Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Especial

A cara do bolsonarismo

17% dos brasileiros vendem seus bens para comprar comida

Postado em 04 de Agosto de 2022 - Redação Semana On

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Um dos dados mais desconcertantes da nova pesquisa Datafolha, divulgada no último dia 2, é que 17% das famílias tiveram que vender algum bem ou objeto de valor nos últimos meses para adquirir alimentos e itens básicos.

A situação é pior entre aquelas que recebem até dois salários mínimos por mês (24% venderam bens), as que são beneficiadas pelo Auxílio Brasil (27%) e as que estão desempregadas (32%). A margem de erro é de dois pontos.

É importante frisar que, neste caso, "bens" não são criptomoedas, ações da Petrobras ou barras de ouro - muito na moda junto a pastores amigos do presidente. Na maioria das vezes, estamos falando de um celular que não é grande coisa, uma TV usada, o carro velho empregado no trabalho.

Essa "irresponsabilidade" dos mais pobres, que - veja só - se desfazem de seus bens só porque precisam comer, remete a uma declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, que se tornou tristemente icônica desta quadra histórica.

"Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo", afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em novembro de 2019, ao defender mudanças radicais na Previdência Social.

No Brasil do multiverso do doutor, isso deve acontecer porque os pobres são gastões. Nesta realidade, contudo, eles mal ganham para sobreviver, tendo que vender seu patrimônio para comprar comida, que dirá juntar alguma coisa.

O mesmo Datafolha apontou que um em cada três brasileiros afirma que a quantidade de comida em casa nos últimos meses não foi suficiente para alimentar a família. O total nessa situação passou de 26%, em maio, para 33%, em julho.

Dos entrevistados, 23% dizem que substituíram leite por soro de leite. E 20% consumiram sobras de frango e carne ou pele de frango.

Fome foi agravada pela inoperância do governo

A falta de percepção do governo sobre as dificuldades do andar de baixo explica a razão pela qual o ministro da Economia, no início da pandemia de covid-19, em 2020, propôs um auxílio emergencial de R$ 200 por mês. Graças ao Congresso Nacional, o valor acabou sendo de R$ 600/R$ 1200 por domicílio.

No ano seguinte, enquanto o número de mortes escalava mais de 4 mil por dia, o governo empurrava a volta do benefício (suspendido em 31 de dezembro de 2020) com a barriga. Dizia que as contas do país não aguentariam. Após muita pressão e chantagens fiscais, o pagamento começou a retornar no início de abril.

Agora, o governo marcou para a terça que vem (9) o pagamento do Auxílio Brasil anabolizado pela PEC da Compra dos Votos, que passará de R$ 400 para R$ 600/mês, bem como o vale-gás de R$ 110 a cada bimestre. Mas só até o final da eleição, quer dizer, do ano.

Se a gestão Jair Bolsonaro tivesse atendido aos pedidos da oposição e da sociedade civil para aumentar o valor ainda no ano passado, poderia ter evitado que chegássemos a uma catástrofe de 33,1 milhões de famintos. Mas, aí, a lembrança do benefício eleitoral se dissolveria no tempo.

O contexto de tudo isso é triste porque, durante a pandemia de covid-19, entre 2020 e 2022, o número de pessoas que passam fome no Brasil passou de 19,1 milhões para 33,1 milhões e a quantidade de pessoas e famílias com mais de um bilhão de dólares de patrimônio foi de 42 para 62.

Os dados sobre a fome são da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) e tem margem de erro de 0,9 ponto. E sobre os bilionários são da atualização anual da lista das pessoas mais ricas do mundo, divulgada em abril, pela revista Forbes.

Vender bens para comprar comida é semelhante a uma proposta do próprio governo. Desesperados com as pesquisas de intenção de voto que mostravam a inflação de dois dígitos ajudando Lula a conseguir um terceiro mandato, Jair Bolsonaro e equipe propuseram que o Brasil vendesse o fogão da casa para ajudar a comprar o almoço. Mesmo sabendo que isso não garantia o jantar.

Defendeu uma emenda constitucional para cortar impostos de combustíveis apenas até o final do ano. O custo disso ficaria, segundo a incrível precisão de Paulo Guedes, entre R$ 25 bilhões e R$ 50 bilhões.

Os recursos para isso, segundo ele, poderiam vir da privatização da Eletrobrás. Ou seja, Bolsonaro propôs evaporar patrimônio público de um setor estratégico para ser queimado nos motores de caminhões, carros e motos até o final do ano.

E se tempo hábil houvesse, a Petrobras seria queimada no mesmo processo. Para ajudar o presidente e alegrar o naco do setor financeiro que não vê problema de passar por cima da democracia, desde que os lucros continuem satisfatórios.

O prato feito em tempos de vacas magras

Entre os corredores de um supermercado de Teresina, no Piauí, Adelina Bitencourt, de 54 anos, caminha pacientemente. Ela sabe que não é bom negócio ter pressa quando sai às compras. A paciência tem sido uma estratégia para driblar o alto preço dos alimentos – que a cada semana parece aumentar. Bitencourt se acostumou a ir a dois ou três supermercados em uma noite, o que fez de domingo a sexta, em busca do menor preço. Já sabe de cor e salteado os dias de promoção das hortaliças em um lugar X ou de frios no lugar Y. Para Bitencourt, vale a pena: se conseguir carne mais barata, tomate mais em conta ou arroz em promoção, é lucro no dia seguinte. 

Quando começou a pandemia da Covid, ela teve a ideia de montar um negócio de comida. Vende pratos feitos, o popular “PF”. A inspiração veio dos anos de trabalho em buffets, preparando grande quantidades de comida para grandes quantidades de pessoas. Com a boa mão na cozinha, desempregada, montou as “quentinhas da Dedé”, como anunciou no WhatsApp, primeiro só para delivery. Quando ela começou o negócio, tinha em mente que serviria as comidas do buffet em PFs populares: tortas recheadas, carnes com molhos especiais, guarnições coloridas, mas tudo embalado em marmitex de alumínio e tampas de papel. 

Com a disparada no preço dos alimentos, o menu da Dedé foi encolhendo. No começo do negócio, um prato com dois pedaços de carne, arroz, farofa, macarrão, feijão e salada chegava a 15 reais. Para não tirar nenhuma guarnição, ela tirou um pedaço da carne bovina — a inimiga do carrinho, que hoje chega a 50 reais o quilo. Com um pedaço de proteína a menos, o valor da marmita cai para 13 reais. O que não adiantou muito, já que os preços ainda continuam altos, e os clientes, sumindo. Na era das vacas magras, Dedé criou, não por inspiração vegetariana, mas por simples corte de custos, um prato sem carne. Entrou uma nova peça no menu: o “bife do olhão”, que nada mais é do que ovo, servido frito ou cozido. Esse PF custa 9,99 reais – e tem freguesia certa.

A salada também sumiu do cardápio. Se antes ela oferecia duas opções, agora trabalha somente com a tradicional salada verde: algumas rodelas de tomate e cebola perdidas entre as folhas de alface. A batata tem sido uma aliada para a cozinheira preencher as lacunas do PF. Em Teresina, o quilo da batata oscila entre 3 e 4 reais, o que lhe garante outros malabarismos na hora de montar o prato. Uma saída tem sido o escondidinho de carne – mas, claro, com mais batata e menos carne – que aparece no cardápio de três a quatro vezes na semana. Ele também apela para carnes de segunda, mas até elas têm estado mais caras. O esforço de Bitencourt também é pensando nos seus clientes, a maioria trabalhadores, estudantes e famílias das zonas médias e pobres da cidade. No começo ela até tentou vender comidas de cardápio de buffet, mas com o preço da carne bovina disparando, junto com cereais, verduras e legumes, foi abandonando a ideia e focou no PF.

O aumento dos preços da carne bovina, explica Patrícia Costa, economista e pesquisadora do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), se deve a um conjunto de fatores externos e internos. Com a pandemia, muitos países reduziram a produção de carne, e o Brasil aumentou as exportações do produto. Em junho deste ano, as exportações de carne bovina registraram seu pico, com receita de 1,14 bilhões de dólares. Comparado a junho de 2021, o aumento foi de 36,8% (835 milhões de dólares), apontam dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Com mais carne brasileira sendo vendida no exterior, o preço subiu no mercado interno e sobrecarregou uma população empobrecida, a mesma que perdeu emprego e renda durante a pandemia. A mudança foi brusca: se antes a carne ocupava boa parte do orçamento dos brasileiros, uma pesquisa do Datafolha revela que, durante a pandemia, 67% estavam deixando de consumir o alimento.

Maria do Socorro de Menezes sabe bem os desafios para manter a clientela. Há oito anos ela vende PFs em Teresina, por encomenda e livre demanda. Da Zona Norte à Zona Sul, ela fornece marmitas armazenadas em uma grande caixa de isopor que coloca no porta-malas do carro. A maior parte dos clientes está nas periferias da cidade: trabalhadores do centro comercial e vendedores de feiras públicas. O marido ajuda, dirigindo o automóvel e negociando com os clientes. 

Quando começou o negócio, em 2014, o PF custava 5 reais. Nos últimos tempos, ela desistiu do cardápio tradicional, fixo, e só decide o menu do dia seguinte depois de conferir os valores de tudo no supermercado. Nos últimos dois anos, o preço da carne ajudou a definir o custo do PF – que agora está em 15 reais. Ela não cortou a proteína, mas a venda de quentinhas caiu. Se antes vendia 150, agora só vende cerca de 70. A maior parte são clientes fixos, que já conhecem o produto de longa data. Por outro lado, captar novos clientes tem sido quase impossível. “Não sei como as pessoas estão se alimentando, mas acredito que não tem sido fácil nesse tempo difícil que o país está”, diz. 

A inflação dos alimentos também chegou aos restaurantes dos bairros de classe média. Há seis anos, o administrador Marcos Aurélio Ferreira Moreira fundou com o marido um restaurante próximo a uma das principais avenidas da cidade, a Nossa Senhora de Fátima. No horário do almoço, ele disputa a concorrência com restaurantes italianos, casas de churrasco e a alta culinária gourmet no horário do meio-dia. O casal oferecia o PF, bem servido, em um marmitex de 750 ml para entrega. Caso o cliente quisesse aproveitar o lugar, um restaurante ambientado com itens retrôs, a comida do PF era servida em grandes louças brancas. Entre o alumínio e o porcelanato, foi tentando inovar até onde pôde para deixar o prato atraente, farto e manter a clientela fiel. 

De janeiro a maio deste ano, o PF de Moreira, de real em real, subiu de 14 para 16 reais, depois 17, até chegar a 18 reais. Dentro do PF, malabarismos: ele foi trocando a carne pelo frango, o frango pela carne suína, o suíno pelas vísceras. E o ovo começou a brilhar no porcelanato. “Diariamente eu compro de tudo, proteínas e vegetais. Os preços estão em disparada. Todo dia é uma remarcação diária dos valores. Uma etiqueta hoje já tem o valor trocado amanhã. Financeiramente vai ficando inviável”, declara Moreira. 

Enquanto o preço dos alimentos subia, os clientes iam sumindo do salão. O resultado não foi outro: Moreira fechou as portas na hora do almoço, cortando de vez o PF. Foi a primeira vez, desde que fundou o negócio, que ele precisou tomar uma medida tão drástica assim. Mantém apenas o bar de drinks à noite e não sabe tão cedo quando irá reabrir as portas do seu restaurante na hora do almoço. E, quanto a isso, é incisivo: “Enquanto o preço da comida não baixar, não consigo tão cedo desfilar um prato feito no salão”, relata à piauí. 

Para tristeza de comerciantes e consumidores, a tendência é que o preço da carne bovina continue subindo. A partir do segundo semestre, o gado entra no período de entressafra, quando se abate menos, devido ao tamanho dos novos bezerros. De setembro a dezembro, a expectativa é que haja ainda menos quantidade de carne circulando no país. A prioridade do produtor será manter as exportações. O resultado não deve ser outro: a carne bovina, que hoje já está a quase 50 reais o quilo nos supermercados e açougues, terá novo galope nos preços. Pelo cenário previsto, Bittencourt terá de buscar novos substitutos para o bife, o PF de Menezes deve sofrer novos cortes e subir de preço, e Moreira tão cedo não deve reabrir o seu restaurante no pico do meio-dia para vender PF na louça de porcelanato branco.

Bolsonaro flerta com vexame ao ironizar a 'pobrezE' que viceja na Argentina

Bolsonaro flertou com o vexame ao ironizar a notícia segundo a qual o Ministério de Obras da Argentina decidiu usar em caráter oficial oficialmente a chamada linguagem neutra, não sexista. Nesse linguajar, a terminação com artigos masculinos ou femininos é substituída em algumas palavras pelas letras "X" ou "E".

Bolsonaro correu às redes sociais para lamentar o uso da "linguagem neutra". Indagou: "No que isso ajuda" o povo da Argentina? Escarneceu: "Agora há 'desabastecimentE', 'pobrezE' e 'desempreguE'" no país vizinho. Pesquisa do Datafolha publicada nesta quarta-feira sinaliza que Bolsonaro deveria dar uma boa olhada ao redor antes de tentar a sorte como humorista.

Um em cada três brasileiros informa que a quantidade de comida disponível sobre a mesa foi insuficiente para alimentar a família. O percentual dos que se declaram sub-alimentados subiu de 26% em maio para 33% em julho. O drama é maior dependendo do público. Entre as mulheres, 37% dizem não ter acesso a comida suficiente. O percentual sobe para 46% nas famílias com renda de até dois salários mínimos.

O Datafolha detectou um fenômeno incômodo, uma espécie de liberalismo da fome: 17% dos entrevistados informam que tiveram que vender algum objeto de valor nos últimos meses para comprar comida. O percentual dos que trocaram bens por comida sobre para 24% entre os mais pobres. Na clientela do Auxílio Brasil, o índice foi de 27%. Entre os desempregados, 32%.

Horas antes de fazer piada com a realidade da Argentina, Bolsonaro voltou a questionar as urnas eletrônicas e a atacar ministros do Supremo e do TSE numa entrevista radiofônica. O capitão talvez devesse perguntar a si mesmo no que sua raiva ajuda a melhorar a realidade dos 33 milhões de Brasileiro que passam fome sonhando com o dia em que suas tripas experimentarão uma fome de presidente da República, do tipo que pode ser saciada abrindo a geladeira do Palácio da Alvorada, fornida com todas as iguarias e guloseimas que o déficit público pode pagar.


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