Semana On

Segunda-Feira 08.ago.2022

Ano X - Nº 499

Poder

Ex da Caixa encontrou no governo terreno fértil para o sadismo corporativo

Assédio sexual avança na administração do presidente misógino

Postado em 01 de Julho de 2022 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Reprodução Reprodução

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Pedro Guimarães trouxe o que há de pior na iniciativa privada para a Caixa. Para além dos relatos de que apalpava nádegas e seios de trabalhadoras, denúncias agora mostram que ele adotava a humilhação como instrumento de treinamento, colocando até pimenta na comida de funcionários para "incentivá-los".

Mais do que isso, agia como uma divindade onisciente. "Caguei para a opinião de vocês porque eu que mando. Não estou perguntando", afirmou Guimarães à sua equipe, segundo o portal Metrópoles. O que mostra que não era apenas assediador sexual e moral, mas um gestor que não ouve. Um péssimo gestor.

Infelizmente, a tortura por resultados é prática sistematicamente aplicada por empresários, executivos, gerentes e superintendentes no Brasil, muitos dos quais batem palmas de pé quando Bolsonaro diz que trabalhadores têm direitos demais no Brasil.

Pedro Guimarães encontrou um terreno fértil para o seu sadismo corporativo e sua agressividade sexual no governo Bolsonaro. Afinal, ele tinha como referência uma pessoa que não se enxerga como servidor público, obrigado a seguir leis e normas, nem mesmo como dono de um negócio, que também está sujeito a regras, mas como uma déspota.

Coincidentemente, a demissão de Pedro Guimarães aconteceu na mesma quarta em que o Tribunal de Justiça de São Paulo aplicou uma goleada, de 4 votos a 1, a favor de confirmar a condenação de Bolsonaro por atacar a jornalista Patrícia Campos Mello. Ele insinuou, de maneira vil, que ela - uma das mais importantes repórteres deste país - teria trocado sexo por informações contra ele.

Bolsonaro agride jornalistas homens e mulheres, mas os golpes mais violentos e criminosos ele guarda para elas. Da mesma forma que Pedro Guimarães maltratava, sim, funcionários homens e mulheres, mas elas ainda tinham que aguentar os seus ataques sexuais. Como Bolsonaro não ia amar um assessor que tentava nele se espelhar?

Nesse sentido, a recusa de Jair Bolsonaro em demonstrar solidariedade às trabalhadoras que relataram pressão por sexo, apalpadas de nádegas e de seios e propostas de suruba pelo, agora, ex-presidente da Caixa, é apoio explícito ao comportamento de Pedro Guimarães. E, indiretamente, a si mesmo.

Como presidente da República e chefe do assediador, Bolsonaro deveria ter se manifestado publicamente. Falou mais alto o compadrio com aquele que era considerado sua "sombra", carregando-o rotineiramente em lives, viagens e eventos não apenas para falar de auxílio emergencial e Auxílio Brasil, mas para defender porte de armas e chorar de emoção com as cascatas de Jair.

O governo não queria ter demitido um dos seus principais nomes, mas a situação ficou insustentável após reportagem de Rodrigo Rangel, do Metrópoles, mostrar que Guimarães seguia rigorosamente a cartilha bolsonarista de misoginia.

A cúpula do governo sabia que ele via funcionárias como objetos sexuais, mas não fez nada. Ele só caiu para não atrapalhar a reeleição de Jair.

Logo após a demissão do ex-chefão da Caixa, se não estivéssemos em ano eleitoral, Bolsonaro teria feito de tudo para mantê-lo. Nas redes sociais, o fato de ele ter se tornado alvo de investigação por assédio sexual no Ministério Público Federal foi tratado quase como um troféu para uma parte do bolsonarismo.

Rasgar a lei e a ética é item de currículo bastante apreciado pelo presidente.

Mas há uma parcela das mulheres que reprova Bolsonaro por seu comportamento historicamente misógino e violento. Outra por sua necropolítica, agindo para liberar armas e sabotar o combate à covid-19. E há aquelas que sofrem duramente com a inflação e a queda de renda porque são as responsáveis pelo bem-estar de suas famílias.

Somando tudo isso, Jair tem 21% de intenções de voto, enquanto Lula ostenta 49% entre as mulheres. E é por isso, e só por isso, que Pedro não ganhou um brinde com cerveja numa roda entre amigos diante dos relatos, mas foi defenestrado. Se Jair ganhar, ele volta. Ah, se volta.

Bolsonaro exibia acusado de assediar funcionárias como um assessor exemplar

Jair Bolsonaro fazia questão de apresentar o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, como exemplo de servidor público a ser seguido. Após gravíssimas denúncias de assédio sexual por funcionárias do banco (incluindo pressão para sexo, apalpadas em bundas e seios e propostas de suruba), precisamos torcer para que ninguém siga o exemplo do presidente da República.

Uma rápida pesquisada no Google com o nome dos dois fornece centenas de imagens em que ambos aparecem sorridentes, em efusivos abraços, trocando confidências - que nem imaginamos sobre o quê.

Mas para além de uma relação de amizade e admiração, Guimarães preside a Caixa que foi a operadora do auxílio emergencial - benefício que garantiu a Bolsonaro a sua maior aprovação como chefe do Poder Executivo, em 2020, durante o pagamento das seis parcelas de R$ 600.

(O grande responsável por isso foi, na verdade, o Congresso Nacional, pois o ministro da Economia, Paulo Guedes, queria pagar apenas 200 mangos, mas não é isso que vai aparecer nas peças de campanha eleitoral, claro.)

Ao mesmo tempo, a Caixa é a operadora do Auxílio Brasil, o Bolsa Família rebatizado. Aliados do presidente tentam aprovar um aumento no benefício de R$ 400 para R$ 600 mensais, mas só até o final do ano. Até porque, como sabemos, a fome dos brasileiros magicamente vai se dissolver com os rojões do Réveillon.

Com a entrega de notícias positivas para o governo, Pedro Guimarães chegou a ser cotado, entre o final do ano passado e o início deste, para vice na chapa de Bolsonaro à reeleição. O próprio presidente não descartou a possibilidade, como na entrevista que concedeu em janeiro à Jovem Pan. Com isso, Guimarães se movimentou bastante para demonstrar alinhamento ideológico com o presidente. A vaga deve acabar ficando com o general Braga Netto.

O presidente da Caixa era um dos maiores frequentadores das lives presidenciais, às quintas-feiras, muito mais até do que o próprio Paulo Guedes. Em uma delas, afirmou ter 14 armas, defendendo o porte. Viajava tanto com Bolsonaro pelo país que acabou sendo chamado de "pingente" e "sombra".

Agora, a "sombra" precisa desaparecer, pois é acusada de usar seu cargo para fazer pressão por sexo, apalpadas em bundas e seios e propostas de suruba, conforme mostrou reportagem de Rodrigo Rangel, do portal Metrópoles. O que produziu uma investigação do Ministério Público Federal.

Considerando que, entre as mulheres, o ex-presidente Lula tem 49% das intenções de voto e Jair Bolsonaro, 21%, segundo o Datafolha, os crimes dos quais a sombra é acusada não ajudam em nada. Já entre os homens, Bolsonaro aponta 36%, Lula, 44%. No total, Lula venceria no primeiro turno, alcançando 47% e todos os demais, 41% - dos quais Bolsonaro contaria com 28%.

Bolsonaro precisa produzir boas notícias entre as mulheres, mas não consegue

Apoiadores do presidente têm defendido que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, ajude a melhorar a imagem do marido, principalmente entre os evangélicos. A questão é que, para tanto, ela teria que operar um milagre, considerando que o presidente e seus aliados continuam dando provas de seu machismo.

Há uma parcela das mulheres que reprova Bolsonaro por seu comportamento historicamente misógino e violento, o que não mudou quando assumiu o governo, pelo contrário. Houve agressões sexistas contra jornalistas, como aquelas contra a repórter Patrícia Campos Mello, que serviram de comando para um linchamento por parte de seu rebanho. Aliás, o Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou hoje a condenação contra Bolsonaro pelos ataques contra ela.

Além disso, a política de liberação de armas de Jair tem efeito negativo junto ao público feminino, apesar de conseguir bons resultados junto a homens inseguros. E seu negacionismo na pandemia de covid-19, que ajudou o país a atingir 670 mil mortes, também é repudiado mais por mulheres do que homens.

Por fim, os impactos da crise econômica se fazem sentir mais entre as mulheres (principalmente as negras) do que entre os homens, de acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE. Não apenas porque elas foram atingidas em cheio pelo desemprego e pela queda de renda, mas também porque muitas delas são as responsáveis pelo bem-estar de suas famílias.

Em 4 de fevereiro, Bolsonaro soltou uma ironia para os seus fãs na porta do Palácio do Alvorada, afirmando que "segundo pesquisa, as mulheres não votam em mim" - reforçando a desconfiança que sempre jogou sobre levantamentos de opinião que lhe são desfavoráveis. Mulheres votam sim em Bolsonaro, mas elas, segundo o Datafolha, são menos da metade das que escolhem Lula. E isso não será resolvido tão facilmente porque o problema não é apenas o que o presidente e seus aliados deixam de fazer, mas o que eles, infelizmente, fazem.

Assédio sexual avança na administração do presidente misógino

Em órgãos do governo federal desde a posse do misógino presidente da República Jair Messias Bolsonaro, as denúncias de assédio sexual cresceram 65,1% no ano passado. Foram 251, segundo a Controladoria-Geral da União.

Somente no primeiro semestre deste ano houve em média uma denúncia por dia, o dobro do ano de 2021. Denúncias de assédio em empresas como a Caixa e a Petrobras não foram computadas.

Nos últimos 3 anos, as denúncias saltaram de 155 em 2019 para 251 em 2021. Bolsonaro nunca se pronunciou a respeito – nem sobre as recentes denúncias contra o ex-presidente da Caixa.


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