Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Coluna

Nietzsche pensador da Cannabis

Há diferenças entre o uso recreativo e terapêutico?

Postado em 03 de Junho de 2022 - Ricardo Moebus

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“(...) tudo o que chamamos agora de

cultura, educação, civilização terá algum

dia de comparecer perante o infalível juiz

Dionísio.”

Nietzsche

 

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche trouxe incontáveis contribuições genuínas para pensarmos o campo da saúde, uma delas, sem dúvida é a perspectiva Trágica da existência, sobretudo a partir de seu texto “O Nascimento da Tragédia”, no qual constrói toda uma leitura do homem/mundo grego a partir desta perspectiva trágica que inclui, aceita, admite, abraça a vida de forma inteira e incondicional, o que necessariamente inclui toda a dimensão chamada “apolínea”, mas também toda a dimensão chamada “dionisíaca”.

Isto apresenta uma enorme distância da experiência hegemônica de saúde em nossa cultura ocidental contemporânea, alinhada com a biomedicina tecnocientífica.

Um bom exemplo de como esta biomedicina tecnocientífica exclui, nega, tenta apagar a dimensão dionisíaca da vida, portanto, dimensão dionisíaca da saúde, é o debate atual contrapondo por um lado um uso recreativo de cannabis, e por outro lado um uso terapêutico de cannabis, como se houvesse dicotomia e/ou oposição entre estes dois termos, quando na verdade, é bem fácil reconhecermos o uso recreativo como terapêutico, ou, o uso terapêutico como recreativo, como poderíamos aprender com a ludoterapia por exemplo.

Neste sentido, contrapõem-se duas estéticas: uma que “desvia o olhar do que há de sombrio, incerto, imprevisível, assustador na vida cotidiana”, negando estas dimensões do humano, uma estética unicamente apolínea, profundamente racionalista em sua pretensão de clareza, uma “estética socrática” nas palavras de Nietzsche, propondo um caminhar progressivo na direção de uma certa consciência racional absoluta.

E, outra estética, que resgata as dimensões dionisíacas, em uma afirmação mais integral da vida, reconhecendo suas forças cruéis, imprevisíveis, obscuras, uma estética do saber trágico.

Esta estética do trágico conhece, em Nietzsche, seu apogeu, constituindo um tema fundamental e recorrente para este autor, tema presente não só nas obras que se ocupam diretamente do trágico, compostas por “Introdução à Tragédia de Sófocles”, e “O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo”; mas de uma forma difusa, ao longo de toda sua produção.

Estética que resgata a dignidade de toda vida, em movimentos que “tornam de algum modo a existência digna de ser vivida e impelem ao momento seguinte.”

O trágico em Nietzsche faz, desta forma, coro ao seu projeto por uma transvaloração de todos os valores, por uma retomada da vida em sua plenitude, não mais apartada de si, reduzida pelo ressentimento, pelo remorso, constrangida por uma moral de escravos.

Nietzsche leva esta dimensão estética às últimas consequências, considerando que cada ser humano é um artista consumado, sendo pelas “artes, mercê das quais a vida se torna possível e digna de ser vivida.” Ou, ainda além, “o homem não é mais artista, tornou-se obra de arte: a força artística de toda a natureza, para a deliciosa satisfação do uno-primordial (...).”

O trágico estará em sintonia com seu grande Sim à vida, com a superação do homem em direção a um além homem, da vida conectada consigo mesma, em uma “fantástica exaltação da vida.”

Trágico que denuncia incessantemente o projeto de um exclusivismo apolíneo, e que traz o reencontro de Apolo e Dionísio: “E vede! Apolo não podia viver sem Dionísio! O ‘titânico’ e o ‘bárbaro’ eram, no fim das contas, precisamente uma necessidade tal como o apolíneo!”

Reencontro que se dá necessariamente pelo retorno do dionisíaco, banido no ocidente pelo socratismo: “O indivíduo, com todos os seus limites e medidas, afundava aqui no auto-esquecimento do estado dionisíaco e esquecia os preceitos apolíneos. O desmedido revelava-se como a verdade, a contradição, o deleite nascido das dores, falava por si desde o coração da natureza.”

O trágico, neste sentido, como crítica ao socratismo, representa todo um enfrentamento de uma longa tradição filosófica ocidental:

“Agora, junto a esse conhecimento isolado ergue-se por certo, com excesso de honradez, se não de petulância, uma profunda representação ilusória, que veio ao mundo pela primeira vez na pessoa de Sócrates – aquela inabalável fé de que o pensar, pelo fio condutor da causalidade, atinge até os abismos mais profundos do ser e que o pensar está em condições, não só de conhecê-lo, mas inclusive de corrigi-lo.”

E neste enfrentamento, pelo trágico, do “socratismo estético”, da “roda motriz do socratismo lógico”, do “único olho ciclópico de Sócrates” no qual “nunca ardeu o gracioso delírio de entusiasmo artístico”; encontramos o enfrentamento da própria ciência, como critério único e absoluto de verdade.

Trágico que se afigura também como desconstrução deste pressuposto tão caro a essa tradição, à qual Nietzsche pretende se opor: o indivíduo. Desconstrução que deve brotar da “alegria pelo aniquilamento do indivíduo.”

Aniquilamento necessário para dar passagem a uma multiplicidade que nos habita, amordaçada pelo preposto do indivíduo:

“(...) dada a pletora de incontáveis formas de existência a comprimir-se e a empurrar-se para entrar na vida, dada a exuberante fecundidade da vontade do mundo; nós somos trespassados pelo espinho raivante desses tormentos, onde quer que tenhamos nos tornado um só, por assim dizer, com esse incomensurável arquiprazer na existência e onde quer que pressintamos, em êxtase dionisíaco, a indestrutibilidade e a perenidade deste prazer. Apesar do medo e da compaixão, somos os ditosos viventes, não como indivíduos, porém como o uno vivente, com cujo gozo procriador estamos fundidos.”

Trágico que permite uma nova visibilidade, desde a inclusão da dimensão dionisíaca, quando:

“(...) tudo o que chamamos agora de cultura, educação, civilização terá algum dia de comparecer perante o infalível juiz Dionísio.” Claro, que acrescentaríamos a esta lista de cultura, educação e civilização; também a saúde, como tendo de comparecer a este juízo.

Juízo que aponta para a “sabedoria dionisíaca”, como transbordamento do império do equilíbrio calculista:

“A tragédia está sentada em meio a esse transbordamento de vida, sofrimento e prazer; em êxtase sublime, ela escuta um cantar distante e melancólico – é um cantar que fala das Mães do Ser, cujos nomes são: Ilusão, Vontade, Dor.”

O trágico em Nietzsche ganha portanto o estatuto de uma fabulosa convocação à vida:

“O tempo do homem socrático passou: coroai-vos de hera, tomai o tirso na mão e não vos admireis se tigres e panteras se deitarem, acariciantes, a vossos pés. Agora ousai ser homens trágicos: pois sereis redimidos.”

Desta forma, o trágico apresenta uma verdadeira luta contra o império apolíneo socrático que:

“Com a força descomunal da imagem, do conceito, do ensinamento ético, da excitação simpática, o apolíneo arrasta o homem para fora de sua auto-aniquilação orgiástica e o engana, passando por sobre a universalidade da ocorrência dionisíaca, a fim de levá-lo à ilusão de que ele vê uma única imagem do mundo (...).”

Em uma tal perspectiva estética do Trágico, como estética que não só justifica a vida, mas salva através da arte, a própria vida, é que podemos pensar o recreativo como necessariamente terapêutico, desconstruindo assim uma dicotomia que tenta no debate atual sobre a cannabis, aprisioná-la sob as ordens e os ditames de uma biomedicina tecnocientífica regulatória do controle sobre a vida e os modos de viver.


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