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Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Comportamento

Será que sou viciado em pornografia? Especialista responde

Descubra quando o uso recreativo da pornografia passa a ser compulsivo e um problema para a vida pessoal

Postado em 22 de Junho de 2022 - Catraca LIvre

Reprodução Reprodução

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Poucos duvidam que a pornografia acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Dos afrescos romanos à banca de jornal da esquina e os programas de fim de noite, a impressão é que a nudez, o sexo e os seus decorrentes fetiches sempre estiveram conosco.

Nas últimas décadas, no entanto, algo mudou -ou melhor, se potencializou. Graças à internet e à evolução dos dispositivos móveis e da qualidade das conexões, o acesso a conteúdos pornográficos ficou muito mais fácil, rápido e diversificado.

Com a pandemia e o isolamento social, segundo dados anônimos coletados pela plataforma Netskope Security Cloud, o acesso a sites pornográficos cresceu 600% no primeiro semestre de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior.

Assim, como qualquer outra fonte de prazer, a pornografia pode viciar um ser humano.

Em entrevista à Catraca Livre, Marco Scanavino, professor e coordenador do Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do (IPq – Instituto de Psiquiatria do HC), contou quais são as características desse comportamento compulsivo e suas consequências.

 

O que caracteriza o vício em pornografia?

O vício em pornografia se caracteriza por um comportamento repetitivo que se manifesta. A pessoa começa a não ter controle, o que faz com que se caracterize uma compulsão, um comportamento sexual compulsivo. Isso acontece em torno de, pelo menos, seis meses de manifestação, com características mais típicas, como desvio no eixo de autocuidado -quando saúde, integridade física, compromissos financeiros e relacionamentos familiares e sociais começam a ficar em segundo plano, em detrimento da priorização da busca e do consumo de pornografia. Muitas vezes esse comportamento começa a ficar descontrolado, mesmo a pessoa percebendo que tem prejuízo, que não consegue parar e que nem consegue ficar muito satisfeita a cada vez que ela se engaja nesse comportamento. Essa percepção de estar perdendo o controle, tentar e não conseguir parar. Esse é o quadro.

Quando o uso recreativo da pornografia passa a ser compulsivo? Existe um “sinal de alerta”?

Esse sinal de alerta é uma forma insidiosa do uso, de perceber que está perdendo o controle. Por exemplo, ela se propõe a ver filme pornô por uma hora, passa a madrugada toda e no outro dia não consegue ver associação. Porém é muito difícil falar em sinais de alerta. Se for no sentido de orientar as pessoas, eu diria que todas essas situações, como as citadas acima, claramente se caracterizam por uma perda de controle sobre o comportamento. Quando você acaba fazendo algo fora da tua prévia intenção, da tua intenção inicial, é uma perda de controle.

O comportamento compulsivo em relação à pornografia está ligado ao vício em sexo?

Sim. Atualmente, há o diagnóstico na classificação internacional das doenças. A última versão da CID-11 chama o quadro como Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo. Então, no caso, o comportamento sexual compulsivo por pornografia é um comportamento sexual compulsivo. Ele até tem sido mais estudado e servido como modelo para compulsões sexuais.

A maneira pela qual os adolescentes têm entrado em contato com o sexo (via internet) exerce alguma alteração do desejo sexual (não digital)?

Poderá produzir dificuldades na vida sexual real. Quando vai se engajar num relacionamento sexual com uma parceira, ele poderá ter dificuldade para alcançar a ereção na fase de excitação sexual e para chegar até o final da atividade sexual. Falando em relação ao gênero masculino, mas isso é extensivo ao gênero feminino. É que o gênero masculino é prevalente nos casos de compulsão sexual.

Qual o papel de “grupos de ajuda”, como o Dasa, como rede de apoio?

Esses grupos são formados por pessoas que se reúnem e que têm um problema em comum. Esses grupos podem ser entendidos como adjuvantes a um tratamento. Tem pessoas que se beneficiam, sim, mas há quem prefere não ter esse contato. De uma forma abrangente esses grupos não são desaconselhados, não, mas a pessoa tem que sentir à vontade para frequentar.

Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa) é uma irmandade que se baseia no programa de recuperação de 12 Passos, o mesmo usado pelos Alcoólicos Anônimos (AA). Dasa é um grupo de ajuda mútua, uma rede de apoio aberta a todas as pessoas maiores de 18 anos, de qualquer orientação sexual, que tenham um padrão de comportamento compulsivo obsessivo, seja sexual, emocional ou ambos.


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