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Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

“Tudo é notícia, menos a mentira”

O conceito de notícia na visão de um repórter-cronista.

Postado em 13 de Fevereiro de 2014 - Ana Carolina Monteiro

Montezuma Cruz, repórter-cronista, com mais de 40 anos de experiência. Montezuma Cruz, repórter-cronista, com mais de 40 anos de experiência.

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Hoje quero falar sobre a notícia, mas a partir de algumas visões muito particulares. Uma delas é a de Montezuma Cruz, repórter-cronista, com mais de 40 anos de experiência, cujas reportagens tenho analisado para minha dissertação de Mestrado.

Montezuma e seus textos caracterizam bem o que conheço como jornalismo literário, com o trabalho dele consigo materializar o que tenho estudado. Criei até uma fórmula que reúne os conceitos considerados fundamentais no jornalismo literário: H3E (leiam esta fórmula a partir de um modelo aritmético e não químico), que significa: humanização, ética, estética e engajamento. Tais elementos precisam estar associados para que o trabalho jornalístico seja considerado literário.

Mas por que Montezuma Cruz? Porque ele se apresenta como um jornalista autor e também observador e até mesmo um participante da ação. Além do visto, o não visto – pensamentos, sentimentos, emoções – é descrito a partir de um trabalho de campo efetivo, de uma apuração vigorosa, de uma entrevista pautada pela atenção e pela acuidade.

Ele considera que os sentidos do repórter se encontrem permanentemente alertas na leitura dos acontecimentos – seja uma cor esmaecida, um sopro quente, um aceno interrompido, uma textura áspera, um aroma inesperado, um suspiro que se liberta, um ranger intermitente. Ele está atento a tudo que envolva o fato jornalístico, e não sofre com as amarras do lead e da impessoalidade. Tem um estilo próprio e não um estilo comum. Afinal, nenhuma comunicação é eficaz sem emoções. Do teatro, à pintura, passando pelo jornalismo, nada se faz sem emoções. Embora nem sempre passem pela palavra.

Na prática noticiosa moderna as notícias são a matéria-prima do jornalismo, pois somente depois de conhecidas ou divulgadas é que os assuntos aos quais se referem podem ser comentados, interpretados e pesquisados, servem também de motivo para gráficos e charges. A teoria da informação, lembra Albert Kientz, ensina que a inteligibilidade de uma notícia exige certa redundância e que os jornais selecionam as informações segundo o grau de implicação de cada uma delas, retendo as que pouco se distanciam psicologicamente dos indivíduos.

A notícia é uma forma de ver, perceber e conceber a realidade. É um autêntico sintoma social e a análise de sua produção lança muitas pistas sobre o mundo que nos cerca. Só isso? Não. Claro que não.

Além do visto, o não visto é descrito a partir de um trabalho de campo efetivo, de uma apuração vigorosa, de uma entrevista pautada pela atenção e pela acuidade.

Ao adentrarmos uma redação e perguntarmos ao repórter: o que é notícia para você? Após a expressão de dúvida, na grande maioria das vezes, ouve-se como resposta: “Notícia é tudo aquilo que é mais importante hoje do que ontem e menos importante do que amanhã”. 

Visão que Nelson Traquina classifica, como, simultaneamente simplista e minimalista. Simplista porque, segundo a ideologia jornalística, o jornalista relata, capta, reproduz ou retransmite o acontecimento. Segundo a metáfora dominante no campo jornalístico, o jornalista é um espelho que reflete a sociedade. O jornalista é simplesmente um mediador. E minimalista porque, segundo a ideologia dominante, o papel do jornalista como mediador é um papel reduzido. Aliás, é significativo que, habitualmente, os jornalistas sejam relutantes em reconhecer ou assumir a importância e a influência do seu trabalho.

Para Montezuma, “tudo é notícia, menos a mentira.” Como assim? – pergunto, e ele responde:

“Depende dos olhos do repórter, mas todo fato que o repórter consegue perceber com significância social e que seja descrito, respeitada sua veracidade, pode ser notícia. Por exemplo, eu, o repórter, saio com a pauta na mão em mais um dia de trabalho em Campo Grande, aproximo-me da divisa entre o Jardim Montevidéu e o enorme descampado, onde será construído o Condomínio Residencial Alphaville 3. Logo, observo que a proximidade com o shopping recentemente inaugurado na região implicará a construção de mansões. Ao olhar ao lado, noto casas simples de conjunto popular, habitadas por pessoas simples, brevemente vizinhas dos donos de casas padrão luxo. Percebi que a notícia está não apenas nas edificações que ali surgirão, porém, nas pessoas que ali conviverão com aquela nova realidade. Eu vi a mãe de dois meninos, João e Gabriel, D. Marilda, manuseando um prato de arroz puro.  Senti as condições de sustento da casa e logo percebi a razão disso: pais e avós são catadores de reciclados e as crianças nem a escola frequentam. Eis a notícia diante de mim”.

Montezuma Cruz consegue definir que seu interesse pelo local e pelas pessoas do local é que o movem a investigar fatos. É interessante ver que ele não tem nenhuma influência da academia. "Minha vontade de conhecer diferentes regiões e situações me moveu. A pobreza da cidade onde vivi, Teodoro Sampaio (SP), me indignou, causou estranheza e me fez começar a recortar pequenas notas e muitas vezes pregar páginas inteiras, na tábua de um jornal mural, que fiz, em frente ao Escritório de Contabilidade Exatidão, de meu pai. Sou um repórter do interior e sempre busquei a notícia com altivez, misturada com curiosidade, emoção, certificação e um pouco de morbidez".

Pelos relatos que faz, sua visão sobre notícia passa sempre por uma análise sociológica da situação, assim ele falou. "Utilizo a ótica da sociologia das multidões, que em meu imaginário, me ajuda a compreender o comportamento do povo, o seu modo de vida, o abandono em vários sentidos, porque as pessoas são o mais importante, mas nem sempre foi assim. Comecei seguindo o lead americano, preocupado em responder às seis perguntas clássicas: o quê, quem, quando, como, onde e por quê. Com o tempo fui tendo contato com outras formas de fazer jornalismo, como no Jornal da Tarde, notável pelos títulos criativos, e preocupado com a estética do texto jornalístico, com as minúcias, não apenas com o fato em si".

Acessem AQUI  e leiam a entrevista que o site newsrondonia fez com Montezuma Cruz em janeiro deste ano. Imperdível.

Abraço e até a próxima semana.


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