Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna

Futebol e política

Eles se relacionam, claro, mas não de forma tosca e linear, diz Idelber Avelar

Postado em 09 de Junho de 2022 - Idelber Avelar

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Quero reafirmar minhas convicções no que diz respeito a futebol e política:

Todo cidadão brasileiro tem o direito inalienável de torcer contra a Seleção Brasileira. É uma característica do nosso país. O Brasil é único dos países grandes, importantes no futebol, em que uma parcela (minoritária, mas significativa) da população torce contra a Seleção. O mais interessante é que essa parcela é variável, ela oscila. Eu diria que a última seleção que arregimentou quase 100% da torcida, ao ponto de a gente não ver secadores, foi a de Telê Santana, nos anos 1980.

As pessoas que querem policiar o direito de os outros torcerem contra a Seleção caem em uma contradição performativa sensacional, daquelas orgásmicas: a característica mais singular do brasileiro é poder torcer contra. Não há nada mais brasileiro, não há nada que nos torna mais diferentes dos outros no futebol, que a secação. Quem atenta contra os secadores, portanto, está atentando contra o Brasil.

A outra contradição dos caça-secadores é a seguinte: todas as tentativas de democratizar / racionalizar / profissionalizar / tornar mais sério o negócio Seleção Brasileira e o negócio futebol no Brasil são barradas pela CBF com o argumento de que "somos uma entidade privada". Ora, não queira comer o bolo sem fazê-lo desaparecer: se o futebol e a camiseta amarela são privados durante 4 anos, aceita-se como tácito que são também privados na hora da Copa, e que sua relação com país que representam é puramente simbólica, não ontológica, existencial.

Futebol e política se relacionam, claro, mas não de forma tosca e linear. Em 2002, o Brasil ganhou a Copa e mesmo assim a oposição venceu as eleições. Em 2006, 2010 e 2014, o Brasil deu vexame das Copas e mesmo assim a situação venceu as eleições (a última por um triz, mas enfim). Em 2018 o Brasil não ganhou a Copa, mas não deu vexame. E a extrema-direita venceu.

Aos difamadores que me acusam de pé-frio, relembro meu histórico em Copas: em 2002 torci a favor e o Brasil ganhou; em 2006 e 2014, sequei e o Brasil perdeu dando vexame. É verdade que 2018 eu torci MUITO a favor e o Brasil também perdeu, mas dessa vez não perdeu dando vexame. Perdeu de pé, lutando bonito.

No Brasil, pessoas torcem contra a Seleção pelos motivos mais diversos: porque jogadores da sua região ou do seu time não foram convocados; porque odeiam a comissão técnica (era o meu caso, por exemplo); porque temem a utilização política de uma vitória na Copa por parte do governo.

Pelo menos nesse último quesito, o calendário nos salvou: este ano, as eleições acontecem antes da Copa. Portanto, mesmo que sua leitura da relação futebol-política seja tão rasa, não há o que temer. Não há utilização possível para o bolsonarismo de um título no Catar. Pelo menos não para ganhar as eleições.

Agora, se o bolsonarismo mexeu com suas vísceras ao ponto de impedi-lo de torcer por uma camisa amarela canarinho, aí paciência, uai, eu o entendo. Você não deixa de ser bem-vindo aqui por isso. Mas eu vou torcer muito nessa Copa.

Meu cenário ideal, de sonho: Brasil 1 x 0 Inglaterra na final, com gol de Raphinha e polêmica de VAR.


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