Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Poder

Pobres dariam a vida para morar no Brasil da propaganda de Bolsonaro

Crise econômica dá ao trono do presidente aparência de uma cadeira elétrica

Postado em 03 de Junho de 2022 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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Se os órgãos de defesa do consumidor tivessem um departamento eleitoral, a propaganda enganosa do PL com Bolsonaro sairia do ar. E seus idealizadores seriam proibidos de exercer a profissão de marqueteiro. Até a empulhação eleitoral tem limites. Na peça que começa a ser exibida nesta quinta-feira, Bolsonaro diz a um grupo de jovens que "a família é a base de tudo." É melhor não discutir com um especialista.

Desde que entrou para o Exército, em 1973, Bolsonaro vive às custas do contribuinte. Expurgado da carreira militar, virou político profissional. Em quase meio século, transformou a família num puxadinho dos cofres públicos. Elegeu três filhos e fundou a holding da rachadinha. Entre ex-mulheres, fantasmas e laranjas —uns parentes dos outros— a organização familiar empregou mais de uma centena de pessoas, das quais eram extorquidos até 80% dos salários, para compor o patrimônio familiar.

Bolsonaro encerra a peça publicitária com uma frase 100% feita de empulhação: "Sem pandemia, sem corrupção e com Deus no coração seremos uma grande nação." Na pandemia, Bolsonaro aliou-se ao vírus. Na corrupção, eliminou intermediários, privatizando o orçamento ao centrão. O Deus de Bolsonaro está armado até os dentes. E os brasileiros que cozinham com fogo à lenha para não gastar 13% do salário mínimo com um botijão de gás dariam a vida para morar na "grande nação" da propaganda do PL.

Exibida num instante em que a mansão de R$ 6 milhões de Flávio Bolsonaro retorna às manchetes, a propaganda estrelada por Bolsonaro ajuda a explicar por que um candidato à reeleição que aparece no Datafolha 21 pontos atrás do seu rival foge dos debates. Sem ter o que mostrar, Bolsonaro pede aos brasileiros que elejam a melhor encenação. Os jovens, público-alvo da propaganda, parecem dispostos a desempenhar muitos papeis na sucessão de 2022, exceto o de tolos.

Crise econômica dá ao trono de Bolsonaro aparência de uma cadeira elétrica

Há basicamente dois tipos de eleitores na campanha presidencial de 2022. Quem conseguiu economizar para os dias piores começou a gastar, pois os dias piores chegaram. Quem não teve condições de poupar durante os dias ruins vive dias muito piores. Aos pouquinhos, a crise econômica vai roubando da crise institucional o papel de estrela da sucessão presidencial. Bolsonaro é protagonistas das duas crises. Incapaz de resolver os problemas da economia, ele anuncia que o processo eleitoral terá confusão.

Quase oito em cada dez brasileiros vão às urnas de olho no bolso e na bolsa. Segundo o Datafolha, 77% dos eleitores declaram que a economia influi no voto. A realidade econômica tem muita influência para 53%, alguma influência para 24%. A maioria do eleitorado (52%) acha que sua situação pessoal piorou. Natural. A inflação alta mastiga a renda de quem ainda dispõe de rendimentos. Cada vez mais sobra mês no fim do salário.

Nesta semana, o governo levará à vitrine um dado positivo. A economia cresceu ao redor de 1,5% no primeiro trimestre do ano. Mas esse número surge no retrovisor sem atenuar o cenário que se enxerga no para-brisa de um presidente que deseja permanecer no volante depois de tomar o rumo da crise. Sem resultados para exibir, Bolsonaro insistirá no discurso segundo o qual seu mandato foi prejudicado por fatores externos como a pandemia e a guerra na Ucrânia.

Bolsonaro aproveita de uma meia verdade apenas a parte que é mentirosa. Ele agravou o custo econômico da crise sanitária com uma gestão caótica da pandemia. A inflação roda na casa dos dois dígitos há oito meses, bem antes de Vladimir Putin despejar o primeiro míssil em solo ucraniano. O problema de um governante como Bolsonaro, que gasta mais tempo procurando culpados do que resolvendo os problemas, é que, mais cedo ou mais tarde ele acaba correspondendo aos que não têm qualquer motivo par confiar nele. Agravada pela vocação do presidente pela bagunça, a crise econômica faz do trono de Bolsonaro uma cadeira elétrica.

Uso de grana de pobre para trator reforça Bolsonaro como presidente de rico

A imagem de Jair Bolsonaro como um presidente que não cuida de gente pobre foi reforçada com a representação do Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU). O seu governo comprou quase R$ 90 milhões em tratores, com objetivos claramente eleitoreiros, usando recursos que deveriam ter sido gastos para prevenir o sofrimento dos mais necessitados na pandemia.

Não à toa a pesquisa FSB/BTG, divulgada nesta segunda (30), aponta Lula com 65% das intenções de voto no primeiro turno entre quem ganha até um salário mínimo, enquanto Bolsonaro tem 17%. No total nacional, o resultado é 46% a 32%.

De um a dois salários por mês, Lula tem 54%, Bolsonaro, 25%. Entre dois e cinco, há um empate técnico, com Lula apontando 37% e Bolsonaro, 38%. E, entre quem ganha mais de cinco salários por mês, Bolsonaro tem 45% e Lula, 33%. A margem de erro é de dois pontos.

O MP pediu a suspensão de pagamentos pelos tratores enquanto o caso não for esclarecido. Reportagem da Folha de S.Paulo, do último dia 23, revelou que ao comprar os equipamentos agrícolas o governo solenemente ignorou determinação do TCU de que os recursos fossem usados no combate à pandemia dos mais pobres.

A gestão Bolsonaro vai tentar passar um caô ao tribunal, mentindo que era necessário investir em pequenos agricultores para reduzir a fome que surgiu com o "fique em casa" na pandemia, ou seja, com a proteção da vida. Mas a compra ignora as demandas reais dessas famílias, que são diferentes a depender das características de cada região e atividade produtiva.

O Brasil caminha para 670 mil mortes por covid-19. No ápice da segunda onda de coronavírus, em abril do ano passado, quando mais de 4 mil óbitos eram registrados por dia pela doença, Jair repetia que lamentava aquilo, mas empurrava os trabalhadores para a rua afirmando que "a morte é o destino de todos".

A própria reportagem da Folha apontou que há 45 mil famílias que vivem no campo na extrema pobreza aguardando recursos para o fomento rural. Se quisesse matar a fome desse povo, há soluções mais rápidas que poderiam ser adotadas, mas que não rendem tanto voto.

Já um tratorzão vistoso estacionado na prefeitura com o adesivo do governo federal pode ajudar na eleição do presidente e de candidatos apoiados por ele. A Bahia, estado do ex-ministro da Cidadania, João Roma, corresponsável pelas transações e pré-candidato ao governo estadual, é o principal destino da tratorada.

Como já disse aqui, em materiais de campanha Jair aparece como "pai dos pobres", lembrando ao povo que ele foi o responsável pelo pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 no primeiro ano da pandemia. Mas, se dependesse do governo, inicialmente, nem haveria auxílio. Depois, com muita pressão, o ministro Paulo Guedes sugeriu R$ 200. O mérito por forçar uma subida de valor coube ao Congresso.

A intenção de voto de Jair Bolsonaro subiu de 18% para 25% entre quem recebe Auxílio Brasil, entre abril e maio, segundo a pesquisa FSB/BTG, mas Lula permaneceu com 50% nesse grupo. Entre os que moram com alguém que ganha o benefício, Bolsonaro apenas oscilou de 28% para 29%, enquanto Lula cresceu de 47% para 59%.

Por enquanto, a lembrança de bonança dos anos Lula tem se feito mais presente na vida dos mais pobres do que o impacto do pagamento de um Auxílio Brasil (o sucessor do Bolsa Família) - que, aliás, vem perdendo mês a mês poder de compra por conta da escalada da inflação.

Para 85% dos eleitores, os preços aumentaram muito nos últimos três meses, outros 10% afirmam que aumentaram um pouco, segundo a pesquisa FSB. E, para 70%, eles devem continuar aumentando nos próximos três meses.

Isso também ajuda a explicar a razão de, segundo dados do Datafolha divulgados no último dia 27, 20% dos eleitores de Jair Bolsonaro optarem por Lula caso não votem no atual presidente na eleição de outubro.

Há um eleitor pobre movido por uma urgência material, que lembra como era o governo Lula no passado e reativa a sua memória, mesmo com todo o ruído causado pela Lava Jato. Recorda-se que comia carne e pagava contas. Mas também que ficava vivo, coisa que a prioridade deste governo por cloroquina ao invés de vacina e por trator ao invés da saúde do trabalhador deixa bem claro.


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