Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna

Das possibilidades: a Dom Phillips e Bruno Pereira

Esta semana a alma das florestas chora o choro triste que vela seus mortos

Postado em 09 de Junho de 2022 - Túlio Batista Franco

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Esta semana a alma das florestas chora o choro triste que vela seus mortos. Dom Phillips e Bruno Pereira, jornalista e indigenista respectivamente, trabalhavam no Vale do Javari, extremo noroeste brasileiro, quando desapareceram no dia 5 de junho de 2022. Supostamente vítimas de uma emboscada armada por traficantes, ou garimpeiros, ou pescadores ilegais, todos se sentindo autorizados a colocar sua mão grande nos recursos naturais da terra indígena, amparados nas posições que o governo brasileiro vem mantendo de incentivo à exploração predatória destes territórios.

Menos do que falar das extraordinárias pessoas que são Dom e Bruno, quero homenageá-los, e para isto trago um poema de autoria do poeta João Batista Jorge Neto, que me veio à memória nesta semana no contexto destes acontecimentos. Como eles, João era livre, contrário à prática de exploração intensiva e predatória da terra, resistiu com a literatura o quanto pôde. Cinco anos mais velho do que eu, era meu primo, padrinho, e estaríamos dividindo os mesmos sentimentos se aqui estivesse entre nós. O mundo precisa de muitos de vocês: Dom, Bruno, João.

 

DAS POSSIBILIDADES


João Batista Jorge Neto*

(Do livro Água da Asia Asa da Águia)
 

No vácuo das impossibilidades

tudo é possível

a esfera rodopia

sobre o vértice do triângulo

que também gira

mas em rotação estranha

e tudo se equilibra

 

No vácuo das impossibilidades

tudo se equilibra

uma esfera repousa

sobre a outra em movimento -

tudo é possível

 

No vácuo das impossibilidades

tudo é possível

a dúvida rodopia

sobre o vértice da certeza

e tudo se equilibra

 

No vácuo das impossibilidades

 tudo e possível

o acaso repousa

sobre o azar em movimento

e tudo se equilibra

 

No vácuo das impossibilidades

tudo é possível

a vida rodopia

sobre o vértice da morte que também gira

mas em rotação estranha

e tudo se equilibra

 

No vácuo das impossibilidades

tudo se equilibra

a utopia repousa

sobre o vértice da vida

que gira

mas em rotação estranha

e tudo principia:

 

a via livre da galáxia

a eurritmia da sintaxe

a eutaxia do poétax 

 

*João Batista Jorge Neto é natural de São Gotardo-MG, foi poeta, divulgador cultural, jornalista, em meados dos anos 70/80. Reconhecido pelo estilo literário próximo ao de Leminski, deixou publicados 3 livros: Tíbias e Flautas, Flagrante Joia e Asa da Águia/Água da Ásia. Foi também um dos organizadores do jornal alternativo “Paca Tatu, Cotia Não”, uma voz literária de protesto contra a cooperativa Cotia, que levou a agricultura intensiva para sua região início dos anos 1970, expulsando o pequeno agricultor, devastando florestas e contaminando rios. Jorge foi assassinado na sua cidade natal em 1983 aos 29 anos.


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