Semana On

Segunda-Feira 08.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

O fascista e o medo da jaula

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 21 de Julho de 2022 - Victor Barone

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Bolsonaro teme a jaula. Suas ações nos últimos meses mostram o desespero de quem, ciente da derrota iminente, prepara-se para qualquer cartada em busca de uma saída. Um golpe de estado pode ser a salvação. Para isso, o excrementíssimo que ocupa o Palácio do Planalto se cerca de canalhas, de farda e sem farda. Todos ávidos por um naco de poder, por uma benesse qualquer. Há 30% de pobres diabos – com canudo ou sem; com conta bancária gorda ou passando fome; pretos ou brancos; de gêneros e orientações diversas; ateus ou crentes – que endossam a barbárie. São amigos, familiares, colegas de trabalho. Gente com quem convivemos, e que está pronta a legitimar mais quatro anos de escárnio para com a democracia. E isso é o mais assustador.

MAIS 4 ANOS DISSO?

Você já se perguntou por que Bolsonaro quer mais quatro anos de mandato? Para fazer o quê, e por quem? Lembra-se se ele já disse por que quer mais quatro anos? Não vale responder com o que você suponha que ele queira fazer, mas com o que ele tem dito ou já disse. Não vale citar frases vagas, do tipo fazer o país crescer e todos os brasileiros serem felizes.

Você pode não gostar de Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet, mas faz ideia do que eles desejariam fazer se fossem eleitos. Lula, pelo que já fez em dois governos; Ciro e Simone pelo que prometem. E Bolsonaro? Ao se eleger há quatro anos, ele dizia que, primeiro, era preciso “destruir o sistema” para depois reconstruí-lo. Nunca deixou claro o que era o “sistema”, nem o que poria no lugar dele. Se por “sistema” entenda-se o modo como a economia era conduzida, nada mudou. As reformas que ele prometeu fazer não fez. A da Previdência foi deixada pronta por Michel Temer. Se por “sistema” entenda-se o modo como a política em geral era conduzida antes dele, nada também mudou, a não ser para pior. Hoje, o Congresso dispõe do Orçamento Secreto, uma aberração.

Os militares, antes recolhidos aos quartéis, entraram no governo e voltaram a se meter com o que não deveriam. São mais de 6 mil. A democracia chega mais fraca e ameaçada ao cabo de quatro anos. E a vida das pessoas melhorou? Como melhorou se a Educação foi desmontada, a Saúde também, a inflação cresceu, e 60 milhões de brasileiros acordam todos os dias sem saber o que vão comer? Que novos programas sociais foram criados? Ou que programas sociais existentes foram ampliados ou reformados? Esmola para comprar a reeleição não é programa social, é só esmola.

Pense bem: mais quatro anos de Bolsonaro para quê? Para ele corrigir os erros que cometeu? Ou, por não reconhecer, cometer outros? Ou para tentar avançar na obra de destruição do país? A reconstrução do “sistema” – quem sabe? – ficaria para um terceiro mandato, se não dele se a Constituição não fosse emendada, de um dos filhos ou de um seguidor fanático. O Brasil, hoje, é menos ou mais respeitado pelos demais países? Seu presidente é menos ou mais ouvido pelos líderes mundiais? E suas sugestões são menos ou mais acatadas? Em que parte do mundo um chefe de governo convoca embaixadores estrangeiros para dizer que o sistema eleitoral do seu país não é confiável? Um sistema pelo qual ele foi eleito?

Sem convocar embaixadores, Donald Trump foi além: recusou-se a aceitar a derrota e tentou dar um golpe, estimulando a invasão do Congresso. Bolsonaro é uma cópia mal feita de Trump. Se isso nada disso envergonha você, é porque você sempre foi bolsonarista, e não sabia. E agora que sabe, não se incomoda. Passe bem enquanto puder.

Por Ricardo Noblat

Se Bolsonaro quisesse votos para reeleger-se não insistiria com a mentira de que as eleições de outubro poderão ser fraudadas como foram as de 2018 para impedi-lo de ganhar no primeiro turno. Insiste na mentira para acirrar os ânimos dos seus seguidores mais fanáticos, tumultuar o processo eleitoral, justificar atos de violência e, ao cabo, recusar-se a aceitar uma eventual derrota. Se tiver força para tanto, dará o golpe mais original da história política do Brasil e, quem sabe, da história da humanidade, aquele anunciado há mais de ano por todos os meios de comunicação. Se não tiver, irá para casa se dizendo roubado, prometendo voltar e com medo de ser preso. Donald Trump conta com um partido para voltar se quiser, Bolsonaro, sequer conseguiu construir um.

Na Venezuela, os militares se apoderaram de parte do aparelho de Estado e por isso apoiam o ditador Nicolás Maduro. Aqui, como meros parasitas do aparelho de Estado, eles são descartáveis. Então, voltarão aos quartéis e baterão continência para o próximo presidente, contrafeitos ou não. E ainda dirão que jamais conspiraram para rasgar a Constituição porque são democratas. Esse parece o desfecho mais provável dessa ópera de má qualidade encenada por um ex-capitão expulso do Exército e uma parcela de generais da ativa e da reserva, talvez a pior de sua geração.

O ato que teve como palco o Palácio da Alvorada foi puro nonsense. O presidente reuniu embaixadores de países estrangeiros para desancar o sistema eleitoral pelo qual se elegeu. Pelo qual se elegeram seus filhos zero, seus aliados de raiz ou de ocasião e todos os seus adversários. Nenhum deles veio a público dizer que seu mandato é ilegítimo, e nem o presidente ousa dizer.

O que os embaixadores irão relatar aos seus governos? Que o chefe do governo junto ao qual são acreditados os chamou para adverti-los de que as próximas eleições do seu país poderão ser fraudadas? Apresentou provas disso? Não? Não apresentou? Apresentou-as à Justiça e ela simplesmente as ignorou? Também não? Ele espera que os demais governos acreditem apenas na sua palavra? Se acreditarem, o que ele espera que façam? Que saiam em sua defesa? Que desrespeitem a soberania do Brasil e intervenham? Intervenham, como? Com palavras ou com a força bruta?

Verdade que Bolsonaro foi aos Estados Unidos e apresentou-se ao presidente Joe Biden como o candidato que poderia melhor defender os interesses americanos no Brasil, ao contrário de Lula. Biden mudou de assunto na mesma hora, e fontes do governo americano logo providenciaram o vazamento da informação. Bolsonaro não entendeu o recado, ou se entendeu, não ligou.

Uma das belezas da democracia é esta: você pode eleger um desqualificado qualquer para governar, um insano, até mesmo um palhaço, mas terá que aturá-lo até o fim do seu mandato. Vê se aprende da próxima vez.

Por Ricardo Noblat

ENQUANTO DER

Enquanto resta o direito à livre manifestação, ou se defende a democracia ocupando as ruas ou se deixa que elas sejam ocupadas só por aqueles que querem abortá-la. Bolsonaro quer dar uma gigantesca demonstração de força no próximo dia 7 de setembro. Não se duvide que o fará. Já o fez no ano passado e com êxito. Falta o contraponto. De 2013 para cá, o país já assistiu a inúmeras manifestações de tendências políticas opostas sem que tenha havido lugar para a violência. Por que não acreditar que poderá ser assim?

Por Ricardo Noblat

LÁ FORA

Ainda que atualmente o Brasil esteja sob o controle de fundamentalistas e negacionistas, o país é um dos maiores das américas e do mundo, logo, quando o sistema democrático de um país como o Brasil corre o risco, isso repercute na imprensa tradicional do mundo todo, mas não só, o teatro de ontem teve impacto nos portais da Bloomberg e Nasdaq, referência para investidores do mundo todo. Abaixo, destacamos as principais repercussões internacionais.  

Whashington Post - Bolsonaro se reúne com embaixadores para semear dúvidas sobre eleição 

Reuters - Bolsonaro ataca sistema eleitoral do Brasil em reunião com diplomatas  

Bloomberg - Bolsonaro se reúne com embaixadore para lançar dúvidas sobre sistema eleitoral  

The New York Times - Bolsonaro reúne diplomatas estrangeiros para lançar dúvidas sobre eleições no Brasil  

Nasdaq - Bolsonaro ataca sistema eleitoral brasileiro em encontro com diplomatas.  

France 24 - Em discurso a embaixadores, Bolsonaro volta a questionar sistema eleitoral

PARCEIROS

Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) estão ainda mais incomodados com a proximidade entre o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e o presidente Jair Bolsonaro (PL) após o ataque do mandatário às urnas eletrônicas ontem. O parlamentar não comentou o episódio.

PIPI MOLE

Abraham Weintraub, o ex-ministro da Educação e ex-aliado do presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou durante uma live que o presidente, de acordo com a sua avaliação, estava com “pipi mole” durante o encontro com embaixadores na última segunda-feira (18), no Palácio da Alvorada.

ESCORRAÇADO

O presidente da Funai, Marcelo Xavier, foi obrigado a deixar um evento em Madri, depois que passou a ser atacado por grupos que questionavam sua presença em uma reunião internacional sobre a situação indígena. Ricardo Rao, ex-funcionário da Funai, usou o evento para denunciar a presença de Xavier, alegando que ele não teria motivo para estar naquela sala. Constrangido, o presidente da Funai deixou o local. "Esse homem não pertence aqui", gritou Rao, apontando o dedo ao presidente da entidade. "Esse homem é um assassino, esse homem é um miliciano", disse.

FROUXO

A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) rebateu as críticas e chamou Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de "frouxo" após o filho do presidente Jair Bolsonaro (PL) dizer que a parlamentar quer boicotar o evento da convenção do partido que vai oficializar a candidatura do atual mandatário à reeleição. Na tarde dessa quinta-feira, Eduardo publicou um vídeo no Twitter em que acusa a parlamentar, classificada como "aliada de Lula", de contribuir para o boicote no evento.

GENTE DE BEM

Para o empresário Winston Ling o fato de o Brasil ter neste momento milhões de pessoas com fome é algo bom. Para Ling, o país precisa de "mais desigualdade, não menos". 

FRASES DA SEMANA

“O pior cego é o que não quer ver. […] Olhem para a sua família e seus amigos. E avaliem quantos fizeram campanha para o presidente, votaram no presidente em 2018, e agora não votarão”. (Janaína Paschoal, PRTB, deputada estadual bolsonarista, de São Paulo)

“Bolsonaro resolveu criar um programa de três meses até dezembro. Resolveu dar dinheiro para taxista, para motorista. Ele resolveu aumentar o auxílio para 600 reais. Não se façam de bobos. Se cair o dinheiro na conta de vocês, gastem e depois deem uma banana para ele”. (Lula)

“Não é estranho que políticos que fizeram a sua vida e da família na esfera pública, sendo eleitos através da urna eletrônica, de repente, inventem mil lorotas para justificar a própria incompetência? É estranho e vergonhoso.” (Paolla Oliveira, atriz)

“Liberdade de expressão não é liberdade de agressão! Liberdade de expressão não é liberdade de destruição da democracia, das instituições e da dignidade e honra alheias!”. (Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal)

“Não é proibido ter uma opção política, o que é proibido, inaceitável é a agressão do ser humano ao ser humano, como meu irmão recebeu naquele momento. Isso tem que ser condenado”. (Luiz Donizete, irmão bolsonarista de Marcelo Arruda, o tesoureiro do PT morto em Foz de Iguaçu)

“Quem matou Marcelo Arruda não foi um bolsonarista, foi o bolsonarismo. No Direito Penal tem o autor mediato e o autor imediato, aquele que aperta o gatilho. Nesse caso, o autor mediato, uma espécie de ‘mandante’, foi o bolsonarismo”. (Flávio Dino, ex-governador do Maranhão)

“Marcelo Arruda [tesoureiro do TV em Foz do Iguaçu, assassinado por um bolsonarista] era um trabalhador, pai, servidor público no Paraná. Planejou sua festa de aniversário em paz, com sua família. Marcelo é vítima de uma violência que foi contra a democracia”. (Lula)


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