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Segunda-Feira 08.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

A Vida de Ódio, é o Ódio à Vida

O ódio é uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior

Postado em 13 de Julho de 2022 - Túlio Batista Franco

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“O ódio é uma tristeza acompanhada da ideia de uma causa exterior”

– Espinosa, Ética, parte III, definição dos afetos

 

Depois do assassinato político do guarda municipal Marcelo Arruda em Foz do Iguaçu, no dia 10 de julho deste ano, acordamos para uma realidade assustadora: o que faz com que se mate alguém que expressa uma opinião divergente de outra pessoa? Não é de hoje que o ódio tem ocorrido no nosso meio, como afeto que atravessa as relações sociais. Agressões covardes a pessoas da comunidade LGBTQIA+ têm sido comuns e não raro ocasionam mortes; perseguição cruel aos povos originários indistintamente mulheres e crianças, por ocuparem territórios que são cobiçados por garimpeiros e madeireiros, gente de todo tipo, movidos pela ganância de enriquecer às custas da destruição pura e simples dos recursos naturais. O assassinato muito frequente de jovens negros nas periferias, como se vê cotidianamente.  O abandono de mais de um terço da população brasileira à própria sorte, fome, miséria, exclusão, são formas de matar por aporofobia, o ódio ao pobre.

O ódio é um afeto que caracteriza a biopolítica atual, produz mortes todos os dias, em corpos matáveis, porque não seriam produtores de novos capitais para a acumulação social, ou, não estão incorporados na cartilha desenvolvimentista de um projeto neoliberal que governa o país.

No ambiente cotidiano, faz tempo que passamos a conviver com exacerbação de sentimentos hostis, xingamentos, empurrões, gestos, intolerâncias em transportes, supermercados, filas, vizinhos. Expressões rotineiras do ódio. Mas, enfim, de onde vem este ódio que atravessa os corpos, e os toma, resultando em destruição, angústia, aprisionamento das pessoas em suas próprias casas?

Segundo o texto colocado acima, em epígrafe, o ódio nasce dos afetos de tristeza, ou seja, a pessoa se torna triste por intolerância, a tudo o que contraria seu pensamento, seu modo de vida, manifesto por outras pessoas que são livres para pensar e agir. Já que a tristeza é um afeto que reduz a potência de agir, o ódio que daí nasce, domina corpos com baixa vitalidade, tomados por ideias inadequadas, um pensamento turvo, incapaz de perceber o contexto da sua vida adequadamente.

O ódio é genuinamente um afeto gerado em corpos fracos, desorganizados, despotencializados para o mundo e a vida. É um corpo desorientado para onde ir, mas é nesta condição, desgovernado, que o corpo que odeia busca aquilo que é a causa da sua tristeza, obsessivamente tomado pela ideia de destruí-lo. Ao contrário do medo que é um sentimento que paralisa, o ódio põe a pessoa em movimento, age como força propulsora para a destruição do outro.

É neste espectro, neste contexto-mundo que vivemos hoje. Expostos a sentimentos hostis, de qualquer lugar, de onde menos esperamos podemos ser surpreendidos. Contra isto, e como antígeno ao ódio, contamos com a solidariedade, a ideia geral de constituirmos em nós, e entre nós uma comunidade de paz, com respeito à diferença, exercendo a diversidade como princípio, e entendendo a multiplicidade do pensamento e do fazer mundo como uma riqueza. Isto deve produzir nos nossos corpos a alegria, com aumento da potência de agir. Evita em nós o ódio, expulsando-o do nosso meio. É assim que tornamos possível dar passagem a novas possibilidades de construção coletiva e comunitária, algo novo nas relações entre pessoas, na sociedade. Essa construção é possível. Chegará o dia.


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