Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna

Para 'bolsonarista' ver...

O jornalista Victor Barone resume a semana política

Postado em 09 de Junho de 2022 - Victor Barone

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No seu primeiro encontro bilateral com Joe Biden, Bolsonaro arrastou o presidente dos Estados Unidos para o seu cercadinho. Falando como se estivesse defronte dos portões do Alvorada, o capitão colocou o sistema eleitoral brasileiro em dúvida —"Queremos eleições limpas, confiáveis e auditáveis"—, mentiu sobre a Amazônia —"Somos um exemplo para o mundo na questão ambiental"— e exercitou sua mania de perseguição —"Por vezes nos sentimos ameaçados em nossa soberania". Foi uma conversa inútil para o interesse nacional. Mas Bolsonaro obteve imagens preciosas para exibir na sua propaganda eleitoral.

Ao dar as boas-vindas a Bolsonaro, Biden referiu-se ao Brasil como uma "democracia vibrante" com "instituições eleitorais fortes". Disse que, a despeito dos esforços brasileiros para preservar a Amazônia, "o resto do mundo precisa ajudar" financeiramente. Se estivesse ali como presidente do Brasil, Bolsonaro teria trocado o lero-lero sobre soberania por um pedido para que Biden traduzisse sua oferta em cifras. Mas a folha de papel na qual o candidato Bolsonaro anotou os tópicos do seu discurso ensaiado não fazia menção a dinheiro.

Mesmo ao defender "uma posição de equilíbrio" em relação à guerra na Ucrânia, Bolsonaro equiparou Biden a um devoto do cercadinho. Injetou nas cenas que usará na campanha a surrada alfinetada nos governadores. Atribuiu a inflação que lhe tira votos à guerra e à política estadual do "fique em casa". Ignorando os 33 milhões de brasileiros que passam fome, disse que "o Brasil alimenta mais de um bilhão de pessoas pelo mundo".

Embora dê pouca atenção à Cúpula das Américas, a imprensa americana percebeu a cilada que Biden armou para si mesmo. O New York Times, por exemplo, anotou que, "esnobado pelos países-chave na América Latina, Biden busca consenso com o Brasil" do capitão.

Ironicamente, a passagem de Bolsonaro pelos Estados Unidos coincide com o início da investigação parlamentar sobre a invasão do Capitólio por golpistas insuflados por Donald Trump. O barulho prolongado da conspiração de Trump soa para a democracia brasileira como uma espécie de síndrome do que está por vir.

Por Josias de Souza

FOGO NO PARQUINHO

Carlos Bolsonaro, dono das senhas do pai nas redes, está achando uma porcaria as peças de campanha do presidente candidato à reeleição. Na campanha passada, ele, sozinho, fez coisas melhores, e só com 8 segundos de propaganda no rádio e na televisão. Flávio Bolsonaro, o chefe, este ano, da campanha do país, está achando as peças maravilhosas, perfeitas. Saiu em defesa delas 48 horas depois de Carlos tê-las esculhambado. Qual dos dois tem razão? Não importa. Melhor não se meter em briga de família.

Michelle Bolsonaro, a primeira-dama, seria a grande estrela da campanha do marido, só abaixo dele. Era o que estava planejado por sugestão da ala política da campanha da qual faz parte o ministro Ciro Nogueira (PP-PI), chefe da Casa Civil. Nogueira tem faro apurado para essas coisas. E Bolsonaro, ciumento por natureza, concordou em expor sua quarta mulher. Carlos não gostou porque ele e Michelle não se entendem direito. Agora, é Michelle que parece estar dando para trás. Acompanhar o marido em eventos da campanha, tudo bem ou pode ser, mas aparecer em vídeos a repetir palavras escritas por outros… Michelle não se sentiria confortável. Sabe que querem explorar sua beleza, e ela nunca se prestou a isso. É evangélica.

Risquem do caderninho de vocês a hipótese de que Michelle já não acredita na reeleição do marido. Talvez seja uma das poucas pessoas próximas de Bolsonaro que ainda acreditam, e que torcem de verdade para que ele vença. Mas há limites para tudo. Não se dirá no futuro que Michelle foi a mais pudica das primeiras-damas. Nesse quesito, ela perde para muitas que a antecederam, menos para Yolanda, mulher do general Costa e Silva, o segundo presidente da ditadura militar de 64. Mas, Michele, a seu modo, tem sido muito recatada. Extrapolou um pouco ao dar saltinhos e gritos em linhas estranhas quando André Mendonça foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal. Entre os evangélicos, porém, isso é admissível.

Por Ricardo Noblat

PITI ANTIDEMOCRÁTICO

Jair Bolsonaro indicou que não respeitará decisões do Supremo Tribunal Federal durante discurso inflamado no Palácio do Planalto na tarde Do último dia 7. A declaração ocorreu logo após a 2ª Turma do STF derrubar a decisão do ministro Kassio Nunes Marques, que havia salvo Fernando Francischini (União Brasil-PR) da cassação por divulgar fake news sobre o sistema eleitoral. Votaram a favor do deputado estadual, além do bolsonarista Nunes Marques o outro indicado do presidente, o ministro André Mendonça.

Ao tratar da questão do marco temporal (a tese de que indígenas só podem reivindicar terras que já eram ocupadas ou disputadas por eles no dia da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, ignorando os que estavam expulsos de suas áreas), Bolsonaro afirmou: "O que eu faço se aprovar o marco temporal? Eu tenho duas opções: entrego a chave pro ministro do Supremo ou digo: não vou cumprir." O presidente costuma dar declarações muito semelhantes sobre esse tema para excitar setores do agronegócio a fim de garantir votos ou doações de campanha, como ocorreu em 28 de agosto de 2021 e em 25 de abril deste ano. Mas sempre deixa em aberto o que pode vir a fazer. Desta vez, ele foi além e continuou, para delírio da plateia que o acompanhava: "Eu fui do tempo que decisão do Supremo não se discute, se cumpre. Eu fui desse tempo, não sou mais!" O descumprimento de decisões judiciais do Supremo Tribunal Federal é um passo para a instalação de um regime autoritário.

Quando se fala em golpe de Estado, a imagem histórica remete a uma fila de tanques descendo de Minas Gerais até o Rio de Janeiro e a imagem moderna aponta para um cabo e um soldado batendo na porta do STF. Mas o uso de tropas é desnecessário. Para um golpe, basta que o Poder Executivo passe a governar no arrepio da Constituição, ignorando ordens judiciais e leis. Por exemplo, fazendo de conta que a decisão sobre o marco temporal nunca existiu. O STF, por via das dúvidas, vem empurrando o julgamento com a barriga, em sucessivos adiamentos - o que causa danos aos direitos das populações tradicionais. Bolsonaro, que prometeu não demarcar "um centímetro quadrado" de território em seu governo, sempre teve uma relação agressiva com os povos indígenas quando parlamentar.

Por Leonardo Sakamoto

FOME

A luz da insegurança alimentar voltou a piscar intensamente no painel de controle do Brasil no governo de Dilma Rousseff, que afundou o país numa recessão monumental. Hoje, potencializada pela pandemia, a fome ajuda a realçar a falta que faz um presidente da República. Com a geladeira do Alvorada abarrotada de todas as iguarias que o déficit público pode pagar, Bolsonaro costuma se vangloriar da condição ostentada pelo Brasil de potência mundial na produção de alimentos. E não consegue enxergar a pobreza que viceja ao redor. "Nós alimentamos mais de 1 bilhão de pessoas mundo afora", diz o inquilino dos palácios de Brasília. "Damos garantia alimentar para nós e para grande parte da população mundial", vocifera Bolsonaro.

O estudo que traz à luz a estarrecedora informação segundo a qual o número de famintos no Brasil quase que dobrou em dois anos, chegando à devastadora marca de 33,1 milhões de bocas mal nutridas, revela que o pior tipo de cego é o governante que não quer ouvir os lamentos pronunciados na fila do osso e nas caçambas de lixo dos supermercados. Bem alimentado, Bolsonaro deu nova evidência de sua inanição mental numa entrevista ao SBT, nesta terça-feira. Ele falava sobre o risco de faltar óleo diesel no país. Olhando fixamente para a entrevistadora, sapecou: "Vou falar um absurdo para você aqui. Podemos partir para o escambo, a troca. Tem país que refina petróleo e tem diesel em abundância, nós temos alimentos. Os dois são importantes. Mas a comida é mais importante".

Do modo como se expressa, o presidente parece acreditar nos seus próprios absurdos. O descompromisso de Bolsonaro levou seu governo a asfixiar programas como o Alimenta Brasil, criado para comprar a produção da agricultura familiar e doar alimentos para pessoas em situação de insegurança alimentar. Para Bolsonaro, não há fome no Brasil.

Por Josias de Souza

NÃO HÁ O QUE COMEMORAR

No Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, não houve muito o que comemorar. Sob Bolsonaro, os repórteres trabalham numa zona de guerra, sob bombardeio do presidente. A aversão do inquilino do Planalto ao pedaço da imprensa que o imprensa revela que o personagem, beneficiário direto da democracia, não assimilou após três décadas de exercício de mandatos eletivos, incluindo três anos e meio de exercício da Presidência, os rudimentos da noção de cidadania.

Decorridas mais de 30 anos do fim da ditadura, Bolsonaro ainda supõe que a sociedade brasileira está disposta a aceitar uma democracia de fachada. Outros tiveram a mesma ilusão. Não foram bem-sucedidos.

A imprensa tem inúmeros defeitos. Mas o que consola é a percepção de que a antipatia de gente como Bolsonaro se deve a uma virtude. A imprensa cumpre a missão jornalística de adequar as aparências à realidade, e não adaptar a realidade às aparências, como prefeririam os imperadores da política. O papel da imprensa não é o de apoiar ou de se opor a governos. Sua tarefa é a de levar à sociedade o que tem interesse público. A falta de discernimento intelectual de Bolsonaro o impede de conviver com o livre curso de informações e ideias. Bolsonaro não aceita senão o apoio irrestrito e a capitulação. O presidente brasileiros sonha com uma democracia de fachada, sem imprensa independente. Há governantes cuja obra só será compreendida daqui a um século. Bolsonaro só poderia ser perfeitamente entendido no século passado.

Por Josias de Souza

DESAPARECIDOS

O servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai), Bruno Pereira, e o jornalista inglês Dom Phillips, correspondente do The Guardian no Brasil, estão desaparecidos na Amazônia desde domingo (5). Em entrevista ao SBT News na terça-feira (8), o presidente Bolsonaro classificou o trabalho de campo feito por Bruno Pereira e Dom Phillips como "aventura perigosa" e insinuou que ambos podem ter sido executados. Essa não é a primeira vez que Pereira e Phillips se tornam alvos dos ataques de Bolsonaro. Em 2019, ano em que Bruno Pereira foi exonerado de seu cargo na Funai após confrontar garimpeiros e ruralistas ligados ao governo federal, Phillips participou de uma coletiva de imprensa e questionou o presidente sobre o desmatamento na Amazônia e a relação de Ricardo Salles, então ministro do Meio do Ambiente, com madeireiro. De maneira agressiva, Bolsonaro ataca o jornalista e afirma que nenhum país do mundo pode falar sobre a Amazônia. "Primeiro você tem que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês. A primeira resposta é essa daí, tá certo? [...] se o que vocês falam sobre o desmatamento na Amazônia fosse, verdade, não existiria mais nada. Nenhum país do mundo tem moral para falar da Amazônia", disse Bolsonaro. 

ABSURDO...

Exausto de operar esquemas alheios, Fabrício Queiroz deseja obter sua própria rachadinha. Vai às urnas como candidato a deputado federal. Declarou há cinco meses que, com o apoio da família Bolsonaro, seria "o deputado mais votado do Rio". O clã presidencial não se deu por achado. E Queiroz decidiu partir para a chantagem. Em entrevista ao podcast Mais ou Menos, Queiroz afirmou que "será um absurdo" não receber o apoio do presidente e de sua família. "Quero que vocês perguntem isso a eles. Eu quero ver eles dizerem que não vão me apoiar..."

Queiroz costuma ser apresentado como coadjuvante de Flávio Bolsonaro nas perversões que macularam a folha salarial do gabinete do primogênito na época em que ele dava expediente como deputado estadual. Meia verdade. Responsável por depósitos de R$ 89 mil na conta de Michelle Bolsonaro, o ex-PM é protagonista de um enredo presidencial. Bolsonaro jamais explicou de onde veio o dinheiro borrifado por Queiroz, seu amigo há mais de três décadas, na conta bancária da primeira-dama. Costuma perder a calma quando lhe perguntam sobre o tema. E o Queiroz?, indagou um repórter certa vez no cercadinho do Alvorada. "Tá com a sua mãe!", sapecou o presidente. Noutra oportunidade, indagado sobre o mesmo tema quando se dirigia à Catedral de Brasília, Bolsonaro rosnou: "Minha vontade é encher tua boca na porrada".

Na entrevista ao podcast, Queiroz insinuou que sabe o que os Bolsonaro fizeram no verão passado. Referiu-se ao caso da rachadinha como uma "lambança" inocente. "Eu sou bandido? Eu sou o Queiroz, pô! Pai de família, trabalhador. Fiz uma lambança, que respingou neles? Sim. Mas não tem crime. [...] Eu quero ver eles dizerem que não me apoiam". Num país como o Brasil, sempre imerso em escândalos, políticos que se relacionam com tipos como Queiroz não deveriam se candidatar ao Planalto. Candidatando-se, não deveriam se enrolar na bandeira da ética. Enrolando-se, deveriam saber que, viriam as perguntas. Quem não responde adequadamente sujeita-se à chantagem.

Por Josias de Souza

EM NOME DE JESUS

Por que nenhum dos pastores evangélicos mais conhecidos do país condenou a chacina policial com 26 mortos na favela Vila Cruzeiro, no Rio, e a morte em Sergipe de Genivaldo, assassinado por agentes da Polícia Rodoviária Federal dentro de uma câmara de gás improvisada? Só vidas com dinheiro é que importam para eles?

Ainda sobre a chacina na Vila Cruzeiro e a morte de Genivaldo: por que os mais famosos cantores sertanejos nada disseram a respeito até hoje? Não acessam as redes sociais? Não conversam com amigos? Ninguém ao seu redor comentou? Afinal, a voz só lhes serve para faturar milhões de reais com shows pagos pelo poder público? Nem para os pastores evangélicos e nem para os cantores sertanejos vale a desculpa de que não se metem em política. Metem-se, sim. E, quase sempre, em defesa do lado errado.

Por Ricardo Noblat

DE ESQUERDA

Em 2017, o perfil ideológico dos brasileiros indicava que 41% deles eram de esquerda e 40% de direita, segundo pesquisa DataFolha. Agora, de acordo com o mesmo instituto, 49% são de esquerda, 34% de direita e 17% de centro. Ótima notícia para Lula (PT), péssima para Bolsonaro (PL) e Simone Tebet (MDB). A pesquisa foi feita a partir de respostas dos entrevistados a perguntas sobre temas que separam as duas visões de mundo – como drogas, armas, criminalidade, migração, homossexualidade e impostos. O levantamento, realizado nos últimos dias 25 e 26, ouviu 2.556 pessoas acima de 16 anos em 181 cidades de todo o país. Lula vencia Bolsonaro por 48% a 27%.

Por Ricardo Noblat

FRASES DA SEMANA

“Você enricou durante a Covid? Se deu bem? Você vive melhor hoje? Comprou casa de R$ 6 milhões? Apartamento de R$ 2 milhões? Viaja para Mônaco no fim de semana? Jet-Ski? Esqueci, o jet-ski é da Marinha. Foi para isso que lutamos?” (Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação)

“Parabéns, Bolsonaro, você conseguiu. Depois de 3 anos dedicado a entregar a Amazônia aos barões do desmatamento, garimpo e pesca ilegais […], sua obra atingiu um novo clímax: o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips.” (Ruy Castro)

 “Eu fui do tempo que decisão do Supremo não se discute, se cumpre. Eu fui desse tempo, não sou mais.” (Bolsonaro, furioso com a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a cassação por fake news do deputado estadual bolsonarista  Fernando Francischini, do União Brasil-PR)

“Em qualquer lugar me perguntam se eles [os Bolsonaro] vão me apoiar. É um absurdo se não me apoiar. Então, eu sou bandido? Sou o Queiroz, pai de família, trabalhador”. (Fabrício Queiroz, gerente da rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro, agora candidato a deputado federal)

“Vocês (petistas) já sabem qual vai ser o meu lado, mas eu preciso que vocês me digam o que vão fazer na educação. Qual será a pauta econômica? O que vão fazer para unir o Brasil? Vamos fazer uma frente ampla?” (Tabata Amaral, deputada federal pelo PSB de SP)

“A imagem de Lula é de quem deixou o poder com 84% de ótimo e bom. Os eleitores olham para o retrovisor e projetam o que ele pode oferecer no futuro. […] O que Bolsonaro oferece de imaginação para o futuro é uma projeção do presente.” (Antonio Lavareda, sociólogo)

“Não me oriento pelo terreno dos rancores. E, por isso, posso até ter diferenças com o partido e o candidato, mas eles têm compromisso com a democracia e, no momento, são eles que reúnem as melhores condições para derrotar Bolsonaro”. (Marina Silva, sobre o PT e Lula)


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