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Quinta-Feira 27.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Duas formas de expressão

Seria então o jornalismo uma forma literária?

Postado em 26 de Fevereiro de 2014 - Ana Carolina Monteiro

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No artigo “A Má Linguagem dos Jornais”, escrito em 1968 e publicado no Jornal do Brasil, J. Bandeira Costa escreveu que demorou um pouco para que o jornalismo brasileiro se caracterizasse como essencialmente noticioso. O motivo seria a tardia consolidação do conceito de notícia (o fato transformado em conhecimento público: a base do jornalismo) e consequentemente a tardia prática de um jornalismo realmente informativo.

O discurso jornalístico, até se consolidar preciso factual, preso ao concreto, passou pela experiência-mãe de formulação verbal na ficção. Assim como o conto, a crônica, o romance, o jornalismo é narrativa, é expressão escrita complexa com suas particularidades. Cremilda Medina defende que se o jornalismo “cresce em seu próprio universo narrativo, ainda está muito ligado por contingências históricas à criação literária. A tradição narrativa do romance, por exemplo, dá algumas chaves dos esquemas de sequência informativa na reportagem.”

Assim como o conto, a crônica, o romance, o jornalismo é narrativa, é expressão escrita complexa com suas particularidades.

O contista e jornalista russo Anton Tchekhov dizia que, um bom conto deveria ter: força, clareza, condensação e novidade. Tais características são igualmente importantes para a construção da reportagem. Muniz Sodré e Maria Helena escreveram que “as três últimas características – tensão, condensação e novidade – são fundamentais para instaurar a primeira: força. Quanto à clareza, é necessário em todo texto, ainda que fraco.”

Seria então o jornalismo uma forma literária? Poderíamos responder que sim, se pensarmos que é narração, e esta é uma forma literária. Celso Pedro Luft esclarece: “narrar significa contar alguma coisa. A matéria básica da narração é o fato, o acontecimento. Portanto, na idéia de narrar está implícita a idéia de ação, do acontecer.”

A reportagem assim como o romance, particularmente os romances documentais e de época, se preocupa fundamentalmente com a sequência cronológica dos acontecimentos. No jornalismo, esta preocupação com a cronologia dos fatos leva também a uma organização textual por grau de importância da notícia, a qual os manuais técnicos chamam de “pirâmide invertida”. O jornalismo ainda supre algumas necessidades sociais dos indivíduos, os informa e os diverte, assim como a literatura, que além de informar fornece prazer aos seus leitores.

A reportagem assim como o romance, particularmente os romances documentais e de época, se preocupa fundamentalmente com a sequência cronológica dos acontecimentos.

A professora Neila Bianchin escreveu que “a interpretação entre estas duas formas de expressão sempre foi muito intensa. Basta lembrar que os folhetins eram escritos para serem veiculados em jornais, eram escritores conhecidos que trabalhavam como jornalistas (muitos ainda trabalham).”

Aqui no Brasil, mais do que em outros países, a literatura conduz ao jornalismo e este à política, como bem escreveu o jornalista Silvio Romero (1851-1914). A atividade jornalística brasileira, influenciada pela literatura nacional e pela política, revelou grandes nomes que permearam ambos os meios, como: Frei Caneca, Evaristo da Veiga, João do Rio, Euclides da Cunha, Eça de Queirós, Graciliano Ramos, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Joel Silveira, Nelson Rodrigues, Marcos Faerman, Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Fernando Morais, Mino Carta entre outros tantos que usaram (alguns ainda usam) a tinta na Tribuna para travar com o leitor uma discussão “prodigiosa e criadora”, como disse Machado de Assis, ilustre escritor e jornalista.


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