Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Poder

Para eleger Bolsonaro, Lira imita Lula sobre política de preço da Petrobras

Bolsonaro esquece que é presidente e ameaça com greve de caminhoneiros

Postado em 17 de Junho de 2022 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Foto: Agência Brasil

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Assim que o Conselho de Administração da Petrobras deu aval para um novo reajuste no preço dos combustíveis (a empresa anunciou um aumento de 5,2% na gasolina e 14,2% no diesel nesta sexta), a cúpula bolsonarista da República surtou nas redes sociais, temendo o impacto disso nas eleições. A tal ponto que, no Twitter, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), incorporou Lula, o principal adversário de seu sócio, Jair Bolsonaro.

Dizendo que "a República Federativa da Petrobras" anunciou "o bombardeio de um novo aumento nos combustíveis", agindo como "amiga dos lucros bilionários e inimiga do Brasil", Lira postou, nesta quinta, que convocará "uma reunião de líderes para discutir a política de preços da Petrobras". Entrega, assim, uma resposta aos eleitores de Bolsonaro, como caminhoneiros, que ameaçam abandoná-lo.

Ironicamente, a declaração ecoa o ex-presidente Lula, que vem defendendo uma nova política de preços para a Petrobras, hoje atrelada às variações do preço internacional, em dólar.

"Nós não vamos manter o preço dolarizado. Eu acho que os acionistas de Nova York, os acionistas do Brasil, têm direito de receber dividendos quando a Petrobras der lucro, mas é importante que a gente saiba que a Petrobras tem que cuidar do povo brasileiro", afirmou o petista em fevereiro, por exemplo.

"Eu não posso enriquecer um acionista americano e empobrecer a dona de casa que vai comprar um quilo de feijão e paga mais caro por causa do preço da gasolina."

A mudança na política de paridade de preços de importação vem sendo defendida pela oposição no Congresso Nacional há tempos. Por exemplo, o líder do PT na Câmara, Reginaldo Lopes (PT-MG), já afirmou que "a política de preços do governo Bolsonaro está quebrando o país", e a líder do PSOL na casa, Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que "o que precisamos fazer é a revogação imediata do PPI [preço de paridade de importação]".

Mas Lira vinha tomando cuidado para não encampar a bandeira da discussão sobre a alteração na política, preferindo reclamar de falta de transparência sobre o assunto e defender a privatização da companhia - o que demoraria anos para se concretizar e não causaria necessariamente impacto nos preços, segundo analistas de mercado. Agora, o desespero eleitoral governista atropela a preocupação em parecer oportunista.

A declaração sobre a revisão da política de preços vinda do presidente da Câmara pode ser encarada como ameaça contra a empresa e seus acionistas, do tipo, "já que vocês não ajudam a manter o combustível baixo para ajudar na reeleição, podemos podar os dividendos de vocês". Por enquanto, está na categoria de bravata para dar uma resposta aos eleitores do presidente.

Até porque o governo poderia já ter alterado a política de preços por conta própria, já que é o controlador da empresa, mas o ministro da Economia Paulo Guedes não quer nem ouvir falar do assunto. Considera que seria comparado à ex-presidente Dilma Rousseff, que segurou os preços, diante do mercado.

Bolsonaro esquece que é presidente e ameaça com greve de caminhoneiros

Menos sutil em ameaças é o presidente da República. Na manhã desta sexta (17), Bolsonaro disse que "a Petrobrás pode mergulhar o Brasil num caos", citando que a direção da empresa sabe "o que aconteceu com a greve dos caminhoneiros em 2018, e as consequências nefastas para a economia do Brasil e a vida do nosso povo".

Na época, o candidato Jair ajudou a incendiar os grevistas contra Michel Temer. Hoje, contudo, é ele o presidente, por mais que terceirize suas responsabilidades.

E afirmou que "o governo federal como acionista é contra qualquer reajuste nos combustíveis, não só pelo exagerado lucro da Petrobrás em plena crise mundial, bem como pelo interesse público previsto na Lei das Estatais". Explica-se: para que o conselho da empresa tenha dado o aval para o aumento, a representação do governo no conselho deu um passa-moleque na vontade de Jair.

O ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), também foi às redes sociais contra o aumento. E como um líder da oposição apesar de ser governo, afirmou: "Basta! Chegou a hora. A Petrobras não é de seus diretores. É do Brasil. E não pode, por isso, continuar com tanta insensibilidade, ignorar sua função social e abandonar os brasileiros na maior crise do último século".

O aumento nos combustíveis reforça o argumento daqueles que avisaram que o projeto bolsonarista de limitar o valor do ICMS para baixar o preço dos combustíveis, aprovado pelo Congresso, teria baixa efetividade diante de um petróleo que continua a subir internacionalmente. E que, no final das contas, servirá apenas para bagunçar as contas de educação, saúde, segurança, transporte dos estados, sem causar grande impacto na inflação.

Os que defendem a paridade lembram que o Brasil, apesar de ser grande produtor de petróleo, não tem capacidade de refino para a sua demanda, precisando importar combustível. Se a paridade cair, isso poderia levar a uma dificuldade de comprar os produtos de fora, levando a um desabastecimento. Do outro lado, os críticos a isso afirmam que parte dos lucros da empresa, que estão acima do que é pago em outras similares, poderiam ser usados para garantir esse abastecimento.

O aumento no diesel, na gasolina e no gás de cozinha tem sido o principal pesadelo de Jair Bolsonaro, junto com a alta no preço dos alimentos. Ele é o principal responsável pela inflação de dois dígitos, segundo levantamentos dos institutos de pesquisa. A percepção vem corroendo sua intenção de voto e fazendo com que o povo mais pobre sinta saudades da época em que Lula era presidente.

Petrobras é aviltada por quem já violou seu cofre

Quando se fala sobre Petrobras e assaltos, convém perguntar logo: de fora pra dentro ou de dentro pra fora? Bolsonaro declarou guerra à estatal. Trata aumento do preço de combustível como roubo. E chama de estupro os lucros da companhia. Alistaram-se no pelotão de petrofuzilamento Ciro Nogueira e Arthur Lira, oligarcas do PP, o partido que ocupava o topo do ranking de encrencados no petrolão. Ou seja: sob Bolsonaro, a Petrobras é aviltada de fora pra dentro por quem roubava seus cofres de dentro pra fora no verão petista.

Pressionada a promover um congelamento artificial à moda Dilma Rousseff para reeleger Bolsonaro, a Petrobras convocou seu Conselho de Administração. O colegiado reuniu-se extraordinariamente na folga de Corpus Christi. Foi uma reunião de tema único: "Aumento de preço." O pedido para travar os reajustes foi refutado. Concluiu-se que a decisão sobre preços cabe à diretoria da Petrobras, não ao Planalto. O tempo fechou no comitê da reeleição. Nesta sexta-feira, alheia à temperatura eleitoral, a Petrobras anunciou os novos reajustes: 5,18% para a gasolina, 14,26% para o diesel.

Na véspera, ao farejar o cheiro de queimado, Bolsonaro declarou que a decisão tem motivação política. Ciro Nogueira e Arthur Lira, chefões da Casa Civil e da Câmara, rosnaram no Twitter. "Basta! Chegou a hora", anotou Ciro. "A Petrobras não é de seus diretores. É do Brasil. E não pode [...] ignorar sua função social e abandonar os brasileiros na maior crise do último século."

Lira tratou a maior empresa nacional como se fosse uma nação inimiga: "A República Federativa da Petrobras, um país independente e em declarado estado de guerra em relação ao Brasil e ao povo brasileiro, parece ter anunciado o bombardeio de um novo aumento nos combustíveis." O deputado também mencionou a "função social" da estatal.

Com a inflação a lhe roer as pretensões eleitorais, Bolsonaro transformou os preços dos combustíveis num cavalo de batalha. Cavalgando com o centrão na garupa, levou à vitrine um pacote populista que aplica uma Eletrobras em subsídios para anestesiar a carestia da energia e dos combustíveis.

A turma da reeleição acha inconcebível que a Petrobras promova novos reajustes antes do término da preparação do coquetel de sedativos. Ironicamente, Bolsonaro esgrime projetos desenhados em cima do joelho para obter nos quatro meses que o separam das urnas o que não conseguiu levar à vitrine em quase quatro anos de mandato.

A implicância de Bolsonaro com a política de reajustes da Petrobras vem de longe. Na oposição, jogou gasolina no ânimo dos caminhoneiros na greve que envenenou o PIB no governo de Michel Temer. No Poder, o oportunismo do capitão deu as caras nos primeiros 100 dias de governo.

A Petrobras perdeu R$ 32,4 bilhões em valor de mercado quando, pressionado por caminhoneiros, Bolsonaro disparou um telefonema para ordenar à estatal que recuasse de um aumento no preço do diesel. A encrenca ocorreu em 11 de abril de 2019.

Nesse dia, por uma cilada do azar, Paulo Guedes vendia um "novo Brasil" para investidores estrangeiros, em Nova York. Alcançado pelas câmeras e pelos microfones, o Posto Ipiranga travou com os repórteres um diálogo constrangedor sobre Petrobras.

— O presidente Bolsonaro consultou o senhor?

— Eu passei o dia inteiro trabalhando. Não tenho informação suficiente.

— Mas então o senhor não foi consultado? Se o senhor não sabe, o senhor não foi consultado.

— Eu tenho um silêncio ensurdecedor para os senhores.

— O senhor não foi consultado, ministro?

— Um silêncio ensurdecedor sobre o assunto.

Distanciando-se dos microfones, Paulo Guedes deixou escorrer dos lábios um derradeiro comentário. Classificou de "inferência razoável" a suposição de que Bolsonaro não o consultara antes de intervir na política de preços da Petrobras.

Com o receio de que um incêndio no Posto Ipiranga jogasse o governo pelos ares, Bolsonaro refugiou-se na trincheira do Twitter dois dias depois. Estava armado de cinismo.

"Nossa política é de mercado aberto e de não intervenção na economia", escreveu na época o inquilino do Planalto. "O presidente da Petrobras, após nos ouvir, suspendeu temporariamente o reajuste. Convoquei os responsáveis pela política de preços para reunião, junto com os ministros da Economia, Infraestrutura e Minas e Energia."

Hoje, Bolsonaro dedica-se a carbonizar chefes da Petrobras com o aval e a ajuda de uma aliança iliberal de Paulo Guedes com o centrão. É difícil observar a cruzada dessa gente sem reprimir uma espécie de sorriso interior. Quem vê um presidente que chegou ao Planalto surfando a onda da Lava Jato esbravejando junto com petrodelinquentes em nome dos consumidores recebe o aviso de uma voz que vem das profundezas da consciência: "Farsantes!"


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