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Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

O que é o fracasso?

“Baudelaire teve a vida que merecia, vida sórdida em seu requinte, conformista em suas revoltas, mentirosa na franqueza com que a mantinha, vida falsificada e FRACASSADA, todos esses julgamentos não são sujeitos a reservas...” (Blanchot).

Postado em 14 de Fevereiro de 2014 - Jorge Ostemberg

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Diz-se em determinado relatório final: “Nunca um produto esteve tão destinado ao fracasso como esse em que se propõe uma bebida baseada em outra já existente na Ásia, em que consiste algo sem gosto, com alta dose de cafeína”. Essa, em outras palavras, é a resposta da análise sobre uma bebida proposta pelo austríaco Dietrich Mateschitz, CEO e cérebro da Red Bull, por uma empresa estadunidense de marketing, antes da Red Bull (bebida) propor dar asas para nós e realmente dá-las a Sebastian Vettel e vários outros atletas, como pilotos de aviação acrobática (Revista Management; nov/dez 2013).

O que é o fracasso? Por que uma empresa altamente especializada diria com tanta segurança que o Red Bull fracassaria? Que base utilizaram como determinante sobre o fracasso?

Empresas de marketing trabalham com pesquisas e certamente eles avaliaram o comportamento de público para o qual Mateschitz queria se dirigir e o potencial da bebida. Deixaram de focar o que o austríaco mais acreditava, a força do impacto dos esportes com grande destaque e um trabalho acentuado na fórmula da bebida, para que ficasse mais atrativa e respondesse à busca futura. A empresa que recusou a proposta parece ter se esquecido que gosto tem a cerveja... Parece-me que é amarga, e algumas pessoas parecem gostar assim mesmo.

É oportuno observar que o fracasso pode estar ligado diretamente às condições mentais e não ausência de condições ideais para uma realização.

Perguntei em meu facebook: “o que é fracasso?”; e dois facecontatos responderam; as damas primeiro, Ana Costa: “É quando não se consegue realizar um objetivo”; e Danny Ramirez Davalos “É não ter começado”.

Puramente gramatical (léxico), a palavra fracasso se refere a falta de êxito; malogro; derrota, curiosamente após o Houaiss observar como significado 1: “som estrepitoso provocado por queda de objeto”. A definição léxica não oferece suporte amplamente negativo para fracasso, pois: a falta de êxito não significa que não se possa recomeçar; o malogro, idem e a derrota é parte de uma caminhada vitoriosa em maioria das vezes. Autoajuda?  Não! Pois estamos tratando de empreendedorismo e realmente a tenacidade não é suporte ou um tratamento psicológico e sim condição constante em almas empreendedoras ou de empreendedorismo imbuídas, capacidade natural em todos os seres normalmente saudáveis.

Falamos em psicológico. É oportuno observar que o fracasso pode estar ligado diretamente às condições mentais e não ausência de condições ideais para uma realização.

Um aspecto importante sobre o fracasso é justamente ligado à história da psicologia; da psicanálise, para ser mais preciso. Em ensaio: “O que Freud dizia sobre as mulheres”; José Artur Molina observa que “A psicanálise se constrói a partir de um FRACASSO, a incapacidade da ciência médica de meados do século XIX em tratar de uma série de sintomas que desafiavam o saber racional médico.

Um empreendimento como a Ford de Henry Ford não é o mesmo que o do pipoqueiro da Praça do Rádio Clube, mas ambos teriam que estar psicologicamente preparados para problemas de várias ordens.

O fracasso alheio pode determinar o sucesso do empreendedor: “Foi apenas com Sigmund Freud, com seu empenho e espírito desbravador, e que não renunciava ao desafio... que a situação começa a mudar”.

Todos sabem de maneira geral que Freud fez uma ligação dos aspectos psicológicos com a libido, como determinante, devido ao fato de que as realizações sexuais são ligadas ao sucesso e frustrações primordiais, e a limites que criam dispositivos em nosso querer e agir.

Analisando um personagem shakespeariano, Lady Macbeth, Freud, nessa linha de ligação, estabelece o fracasso da rainha em relação à maternidade, com uma forte consequência de vários outros atos, como os assassínios da peça de Shakespeare (Rafael Raffaelli e Beatriz Schmidt – “Freud e Lady Macbeth”). Nesse caso o fracasso não somente é pleno, como determinante, praticamente irremediável

É preciso notar que o fracasso, em um estudo com Freud, não é assunto para ser aqui alongado, devido aos aspectos altamente técnicos. Porém, de maneira resumida pode-se afirmar que há um dispositivo em nosso ser, conforme estudos do austríaco, que com características próprias de cada personalidade, contudo, serve para inconscientemente buscar desvios dos fracassos; não se confundindo aqui com o erro. Fracasso, no caso, seria frustração de um objetivo, em que Freud liga tal dispositivo a uma construção vinda de nossas formações sexuais e buscas inconscientes ou não.

Mas em se ligando o evento dramatúrgico ao empreendedorismo, verifica-se que no caso último, as motivações psicológicas são mais de ordem pontual e o caráter das pessoas é aquele geral, genericamente salutar e somente, para que ocorram as respostas. Ou seja, nada tão complicado como Macbeth e Freud.

Um empreendimento como a Ford de Henry Ford I não é o mesmo que o do pipoqueiro da Praça do Rádio Clube, mas ambos teriam que estar psicologicamente preparados para problemas de várias ordens; por exemplo, um que atingiria os dois: concorrência; mais um, a fiscalização tributária. Obviamente, a tenacidade de cada um determina sucesso ou fracasso pontual; fosse fraco, Henry Ford poderia ter desistido, se as consequências do baixo caixa em julho de 1903 não fossem mudadas por uma entrada salvadora de recursos (um pagamento à vista e duas entradas, para a compra de três modelos). Além disso, enfrentou poderosa interferência de interessados na sua não evolução; e sua história nos tragaria o artigo, então ficamos com seu exemplo de tenacidade e de não se entregar aos trovões do fracasso, preparando-se para qualquer tipo de chuva, relacionada ao seu empreendimento.

Quanto ao pipoqueiro, como é tradição da história, não são contemplados com mais clarão da investigação de fatos, indivíduos de tal porte empreendedor, a não ser que tenham outro aspecto destacável. Mas é possível inferir que sua permanência não se deva a facilidades de empreendimento. Devemos uma pesquisa local e atualizada, mas se pode imaginar que tenha enfrentado, em diferentes níveis e complexidade que Ford, também a ameaça de fracasso ou fracassos. Deve ter tido seus problemas, o que inclusive, como sugere uma das minhas eventuais revisoras textuais, Liliane Gobbo, pode ter sido um evento anterior e diferenciado de sua negociação, o que deu origem ao sucesso desta, como suporte econômico de vida

O que não se pode ignorar é que a sobrevivência e a prosperidade não são capazes de separar e classificar a tenacidade dos homens ou definir se sobreviver é fracasso e prosperar é glória. Mas não há dúvidas de que todos querem uma vida melhor para si e os seus.

Moacyr Scliar, saudoso escritor e médico gaúcho, conta em uma coluna de Zero Hora, uma pendenga entre dois brilhantes artistas, um do cinema, outro da literatura; infelizmente leva sarrafo justamente um dos meus grandes preferidos, Somerset Maugham, que escreveu “O Fio da Navalha”, maravilhoso romance com inédita busca a Deus, e outro que recentemente rendeu uma maravilha de filme; o livro “O Véu Pintado”; a película: “O despertar de uma paixão”, com os ótimos Edward Norton e Naomi Watts (filme para muita pipoca e muito choro).

Maugham produziu um artigo transformando o fracasso financeiro de inúmeros indivíduos e famílias de guetos, em uma felicidade genuína de vários deles, em seres com uma alegria só possível na pobreza, apontando a performance do divertido mendigo de chapéu coco, como retrato disso. Chaplin o rechaçou virulentamente, observando que o que mais existe na pobreza são dificuldades, muita luta e vontade de mudar a situação; e que ele, Chaplin, era justamente um exemplo disso e Maugham tivera sido leviano em sua afirmação. Realmente, a mãe do famoso comediante morreu em grande luxo e vários outros foram ajudados por Chaplin a sair da miséria (Scliar).

Considerando com o que foi escrito, deve-se finalizar com a resposta sobre o que é o fracasso.

Antes disso consideremos curtamente outros fatos para endossar a resposta que pareceu mais vigorosa, após os raciocínios todos.

Van Gogh vendeu somente um quadro; para o irmão, que simulou um comprador; Lee Iacocca, o criador do Mustang, foi humilhado e despedido da Ford sem pompa alguma, salvou a Crysler; Ayrton Senna morreu poucas corridas após realizar seu sonho de correr na Willians; um de meus mais brilhantes professores, na matéria de Linguística, da UFMS, queria ser engenheiro, mas as finanças impediram, ele formou inúmeros alunos; Rimbaud não quis mais ser poeta, desistiu da poesia; ele não é um dos maiores poetas de todos os tempos? Quantos livros de filosofia Nietzsche vendeu? Quantas pessoas sabem quem é um sujeito que nasceu no Uruguai com o nome Isidore Ducasse. Críticos de grande coturno o põe acima do próprio Baudelaire, o outro tido como fracassado; e sobre o primeiro, diz Otávio Paz: “O astro negro de Lautréamont (obra de Ducasse) preside o destino de nossos maiores poetas”. Isidore Ducasse permaneceu obscuro por décadas, mas parecia entender que seu fracasso seria, no final, um empreendimento glorioso: “...O final do século dezenove verá seu poeta (Canto 6, Estrofe 1 – Os Cantos de Maldoror – Cláudio Willer, Iluminuras, “Lautréamont”).

Tendo começado a falar sobre fracasso com Baudelaire, terminemos com ele, na voz de Blanchot, continuando onde lá acima parou-se o texto:

“Porém, se os aceitamos, como devemos, precisamos aceitar um outro, que Sartre ignora: Baudelaire também mereceu ‘As Flores do Mal’, essa vida, responsável por sua macaca, também é responsável por essa chance insigne, uma das maiores do século” (Blanchot).

Responderemos “O que é fracasso” com Erasmo de Roterdã: “O que é o mal? A pedra que vos cai na cabeça certamente é o mal; mas as afirmações por palavras, só serão mal se o indivíduo deixar.

E usando a Ana e o Danny, meus amigos de facebook, com facilidade, pois estiveram antenados à pergunta prévia ao artigo; se você não tem um objetivo, não correrá o risco do fracasso, ele pode existir, em um momento; e se diz o Danny, que o fracasso é não começar, talvez ele seja muito maior se nos falta coragem para recomeçar. O fracasso, portanto, em empreendedorismo, é aquilo que pode acontecer de ruim, mas que muito mais facilmente, pode não acontecer, e se acontecer, não fracassará aquele que recomeça.

Mas, não terminamos, tudo aberto ainda; às críticas e nova leitura e releitura, e nova construção. Fracassando o artigo, certamente buscaremos realizar um outro, melhor ainda. E seguimos!


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