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Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Brasil

Até quem produz comida passa fome

22% dos pequenos agricultores amargam a insegurança grave

Postado em 17 de Junho de 2022 - Marcos Hermanson Pomar - O Joio e o Trigo

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A fome atinge 22% dos agricultores familiares e produtores rurais e 18% dos moradores do campo, segundo dados do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, publicado nesta quarta (08). 

São os piores indicadores desde pelo menos 2004, quando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, mediu em 13% a insegurança alimentar grave entre moradores do campo. Os números são maiores do que a média nacional de 15% da população, ou 33 milhões de pessoas, que passam fome no país em 2022.

O índice de insegurança alimentar entre produtores rurais é desproporcionalmente maior no Norte e no Nordeste, mas também houve crescimento da fome entre o segmento nas demais regiões.  

“A alta no preço dos alimentos, que chegou rapidamente aos consumidores brasileiros, não foi refletida na mesma proporção em termos de valoração da produção de alimentos entre os produtores, [resultando] em maiores proporções de insegurança alimentar nessas famílias”, registra a pesquisa.  

De todas as categorias de trabalho pesquisadas pelo inquérito, o percentual de agricultores familiares e produtores rurais em insegurança alimentar grave (22%) só não é mais alto que o dos desempregados (36%). 

Pessoas em empregos formais, informais e autônomos regulares têm níveis de insegurança alimentar mais baixos que os dos produtores rurais e agricultores familiares.

Entre os produtores rurais que declararam que houve perdas na produção no último período, o índice de insegurança alimentar grave chega a 26%. Destes, apenas um em cada cinco se encontram em estado de segurança alimentar, com acesso pleno a alimentos de qualidade em quantidade suficiente. 

Explicação

Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, membro da Sociedade Brasileira de Agroecologia, o aumento da fome no campo reflete a eliminação de políticas públicas voltadas à população rural e a prioridade dada pelo governo ao agronegócio.

“O fim das políticas de aquisição de alimentos da agricultura familiar, a inexistência de estoques reguladores e estruturas de mercado desestimularam a produção de alimentos, trazendo inflação e fome”, avalia ele, que lembra também a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2016.

“E não é só a fome”, continua Melgarejo. “Há também a violência armada, a expropriação de terras e a volta dos jagunços e das migrações. Pagaremos um preço enorme pelos reflexos humanos deste sucesso do agronegócio exportador.”

O inquérito anterior, realizado em 2020, já havia registrado uma grave situação entre os pequenos agricultores do Norte e do Nordeste. O quadro é pior entre os produtores sem acesso a água potável, e ainda mais grave para aqueles que não dispõem de água para consumo dos animais e para a agricultura. Como mostrou uma recente reportagem do Joio, o governo de Jair Bolsonaro praticamente zerou o programa de construção de cisternas, fundamental para os produtores rurais do semiárido nordestino. Essas famílias foram também afetadas pela perda de renda decorrente da extinção dos programas públicos de compra de alimentos – em particular o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), igualmente alvo do corte de orçamento federal.

O inquérito Vigisan foi conduzido pela Rede Penssan, formada por pesquisadores em segurança alimentar, e executado pelo Instituto Vox Populi, com apoio de entidades da sociedade civil. Foram ouvidas 12 mil famílias (2.384 delas em áreas rurais), em 577 municípios, de novembro de 2021 a abril de 2022.

Fome no Brasil

Os dados da Rede Penssan mostraram um aumento vertiginoso na população em estado de insegurança alimentar no país, em relação a 2020. Desde então, 14 milhões de pessoas passaram a conviver com a fome, e outras 8 milhões entraram para o rol dos que estão em algum nível de insegurança alimentar. 

Os dados mostram que o país regrediu a mesma situação de 1993, quando, segundo dados do Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada (Ipea), 32 milhões passavam fome.


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