Semana On

Quinta-Feira 11.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

O bolsonarismo, cuspido e escarrado

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 01 de Julho de 2022 - Victor Barone

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O governo mais honesto da história do Brasil mendigava por um fato capaz de desviar a atenção coletiva da roubalheira que culminou com a prisão do ex-ministro da Educação e dos dois pastores evangélicos dados à rapinagem com dinheiro público. De repente, o fato aconteceu: o presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, foi denunciado por assediar sexualmente funcionárias. Passou a mão na bunda de umas. Convidou outras para tomar sauna. A uma, disse: “Vou te rasgar. Vai sangrar”.

Não era bem isso que o governo precisava. A discussão que estimulava sobre o aborto servia melhor ao seu objetivo. Aborto de mulher estuprada ou cuja vida corra risco é permitido por lei. O governo começou a dizer que qualquer tipo de aborto é crime. Uma norma técnica do Ministério da Saúde, sem força de lei, criou uma série de empecilhos para a mulher que queira abortar. Um simpósio montado às pressas pelo ministério pôs em cena 13 autoridades contrárias ao aborto e apenas sete favoráveis.

A máquina bolsonarista de produzir fake news começou a funcionar a pleno vapor, acusando a menina de 10 anos de Santa Catarina que engravidou de ter tido uma relação consensual com um primo, e a atriz de 21 anos de rejeitar o filho de um estupro.

Agora, o governo será obrigado a explicar porque mantinha em posto-chave um abusador de mulheres. Guimarães era o único comandante de uma grande estatal que se sustentava no cargo desde que Bolsonaro tomou posse. Contava com a admiração dele.

No terreiro onde Guimarães cantava de galo, as mulheres eram desaconselhadas por seus chefes a se vestir de vermelho, a pintar as unhas de vermelho e a usar óculos com armações vermelhas. Os homens não podiam usar gravata vermelha.

A demissão de Guimarães está longe de significar que o clima nas agências da Caixa mudará tão cedo. Você quer ir para a Caixa? Vá. Mas, de preferência, sem nada de vermelho à vista. Em Brasília, à época do governador Joaquim Roriz, Papai Noel vestia azul.

Por Ricardo Noblat

PEDRO MALUCO NA GARAGEM

Foi a Teresina, capital do Piauí, em 2019, uma das primeiras viagens a serviço do impetuoso Pedro Guimarães, agora ex-presidente da Caixa Econômica Federal, conhecido como Pedro Maluco desde que trabalhara antes no BTG Pactual e no Banco Santander. E para seus deslocamentos na cidade, ele exigiu que fosse alugado um carro preto e blindado. Havia carro preto nas locadoras de Teresina, mas blindado, não. O jeito foi alugar um em Fortaleza, que chegou à cidade dirigido por um evangélico de raiz. Acompanhado de uma funcionária da Caixa, não se sabe se levada de Brasília ou se escolhida por ele em Teresina, Guimarães começou a dar conta de sua pesada agenda de compromissos. E foi entre um e outro que Pedro Maluco deu lugar a Pedro Garagem.

Ele mandou que o motorista o levasse, e à moça, ao Shopping Rio Poty, às margens do rio com o mesmo nome que corta a cidade. Situado na Avenida Marechal Castelo Branco, o shopping foi construído onde nos anos 60 funcionava um hospício famoso. Guimarães mandou que o motorista parasse o carro no estacionamento. E sob a desculpa de que precisava ter uma conversa reservada com a moça, orientou-o a sair do carro para só voltar quando ele avisasse. E assim se fez.

Acontece que mesmo a certa distância, o motorista viu, dali a instantes, que o carro começou a balançar, balançar, balançar. Decidiu ir ver o que se passava. E o que viu, deixou-o indignado. Sacou do celular e informou a respeito ao seu chefe em Fortaleza. Disse que dali por diante, recusava-se a transportar o casal. Foi convencido a não abandonar o serviço sob ameaça de demissão, mas nunca mais esqueceu a história. No mesmo dia, ela chegou aos ouvidos da nata da sociedade de Teresina e é lembrada até hoje.

Por Ricardo Noblat

CRIME, É CLARO

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acertou em cheio ao comentar a gravação em que o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, conta que recebeu um telefonema de Bolsonaro dizendo que ele poderia ser alvo de uma operação de busca e apreensão: “Tá cheirando a sacanagem, além de crime, claro”. Naturalmente, Flávio não se referia ao que fez seu pai ao vazar uma operação sigilosa da Polícia Federal, dando tempo assim para que Ribeiro destruísse provas e evidências que poderiam incriminá-lo em casos de corrupção no Ministério da Educação. Flávio referiu-se à divulgação da conversa por telefone entre Ribeiro e sua filha, onde o ex-ministro diz que Bolsonaro o avisou sobre o que a Polícia Federal planejava fazer. A divulgação foi que cheirou a sacanagem na opinião de Flávio, além de crime.

Por Ricardo Noblat

PEC DO DESESPERO

A guerra na Ucrânia aumentou o preço do petróleo no mercado internacional, e aqui a Petrobras foi obrigada a reajustar o preço dos combustíveis – gasolina, diesel e gás de cozinha. O que fez Bolsonaro, ameaçado de não se reeleger, mas não só por isso? Decretou o estado de emergência no Brasil, na verdade um estado de emergência eleitoral para escapar à derrota.

Isso é possível? O deputado Ulysses Guimarães, que presidiu o MDB, a Câmara e a Constituinte de 1988, ensinou que se você tem maioria no Congresso pode fazer o que bem quiser. A única coisa que não podia fazer, segundo ele, era transformar homem em mulher ou mulher em homem. Ulysses morreu sem tempo de ver que, hoje, se você tem maioria, até isso seria possível.

O artigo 16 da Constituição diz que a lei que “alterar o processo eleitoral” não se aplica à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência, a chamada regra da anualidade. Aplicado ao presente caso, significa: a Proposta de Emenda à Constituição que o Senado aprovou, e que a Câmara aprovará na próxima semana, só poderia valer para as eleições de 2024. Acontece que Bolsonaro é candidato às eleições deste ano, e a se confirmarem as pesquisas de intenção de voto, está muito atrás de Lula e seriamente ameaçado de ir para casa. Então, ele mandou para o lixo a lei que rege o processo eleitoral. Com isso, poderá gastar 41 bilhões de reais a mais com a distribuição de benefícios aos que já o apoiam ou que venham a apoiá-lo. Arrombou pela segunda vez o teto de gastos.

A Proposta de Emenda à Constituição é de tal maneira uma proposta de cunho eleitoral que seus efeitos cessarão em 31 de dezembro próximo. Depois disso, será um salve-se quem puder. O futuro governo, dele ou de qualquer outro presidente, que se vire para administrar a herança maldita legada por Bolsonaro.

A oposição, naturalmente, votou contra a Proposta, não foi? Não, ela votou a favor. Denunciou seu caráter eleitoreiro, mas não quis se indispor com os eleitores que receberão esse agrado passageiro. No Senado, foram 71 votos a favor e só um contra.

Se provocado por partidos ou pela Procuradoria-Geral Eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral poderá analisar a Proposta sob a ótica da vedação de condutas em ano de eleições.

Criar artificialmente um estado de emergência abrirá espaço para que haja abuso no uso da máquina pública, dando a Bolsonaro uma escandalosa vantagem em relação aos demais candidatos. A lei garante condições iguais para os que disputam uma eleição. É o que está escrito no papel, mas não é a realidade. Desesperado, Bolsonaro meteu o pé na porta e ela está sendo escancarada. Nunca antes na história do Brasil democrático se viu tentativa mais vergonhosa de compra de uma eleição.

Por Ricardo Noblat

O FEMININO

Um episódio ocorrido na praia de Balneário Camboriú (SC), no último dia 25, ajuda a explicar a razão de Jair Bolsonaro ter apenas 21% de intenção de votos entre as mulheres, segundo o Datafolha. Ele saudava apoiadores ao lado do empresário bolsonarista Luciano Hang, produzindo imagens para a sua campanha, quando virou para onde estavam aliados, como a vice-governadora de Santa Catarina, Daniela Reinehr, e, irritado, ordenou: "Vai pra trás! Meu Deus do céu!" Com isso, ela saiu de perto do grupo. Reinehr é apoiadora do presidente e do mesmo partido que ele, o PL. Após a polêmica, ela fez coro com outros apoiadores do presidente de que a reclamação se dirigia ao ex-secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif, e não a ela. A forma ríspida com que ele deu o recado junto com o conteúdo excludente fez com que a hashtag "Bolsonaro odeia mulheres" se tornasse um dos assuntos mais comentados do Twitter.

Entre as mulheres, o ex-presidente Lula tem 49% das intenções de voto e o ex-governador Ciro Gomes (PDT), 9%. Entre os homens, Bolsonaro aponta 36%, Lula, 44% e Ciro, 8%. No total, Lula venceria no primeiro turno, alcançando 47% e todos os demais, 41% - dos quais Bolsonaro contaria com 28%.

Por Leonardo Sakamoto

FANTASMAS DE SERGIO MORO

Agricultores familiares eram inocentes, mas foram presos por ordem do então juiz em 2013. Agora, eles contam suas histórias.

ELBA, DOIDONA

A cantora Elba Ramalho tentou interromper um grito do público contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) durante apresentação de São João em Salvador (BA) no último dia 26 e acabou recebendo um grito em favor do ex-presidente Lula (PT) em resposta. 

CRIMINOSO DE ESTIMAÇÃO

Configura infração gravíssima no Código de Trânsito Brasileiro pilotar moto sem usar capacete. Foi o que fez Genivaldo de Jesus Santos, e acabou morto por agentes da Polícia Rodoviária Federal em Sergipe. É o que faz quase uma vez por semana o presidente da República, e sequer é multado. Das vezes que foi, não pagou a multa. No último dia 24, completou um mês da morte de Genivaldo, asfixiado com gás de pimenta dentro de uma viatura policial. Seus assassinos continuam soltos. O inquérito corre sob segredo de justiça. A família de Genivaldo não é informada de nada. Por suposto, não se cobra à Polícia Rodoviária Federal que aplique a Bolsonaro o tratamento conferido a Genivaldo. Mas pelo menos que cumpra a lei e o impeça de pilotar motos sem capacete. Ou a lei é para todos ou não é para ninguém.

Por Ricardo Noblat

VITÓRIA

Foi mantida pela 8ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), por quatro votos a um, a condenação do presidente Jair Bolsonaro (PL) por ofender a jornalista Patrícia Campos Mello, repórter da Folha. Além de manter a condenação, a Câmara ainda elevou a indenização a ser paga por ele para R$ 35 mil. "Olha a jornalista da Folha de S.Paulo. Tem mais um vídeo dela aí. Não vou falar aqui porque tem senhoras aqui do lado. Ela falando: 'Eu sou (...) do PT', certo? O depoimento do Hans River foi final de 2018 para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cima dele", disse Bolsonaro. "Ela [repórter] queria um furo." Na sequência, Bolsonaro muda de tom e arregala os olhos e diz: "Ela queria dar o furo [risos dele e dos demais]". Após uma pausa durante os risos, Bolsonaro concluiu: "A qualquer preço contra mim". A palavra "furo" é um jargão jornalístico para se referir a uma informação exclusiva.

FRASES DA SEMANA

“Caguei para a opinião de vocês, porque eu que mando. Não estou perguntando. Isso aqui não é uma democracia, é a minha decisão”. (Pedro Guimarães, o assediador de mulheres forçado a pedir demissão da presidência da Caixa Econômica Federal)

“Não temos nenhuma corrupção endêmica no governo. Tem casos isolados que pipocam e a gente busca solução para isso.” (Bolsonaro, ontem. Bolsonaro, em março último: “Três anos e três meses sem qualquer denúncia de corrupção em nossos ministérios.”

“Se eu tivesse prevaricado, se tivesse feito o que ele (Bolsonaro) queria, eu estaria lá (na presidência da Petrobras) até hoje. Se eu tivesse feito o que o presidente queria, aí sim, quem estaria cometendo crime seria eu”. (Roberto Castelo Branco, ex-presidente da Petrobras)

“Só estou vendo o presidente dos Estados Unidos seguindo a trilha do nosso presidente, pedindo a redução dos impostos federais e pedindo aos estados que também reduzam seus impostos. Então, estamos à frente deles”. (Paulo Guedes, ministro da Economia)

“Já ouvi de seu presidente psicopata que nos vagões dos trens da Vale, dentro da carga de minério de ferro vendido para os chineses, ia um monte de ouro”. (Roberto Castelo Branco, ex-presidente da Petrobras, em conversa com Rubem Novaes, ex-presidente do Banco do Brasil)

“Sinto isso na pele: como apoio @jairbolsonaro sou tratado assim a todo momento. Pouco importa que terminei meu doutorado aos 28 anos, que fui professor nos Estados Unidos, que escrevi livros. Tudo some sob o rótulo: bolsonarista”. (Adolfo Sachsida, ministro das Minas e Energia)

“Hoje o presidente me ligou. Ele tá com pressentimento de que podem querer atingi-lo através de mim. […] Ele acha que vão fazer uma busca e apreensão em casa. Bom, isso pode acontecer né, se houver indícios”. (Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação, investigado por corrupção)

“Apesar de um mês de propaganda na TV e de uma enxurrada de fake news do bolsonarismo na internet, a nova pesquisa [Datafolha] mostra, mais uma vez, que o povo brasileiro quer se ver livre desse governo trágico”. (Lula)


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