Semana On

Segunda-Feira 08.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

Biden, o sionista

Ainda que o presidente americano se declare a favor da solução dois povos, dois Estados dentro das fronteiras de 1967, ações práticas mostram que ele tem lado

Postado em 21 de Julho de 2022 - Bruno Lima Rocha

Embaixada dos EUA em Israel Embaixada dos EUA em Israel

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O presidente do Império, o democrata Joe Biden, iniciou sua visita ao Oriente Médio sendo recebido pelas entidades do Apartheid. Ele próprio afirmou “eu sou um sionista”. Após agendas protocolares, se reuniu junto ao dublê de político, “jornalista” e profissional do show business Yair Lapid, assinando a Declaração Estratégica Conjunta.  O texto caracteriza organizações da resistência como Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica (palestina) como “terroristas”, se compromete com nunca autorizar o Irã  a ter armas  nucleares e a garantir o empenho de todas as suas forças na defesa dos invasores europeus da Palestina.

Além de promover a “defesa da democracia para consertar o mundo”, reforça a importância do Memorando de Entendimento Conjunto, incluindo “ajudas adicionais” declarando que:

“Os Estados Unidos apoiam fortemente a implementação integral dos termos do atual histórico Memorando de Entendimento de US$ 38 bilhões, que honra o compromisso duradouro com a segurança de Israel, bem como sua convicção de que um MOU subsequente deve abordar ameaças emergentes e novas realidades. Além disso, os Estados Unidos estão comprometidos em buscar assistência adicional de defesa antimísseis – acima dos níveis do MOU – quando em circunstâncias excepcionais como as hostilidades com o Hamas durante onze dias em maio de 2021.”

Já a entidade sionista retribui: “Israel aprecia o compromisso dos EUA com o MOU e por fornecer um adicional de US$ 1 bilhão acima dos níveis de MOU em financiamento suplementar de defesa antimísseis após o conflito de 2021. Além disso, os países expressam entusiasmo em avançar na parceria de defesa EUA-Israel por meio da cooperação em tecnologias de defesa de ponta, como sistemas de armas a laser de alta energia para defender os céus de Israel e, no futuro, de outros parceiros de segurança dos EUA e de Israel.”

Ou seja, ainda que a Administração Biden se declare a favor da solução dois povos, dois Estados dentro das fronteiras de 1967, a ajuda humanitária que os EUA enviam para a Autoridade Nacional Palestina ou para agências da ONU operando na região, não chega a 10% dos valores iniciais da Declaração Estratégica Conjunta. Em termos práticos, Washington não vai tomar nenhuma medida para evitar o avanço do crime internacional com a Ocupação da Cisjordânia e o Cerco de Gaza e nem passa pela mente de seus “falcões” a proibição de acesso aos meios de pagamento e transferência financeira para fundos ilegais de especulação imobiliária em Jerusalém.

Como apenas a entidade do Apartheid Colonial pode fazer o que bem entende, Biden necessita convencer os possíveis amigos a serem mais “obedientes”.

O Império quer adestrar os “países amigos”

No sábado dia 16 de julho do corrente ano o presidente Joe Biden participou de Encontro Regional em Jeddah, Arábia Saudita. Em um rápido giro pelo Oriente Médio, o líder do Império prometeu recursos infindáveis para o Apartheid, se auto-proclamou sionista estando com os dois pés na Palestina Ocupada e depois começou sua sina tentando reviver o dumping de Reagan com a casa dos Saud, elevando a produção mundial e baixando o preço do petróleo na década de ’80 do Século XX.

O Encontro para o Desenvolvimento e a Segurança (GCC + 3) contou – obviamente – com a presença dos países membros do Conselho de Cooperação do Golfo: Arábia Saudita, Omã, Qatar, Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Também teve a presença de delegações da Jordânia, Egito e Iraque. Supostamente, fora a monarquia qatari e o governo de Bagdá, os demais Estados seriam mais alinhados ao imperialismo anglo-sionista. Não foi bem o que se viu. A monarquia saudita, por exemplo, se comprometeu a elevar sua produção de petróleo a no máximo 13 milhões de barris dia, muito aquém da vontade do ex-vice de Obama.

Vale trazer a observação do Dr. Assad Frangieh, especialista na região, ao comentar a transmissão ao vivo do Encontro:

“Ouvi hoje as falas na abertura da cúpula em Jeddah. Com exceção do Biden que tentou criar um ‘clima’ de confronto com Irã e puxar Israel para dentro do Clube, todos os participantes jogaram água fria nesse tópico de criar uma aliança militar e não demonstraram nenhum entusiasmo com Israel. Ao contrário, mandaram outros baldes de água gelada. Os EUA não têm mais como achar que é o pólo de tudo no mundo. Nunca uma fala de um Presidente Americano foi tão ‘ignorada’ quanto a de hoje. Vamos aguardar agora as falas finais e a declaração final.”

Tamanho distanciamento com prudência não é para menos. A estratégia de Biden para o Oriente Médio está sendo desenhada por seu Assessor de Segurança Nacional Jake Sullivan, expressando a vontade de Washington de “propor uma região estável”. Tal noção imperial de “estabilidade”, segundo o analista Marwan Bishara, se resume assim:

“Os EUA querem explicar que o fortalecimento de alianças no Oriente Médio é fundamental para a segurança nacional dos EUA e que Washington está pronto para vender armas e fornecer treinamento e apoio aos principais aliados regionais para enfrentar o Irã e seus representantes regionais. Mas, ao mesmo tempo, ele garantirá que todos entendam que ele não tem intenção de tolerar ‘franco atiradores’ – exceto Israel – e insistirá que seus parceiros pelo menos mantenham a aparência de respeito aos direitos humanos, que seu governo coloca no centro de sua política externa.”

Vale observar a hipocrisia na “defesa dos direitos humanos”, considerando a crise humanitária na Palestina e no Iêmen. Os iemenitas estão sob  bombardeio constante da coalizão apoiada pelos EUA e contando com  a participação da Al Qaeda na Península Arábica e os  índices da tragédia são absurdos.

A situação do Império não é nada confortável. Já  em março do corrente ano, a empresa de petróleo saudita (ARAMCO) cogitava em realizar parte de suas vendas em moeda chinesa. 80% dos contratos de óleo cru e derivados são realizados em dólar (daí o termo petrodólares), e na prática do capitalismo global, os contratos de combustível fóssil acabam lastreando a economia mundo. A balança está virando, pois em 2019, a China comprou 20,1% do petróleo exportado pela  monarquia dos Saud e em 2021 a cifra alcançou 25%. Assim, o petroyuan, a compensação dos compromissos em moeda estatal controlada por Beijing, pode realizar uma inversão do capitalismo mundial. E isso, deixa a elite estadunidense em alerta máximo.

O provável fim de uma era imperial

Podemos resumir os efeitos imediatos desta visita junto aos países árabes e também seus aliados de maioria islâmica nas palavras de Khaled Al Kadume – representante do Hamas no Irã, traduzidas e gentilmente enviadas pelo Dr Frangieh:

“Estamos diante de um momento histórico de desequilíbrio de poder em escala global. Isso constitui a passagem para o que se pode chamar de formação de uma nova ordem mundial, na qual não haverá possibilidade de exclusividade da hegemonia americana, mas oportunidades reais para a formação de alianças regionais respeitáveis ​​e fortes economicamente, politicamente e até militarmente, que façam as grandes potências respeitarem tais alianças e parcerias com ela e não mais na base da subordinação.”

A probabilidade dos EUA “serem convencidos” desta nova era sem aumentar sua prepotência e beligerância é nula. Tal e qual as chances reais da entidade sionista desistir do Apartheid como força de ocupação na Palestina e aceitar um novo regime com direitos iguais para todas as populações. As alianças regionais citadas acima terão de prevalecer em todos os níveis, acabando com os resquícios de subordinação nos países árabes e islâmicos.

Publicado originalmente no Monitor do Oriente


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