Semana On

Segunda-Feira 08.ago.2022

Ano X - Nº 499

Poder

Bolsonaro e Milton Ribeiro fazem tabelinha para matar inquéritos no Supremo

Ao congelar CPI do MEC, Senado sugere a eleitores que ignorem corrupção

Postado em 10 de Julho de 2022 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

Foto: Alan Santos/PR Foto: Alan Santos/PR

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Num instante em que o Senado organiza o funeral da CPI do MEC, Bolsonaro e o pastor Milton Ribeiro fazem uma inusitada tabelinha no Supremo Tribunal Federal. O presidente recorreu contra a pretensão do ministro Alexandre de Moraes de incluir no processo sobre a suspeita de interferência política na Polícia Federal o grampo no qual o ex-ministro da Educação conta à sua filha que o presidente lhe telefonou dos Estados Unidos para alertar sobre um "pressentimento" de que haveria uma batida policial de busca e apreensão no seu apartamento. Bolsonaro alega que o caso já consta de inquérito relatado pela ministra Cármen Lúcia.

Noutro recurso, Milton Ribeiro pede a Cármen Lúcia a anulação do processo mencionado por Bolsonaro no recurso subscrito pela Advocacia-Geral da União. O ex-ministro alega que a gravação divulgada pela Folha —aquela na qual admite ter franqueado o acesso de pastores traficantes de verbas ao MEC graças a um "pedido especial" de Bolsonaro— foi obtida clandestinamente de uma fonte anônima. Nessa versão, o áudio seria uma prova ilegal. E o inquérito sobre o balcão do MEC teria de ser anulado.

Ironicamente, nem o presidente nem o ex-ministro não parecem muito interessados em se defender da suspeita de corrupção. O interesse de ambos é o de matar os inquéritos.

Os dois supõem que contarão com a solidariedade de Augusto Aras, o procurador-geral que se recusa a procurar. Aras já foi instado a se manifestar nos processos.

Ao congelar CPI do MEC, Senado sugere a eleitores que ignorem corrupção

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e lideranças da casa produziram um Grande Dia para Jair Bolsonaro ao empurrar a CPI do MEC para um fictício "depois das eleições". Do tipo, fiado só amanhã. Ao mesmo tempo, enviaram um recado aos eleitores: desconsiderem a corrupção na decisão do seu voto.

Pacheco afirmou que a investigação vai acontecer "permitindo-se a participação de todos os senadores e evitando-se a contaminação das investigações pelo processo eleitoral". Esse discurso inverte os fatos, pois é o silêncio da câmara alta do parlamento que está contaminando o processo eleitoral neste momento, negando informação relevante aos cidadãos.

Os eleitores têm o direito a saber a razão de o Ministério da Educação ter, ao que tudo indica, se transformado numa plataforma de financiamento de amigos e aliados do presidente num momento em que todos os recursos e energias deveriam estar sendo gastas para tentar compensar o imenso atraso educacional deixado pela pandemia de covid-19 em crianças e adolescentes.

Temos dois pastores, um deles amigo do presidente da República, que cobravam propina em dinheiro, ouro e bíblias para garantir acesso privilegiado de prefeitos ao Ministério da Educação e aos fundos bilionários em um verdadeiro gabinete paralelo. Ambos visitavam regularmente o Palácio do Planalto e não era para ver a leveza da obra de Oscar Niemayer.

Temos um presidente da República que, após a queda do ministro da Educação, pode ter interferido na investigação da Polícia Federal sobre o caso, alertando o seu ex-assessor de que haveria operação de busca e apreensão contra ele. Detalhe que o próprio ministro reconheceu em áudio que o presidente pediu para atender a vontade dos pastores.

Temos uma base aliada do governo no Congresso Nacional que também usou o fundo bilionário do ministério para atender a seus interesses políticos e econômicos, gerando denúncias pela imprensa de sobrepreço na compra de kits de robótica (ironicamente em cidades com escolas sem água ou luz) e de ônibus rurais.

E também temos um Senado que, com a manobra, agiu como puxadinho do Palácio do Planalto.

A cúpula do Senado prometeu instalar outras CPIs que estavam na fila como sinal de equilíbrio. Bobagem. Governistas propuseram outra, para apurar obras inacabadas de creches, escolas e universidades durante o governo petista, apenas para tentar inviabilizar a CPI do MEC.

Mas se há irregularidades, que se apure tudo - o que, sinceramente, não interessa aos governistas.

O que foi feito com dinheiro que deveria ter sido gasto em educação? Foi parar em alguma igreja? No bolso de empresários amigos de parlamentares? Acabou desviado para financiar caixa 2 na campanha deste ano? Virou leite condensado e pão francês? Sem informação, a tomada de decisão do voto fica prejudicada.

O Senado tem dois terços de seus membros que não vão buscar a reeleição este ano, ou seja, mesmo que atuem na campanha de outras pessoas, há pessoal suficiente para tocar uma comissão como essa. Se não, é melhor que tirem licença não remunerada.

Mais do que ajudar o presidente da República postergando revelações que lhe são incômodas, a impressão é que o congelamento da CPI do MEC também quer esconder o que parlamentares fizeram com o dinheiro da educação. O atraso na instalação da comissão acaba soando como decisão em causa própria.


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