Semana On

Segunda-Feira 08.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

Pavor da cana

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 03 de Agosto de 2022 - Victor Barone

Reprodução Reprodução

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Num esforço para manter viva sua candidatura à reeleição, Bolsonaro está prestes a asfixiar os brasileiros que estão pendurados no Auxílio Brasil. Começa a ser pago na semana que vem o benefício vitaminado de R$ 600. Para multiplicar o efeito eleitoral da novidade, o governo encosta nos beneficiários do antigo Bolsa Família empréstimos consignados, descontados na folha dos benefícios.

Trava-se uma corrida contra o relógio. O comitê da reeleição tem pressa. Deseja que os empréstimos, já aprovados pelo Congresso, comecem a ser liberados ainda em agosto, levando ao bolso dos eleitores pobres R$ 2.600. Sairá do forno nesta semana a regulamentação do Ministério da Cidadania sobre a linha de crédito dos desesperados.

Os interessados poderão comprometer até 40% do benefício mensal. Não haverá limite para a taxa de juros. Agentes financeiros já assediam os clientes potenciais com taxas de 5% ao mês. Ou 79% ao ano. Um assalto a mão desarmada. Para reforçar a sedução, acenam com um prazo de carência para o início do pagamento. Ou seja: o sujeito tira o empréstimo agora e só começa a pagar depois da eleição, quando o estelionato eleitoral já estiver consumado.

Pesquisa do Datafolha revelou que um em cada três brasileiros declara que não dispõe de comida suficiente para alimentar a família. Entre os entrevistados, 17% informaram que tiveram que vender algum bem de valor para comprar comida. Num ambiente assim, a oferta de crédito fácil é tentadora.

O problema é que os empréstimos não produzem brasileiros bem alimentados, mas superendividados. No desespero, o eleitor é compelido a contrair dívidas acima da sua capacidade de pagamento. Abertas as urnas, perceberá que, além de continuar no buraco, o candidato à reeleição lhe jogou terra em cima.

Por Josias de Souza

INIMIGO DA DEMOCRACIA

 “Assinar papel qualquer um assina”, disse Bolsonaro sobre a “Carta pela Democracia”, iniciativa da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo que já foi subscrita por 750 mil pessoas, entre professores, juristas, empresários e banqueiros. Ninguém assina qualquer papel. Tanto que ele, que se diz democrata, perfeitamente enquadrado nas quatro linhas da Constituição, não assinou a carta que será lida no próximo dia 11 com toda pompa e circunstância. E por que não assinou? Porque entende que a carta é contra ele, embora ela não o mencione sequer indiretamente, nem ao seu governo. Dito de outra forma: Bolsonaro vestiu a carapuça porque sabe que não é e nunca foi democrata. Democrata não defende ditadura e tortura.

Com desprezo pela inteligência alheia, de preferência a inteligência dos seus devotos, Bolsonaro comparou as medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos durante a pandemia com medidas típicas de uma ditadura. Ele combateu o isolamento. Preocupado, como disse à época, com a salvação da economia, do contrário seu governo iria para o buraco, sabotou as medidas de isolamento e defendeu que morresse que tivesse de morrer. O Brasil é um dos recordistas em número de mortos pela Covid. Pesquisas de opinião encomendadas pelo governo atestam que as palavras de Bolsonaro contra a democracia lhe subtraem votos, mas por coerência ou teimosia ele as repete. Tomara que não mude até passarem as eleições de outubro. Faltam apenas 59 dias.

Por Ricardo Noblat

RIDÍCULOS DE FARDA

O penúltimo movimento executado no Tribunal Superior Eleitoral pelo general Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa, revela que as Forças Armadas não se negam ao ridículo voluntário para ajudar Bolsonaro a avacalhar o sistema eleitoral. Assumindo oficialmente a condição de boneco de um ventríloquo golpista, o general requisitou por escrito ao TSE, em caráter "urgentíssimo", acesso os códigos-fonte das urnas eletrônicas. Algo que estava disponível há dez meses, desde 4 de outubro de 2021.

Com a rapidez de um raio, o TSE autorizou a pasta da Defesa a realizar a pretendida inspeção na quarta-feira, no intervalo entre 10h e 18h. Sete entidades já haviam formalizado a mesma requisição. Quatro já realizaram a análise dos dados: Controladoria-Geral da União, Ministério Público Federal, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Senado Federal.

Mal comparando, a submissão do Ministério da Defesa à obsessão de Bolsonaro deixa as Forças Armadas numa posição parecida com a dos vira-latas que costumavam perseguir automóveis nas ruas, latindo como se quisessem castigar estraçalhar um intruso. Quem assistia às perseguições ficava imaginando o que fariam os cães se alcançassem os carros. Mastigariam os pneus? Comeriam os para-choques?

Bolsonaro não tem nenhuma dúvida. Seu propósito é o de desqualificar as urnas para questionar o resultado de uma eventual derrota. O diabo é que a urna eletrônica, que funciona sem fraudes há 26 anos, não se parece com um fusca indefeso. Autorizados a acessar os códigos-fonte, os militares precisam decidir até onde estão dispostos a levar sua autodesmoralização. O papel de vira-latas a serviço de um presidente que rosna a esmo para a democracia não é aceitável.

Por Josias de Souza

CANA BRABA

O nó do novo dilema que assedia a democracia brasileira não é o medo de Bolsonaro de ser preso. A questão é saber como as instituições reagirão à tentativa do presidente de obter uma imunidade preventiva caso se confirme sua derrota nas eleições presidenciais. Prepostos de Bolsonaro percorrem os bastidores de Brasília como patrocinadores de articulação malcheirosa para obter uma solução qualquer que ofereça ao presidente uma garantia de impunidade que consolidaria o Brasil como uma reles subdemocracia a caminho do naufrágio.

A ponta do iceberg foi exposta publicamente numa entrevista do ministro das Comunicações, Fábio Faria, ao Globo. Foi publicada em 28 de julho. Indagado sobre a reiteração dos ataques de Bolsonaro a ministros do Supremo e ao sistema eleitoral, o ministro previu uma "solução pacífica" para a crise neste mês de agosto. Segundo ele, a pacificação nasceria de uma "discussão entre o presidente do TSE (leia-se Alexandre de Moraes) e o presidente da República".

Na previsão de Fabio Faria, o entendimento viria antes do feriado de 7 de Setembro. Foi como se o ministro informasse que, havendo um acordo, Bolsonaro pararia de rosnar para o feriado nacional como um cachorro louco. O nome disso é chantagem. Simultaneamente, a Procuradoria do antiprocurador Augusto Aras pede ao Supremo que arquive os pedidos de inquérito da CPI da Covid contra Bolsonaro. Isso também tem nome. Chama-se conivência. Ou prevaricação.

De repente, ressurge do nada no Congresso a proposta marota de presentear os ex-presidentes da República com cadeiras vitalícias no Senado, com direito a imunidade. Isso evitaria que Bolsonaro, sem mandato, fosse enviado para a cadeia por um juiz de primeira instância, como aconteceu com Michel Temer. A iniciativa traz as digitais do centrão —o mesmo grupo que se lambuzou no mensalão e no petrolão, antes de enfiar os dedos no melado do orçamento secreto. Essa gente representa os valores mais tradicionais da política brasileira: o acobertamento, o compadrio, o patrimonialismo, o fisiologismo... Ao tentar pavimentar um futuro tranquilo para Bolsonaro, o centrão ensaia o desembarque. O capitão iria para o Senado, o centrão flertaria com o novo governo, e a democracia brasileira continuaria no brejo.

Por Josias de Souza

SEQUESTRANDO O 7 DE SETREMBRO

Ao sequestrar o 7 de Setembro pelo segundo ano consecutivo, transformando a data nacional num dia de celebração do seu radicalismo político, Bolsonaro faz do desafio às instituições e à própria democracia um processo de desmoralização dos militares. Faz isso ao encostar sua insanidade naquilo que chama de "minhas Forças Armadas".

BATE MENOS

Carlos Lupi, presidente do PDT que herdou de Leonel Brizola, pediu a Ciro Gomes, candidato do partido à vaga de Bolsonaro, que não bata de maneira tão pesada em Lula, que alivie. Não é a primeira vez que ele pede isso. Lupi acha que o partido já fez muito por Ciro sustentando uma candidatura até aqui emperrada na casa dos 8% das intenções de voto. Está na hora, pois, de Ciro retribuir. Parte do PDT votará em Lula no primeiro turno. A outra parte também poderá votar, a não ser que Ciro cresça surpreendendo todo mundo. Poucos acreditam nisso. Se Lula se eleger, o PDT quer governar com ele. O próprio Lupi sonha em voltar a ser ministro, e não será se Ciro continuar fazendo de Lula seu saco preferencial de pancadas.

Por Ricardo Noblat

GENTE DE BEM

Paulo Bilynskyj não é mais delegado da Polícia Civil de São Paulo. Sua demissão foi comunicada no final do mês de junho deste ano tendo como justificativa uma série de condutas que foram reprovadas pelos conselhos disciplinares da corporação. O episódio determinante para a retirada dele da corporação foi um vídeo feito por escola preparatória para concursos que fazia alusão do estupro de uma mulher branca por homens negros e compartilhado pelo policial. O agora ex-delegado é conhecido nas redes sociais por publicar vídeos em seu canal do YouTube com instruções de tiro e mais recentemente mostrando apoio ao presidente da república Jair Bolsonaro (PL) e fazendo ataques a membros e partidos de esquerda. Comumente ele aparece armado nas imagens

GENTE DE BEM 2

Os filhos dos atores Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso foram alvos os ataques racistas por uma mulher em um restaurante me Portugal.

MASSACRE

A cada tiro derrubava alguém’: indígenas contam como polícia atirou em crianças e adolescentes Guarani e Kaiowá. A operação do dia 24 de junho, considerada pela Defensoria Pública da União como uma “ação de despejo ilegal”, deixou um indígena morto e outros 20 feridos. Entre as vítimas, há vários adolescentes.

FRASES DA SEMANA

O orçamento que deveria ser público é secreto. A corrupção e o malfeito ganham sigilos de 100 anos. Os crimes são escondidos nas gavetas. O segredo é o veneno das democracias. O voto, secreto, eles querem filmar. Esse filme de terror está no epílogo“. (Renan Calheiros, senador)

“Bolsonaro faz mudanças na Constituição distribuindo quarenta bilhões de reais até dezembro. Ele acha que o povo é gado. Coloque o dinheiro na nossa conta que vamos comprar o que comer, o que vestir. No dia dois de outubro temos que dar uma banana para Bolsonaro”. (Lula)

À medida que formos chegando na segunda quinzena de setembro e próximo à data da eleição, a lógica do segundo turno avança sobre o processo decisório e é esse o problema do Bolsonaro. A eleição corre o risco de ser resolvida no primeiro turno”. (Antonio Lavareda, pesquisador)

“Isso foi uma grande desvirtuação da verdade. Porque o mesmo ossinho que aquele açougue… A gente fala ossinho, pelo amor de Deus. Vou até convidar vocês para a gente ir lá ver qual é a qualidade do ossinho.” (Mauro Mendes, governador do Mato Grosso, candidato à reeleição)

“A terceira via tornou-se uma peça de ficção em que todos se prendem equivocadamente a esse discurso de ‘nem Lula nem Bolsonaro’. As pesquisas mostram que é quase impossível tirar o Lula do segundo turno. A vaga a ser conquistada é a de Bolsonaro.” (Rodrigo Maia, deputado, PSDB)

“Não acredito que possa manter o mesmo ritmo de viagens de antes. Acredito que na minha idade, e com esses limites, devo me poupar para poder servir à Igreja, ou pelo contrário pensar na possibilidade de me colocar de lado”. (Papa Francisco, depois de visitar o Canadá)

“Vamos fazer uma campanha sem ódio. Ninguém tem que brigar com ninguém na rua, em restaurante. Vamos ganhar tendo coragem. Tem gente que acha que não devo fazer comício, que só devo fazer em local fechado. Daqui para frente é tudo em lugar aberto”. (Lula)


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