nossas limitações também sejam financeiras, discutimos principalmente a necessidade de grandes rodeios para contar boas estórias. E as discutimos na prática.

Estamos buscando aprender a moldar os espaços, moldar nosso cinema a eles, afim de que sejamos nós o movimento, com uma câmera que explora. O princípio parte de uma equipe reduzida, mas que saiba imprimir e receber as impressões do espaço.

“A possibilidade de viver”, é como eu chamo isso. Vagar por aí com os olhos abertos para as possibilidades visuais, para as experiências. E se utilizar delas para compor grandes estórias.

Tudo que queremos, por fim, é a possibilidade de contar boas histórias. Espero que consigamos.

 

CRÍTICA

Black Mama, White Mama e as correntes pela liberdade.

Andy Jankowski

No próximo capítulo de nossa saga de minas badass do cinema, temos Black Mama, White Mama (1973) de Eddie Romero.

Um presídio feminino, uma carcereira lésbica, duas fugitivas. Uma é ex-prostituta escrava de um chefe do crime em busca de um destino melhor e digno; a outra é uma loira revolucionária em busca de liberdade para seu povo. Unidas por grilhões, acabam fazendo de destinos distintos um só em nome de um bem maior, a sobrevivência.

No primeiro minuto de filme, vemos um ônibus transportando as prisioneiras e entre rostos exaustos temos uma troca de olhares entre uma das protagonistas e uma presidiária trabalhando no campo de serviços forçados, um sorriso sutil, um olhar de apoio, um quase imperceptível gesto de sororidade. Quem olha é uma guerrilheira presa por lutar em nome da liberdade e ela, somente ela, é quem possui os contatos para conseguir as armas necessárias para lutar contra o sistema opressor e assassino da ilha, comandado por traficantes e policiais corruptos. Em outras palavras, toda a força da liberdade de um povo inteiro depende desta única mulher. Aqui há uma grande mudança de representatividade da mulher no cinema em relação ao cinema clássico. Em Black Mama, White Mama a protagonista é produtora de significado e não apenas utilizada como sustentáculo da narrativa como mote para desenvolver a jornada do herói. A corrente que une essas duas mulheres nada mais é que uma metáfora para o feminismo em si. Duas mulheres que lutam contra a opressão e acabam unidas em prol de um bem comum. Diferentes, porém acorrentadas pelo mesmo algoz.

O filme traz a tona também a homossexualidade personificada por uma carcereira que, assim como o espectador presente na sala escura, assume o papel de voyeur, de observadora do corpo feminino enquanto objeto de desejo. Mas de outra perspectiva, por se tratar da observação de uma lésbica. Enquanto o cinema clássico sempre construiu sua mise-en-scène a partir do olhar masculino sobre o corpo feminino, este blaxploitation coloca a mulher como uma observadora de si mesma, mais como ato de empoderamento dos corpos do que a objetificação dos mesmos. Este filme é mais que a história de duas fugitivas. É uma busca desenfreada e caótica por liberdade, delas mesmas e seus iguais.

Não é novidade que os filmes de exploitation visavam transgredir a visão quadrada e conservadora de mundo do cinema clássico. Esses filmes, com seu humor ácido e erótico, cuspiram no moralismo da sociedade vigente e no tradicionalismo, sobretudo, a moral religiosa cristã e branca. Ver em Black Mama, White Mama criminosas sensuais se passando por freiras, sendo que dentre elas existe uma guerrilheira comunista, é uma provocação sem tamanho. Mais um filme da contracultura que vale muito a pena assistir.

Download no Making Off

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