Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Poder

Mendonça dá 10 dias para governo explicar o sigilo sobre pastores

Bolsonaro fala de evangélicos como se eles não frequentassem o supermercado

Postado em 03 de Junho de 2022 - Sandy Mendes (Congresso em Foco), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

 Foto: Carolina Antunes/PR Foto: Carolina Antunes/PR

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O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, deu dez dias para que a Presidência da República se manifeste sobre o sigilo de 100 anos imposto pelo governo às reuniões entre o presidente Jair Bolsonaro e pastores envolvidos no suposto esquema de corrupção do Ministério da Educação (MEC).

“Dessa forma, diante do contexto normativo relativo à presente ação, considero de todo conveniente que a análise judicial da controvérsia venha a ser tomada em caráter definitivo. Assim, entendo pertinente adotar o rito abreviado previsto no art. 12 da Lei nº 9.868, de 1999. Ante o exposto, notifique-se a autoridade requerida para que preste informações no prazo de 10 (dez) dias”, escreve Mendonça.

O sigilo dos encontros entre o presidente e os líderes religiosos foi decretado pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) em 13 de abril. Ao negar os dados, o GSI afirmou que os dados têm caráter sigiloso e, se divulgados, poderiam comprometer a segurança de Bolsonaro.

O nome dos religiosos em questão estavam ligados à negociação de propina para prefeitos, em troca da liberação de recursos do MEC. O caso é investigado pela Polícia Federal.

A ação foi requerida pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) que, antes, havia pedido a inconstitucionalidade do sigilo de 100 anos. O partido socialista argumenta que tal medida “vem sendo implantada pela Presidência da República, de maneira a revelar verdadeira burla ao mandamento constitucional da publicidade dos atos da Administração Pública”.

No documento, a legenda também quer a cassação dos sigilos impostos que não estejam em conformidade com a Constituição. Além de solicitar que “norma excepcional de sigilo para proteção estratégica eleitoreira, de campanha ou que não evidencie qualquer interesse público quando da proteção e sigilo às visitas recebidas nas instalações dos edifícios pertencentes à Presidência da República”.

Bolsonaro fala de evangélicos como se eles não frequentassem o supermercado

Político em campanha que reclama de pesquisa eleitoral é mais ou menos como comandante de navio que se queixa do mar. Sacudido pelo maremoto de dados negativos que o eleitorado lançou sobre sua campanha por meio do Datafolha, Bolsonaro chamou de "canalhice" o pedaço da pesquisa que revela a divisão do eleitorado evangélico: 39% fechados com ele, 36% com Lula.

Agarrando-se a um jacaré como se fosse um tronco, Bolsonaro rosnou para a realidade: "Vai falar que os evangélicos estão divididos? Não sou unanimidade, não sou o dono da verdade, não sou a última palavra, o último biscoito do pacote. Mas falar que estão divididos?"

Os evangélicos somam 31% do eleitorado. Coisa de 45 milhões de votos. Olhar para essas almas como um bloco uniforme e monolítico não é o único equívoco a que está sujeito Bolsonaro. Equívoco maior é imaginar que a religiosidade imuniza os irmãos contra os efeitos da crise econômica.

"No tocante a evangélico, o lado de lá defende aborto, o lado de cá o contrário", disse Bolsonaro. "O lado de lá falou que vai colocar os militares, pastores e padres nos seus devidos lugares. Do lado de lá, os governadores do PT foram unânimes e fecharam templos e igreja".

O que Bolsonaro pede a Deus não é que seja feita a Sua vontade, mas sim que Ele se submeta à vontade de um presidente precário que demora a perceber que está sujeito à condição humana.

"O lado de cá não fala da boca pra fora, fala com o coração: Deus, pátria, família... O lado de cá defende família. O lado de lá, não. O lado de lá defende ideologia de gênero. Vai falar que os evangélicos estão divididos?"

Um pedaço do eleitorado evangélico tem muito respeito por Deus para considerar que Ele pode ser cúmplice da inépcia. Os cristãos não estão trancados nos templos. Eles também frequentam os supermercados. Ali, diante da gôndola, a carestia bate igual nos bolsos de quem tem fé e nas carteiras dos ateus.

O que impede o Todo-Poderoso de enviar um segundo dilúvio é a percepção fornecida pelo Planalto de que o primeiro não adiantou nada. Hoje, Ele prefere despejar raios e trovões sobre as pesquisas.


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