Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Saúde

Após 'fim' de emergência da covid, Brasil vai no sentido contrário do mundo

Bolsonaro terá de responder à ONU sobre alto nível de mortalidade da doença

Postado em 02 de Junho de 2022 - Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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Dados divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, na semana que terminou no último domingo, o número de novos casos globais da covid-19 voltou a cair, assim como o de óbitos. Mas, no caso brasileiro, a tendência vai no sentido contrário.

Segundo a entidade, o pico semanal no mundo foi registrado em janeiro de 2022, quando mais de 20 milhões de novos casos foram identificados em apenas sete dias. Mas, na semana entre os dias 23 e 29 de maio, 3,3 milhões de novos casos foram registrados, 11% a menos que na semana anterior e numa queda constante.

A curva das mortes também aponta para uma queda consistente, com 9,6 mil óbitos na última semana em todo o mundo, 3% a menos que sete dias antes. O número é bem inferior às mais de 80 vítimas fatais, há menos de seis meses.

Apesar do avanço no controle da doença, os dados da OMS revelam que nem todas as regiões apresentam o mesmo percurso. Nos EUA, foram 2,4 mil mortes nos últimos sete dias, um aumento de 25% em comparação à semana anterior.

O Brasil, que tinha saído da lista dos locais com maior número de óbitos semanais, voltou a ser citado. Hoje, a OMS indica que o aumento de 16% nas mortes no país colocou o Brasil uma vez mais na segunda posição mundial, com 826. A terceira posição é da Itália, seguida pela Rússia e China.

No que se refere ao número de novas contaminações, o Brasil não aparece entre os cinco países com maior taxa na semana. Mas ocupa a segunda colocação nas Américas e com um salto de 63% em apenas sete dias. No total, foram 158 mil novas contaminações. Acima do Brasil ainda estão países como os EUA, com 736 mil novos casos, China (576 mil), Austrália (294 mil), Japão (203 mil) e a Alemanha (183 mil).

Os dados da OMS apontando uma alta de casos no Brasil coincidem com uma recomendação em São Paulo para que a população volte a usar máscaras em recintos fechados. A prefeitura da capital paulista não irá obrigar o use da proteção por enquanto, mas voltou a recomendar a máscaras depois de avaliar os índices da pandemia.

Numa coletiva de imprensa, em Genebra, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, insistiu que, apesar da queda global dos números, regiões com o continente americano continuam a registrar um aumento de casos. "Mais uma vez eu digo: a pandemia não terminou", afirmou.

Na semana passada, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, esteve na OMS. Em seu discurso, ele omitiu o número de mortes no Brasil e não fez qualquer referência ao fato de que a comunidade internacional precisaria manter a atenção diante da pandemia. Sua participação ainda ocorreu dias depois que o fim da emergência sanitária tinha sido declarado no país.

Um dia antes do discurso de Queiroga na OMS, o jornalista Jamil Chade, do UOL, obteve trechos de sua mensagem, qualificadas como "ufanista" por membros de seu próprio ministério.

Bolsonaro terá de responder à ONU sobre alto nível de mortalidade da covid

Num exame que o Comitê de Direitos Humanos da ONU realizará sobre as políticas de direitos humanos no Brasil, o governo de Jair Bolsonaro terá de dar respostas sobre o que é considerado como taxas elevadas de mortalidade por conta da covid-19.

Num documento oficial, obtido pelo UOL e enviado ao governo em 7 de abril, o órgão destaca temas que terão de ser explicados pelas autoridades brasileiras durante a revisão de suas políticas.

Num dos trechos, porém, o foco é o direito à vida e, de acordo com o documento, caberá ao governo explicar o que foi feito diante da pandemia.

O Comitê, assim, solicita ao governo "responder aos relatos de altos níveis de mortalidade da covid-19 e descrever as medidas tomadas para evitar mortes evitáveis". O órgão, na prática, coloca o governo contra a parede, exigindo que as autoridades expliquem o que foi feito para lidar com a pandemia a partir de uma estratégia que foi condenada por especialistas, cientistas e médicos.

Com 661 mil mortos, o Brasil aparece como o segundo lugar com maior número de óbitos pela covid-19, desde que a pandemia começou em 2020. Apenas os EUA, com mais de 900 mil mortes, superam a marca brasileira.

Por meses, o governo Bolsonaro negou a gravidade da doença e promoveu remédios e tratamentos que tinham sua eficácia contestada pela ciência.

Ao longo dos meses, o Brasil foi alvo de críticas públicas por parte da OMS (Organização Mundial da Saúde), que imploravam para que líderes políticos assumissem suas responsabilidades. Em 2021, ainda na ONU, um relator chegou a sugerir a criação de uma comissão internacional de inquérito contra o Brasil por conta das decisões tomadas sobre a pandemia.

Não existe uma punição prevista por parte da ONU. Mas uma conclusão de que o governo falhou em garantir o direito à vida será um constrangimento político relevante para a imagem internacional de um presidente que já sofre para ser recebido por governos estrangeiros. Fontes em Genebra ainda apostam que uma eventual conclusão do Comitê sobre o tema poderia alimentar a queixa que existe no Tribunal Penal Internacional contra Bolsonaro.

No atual texto enviado no início do mês, a ONU ainda pediu para o governo "descrever as medidas tomadas para proteger grupos vulneráveis, tais como afro-brasileiros, mulheres grávidas e povos indígenas, da covid-19 e fornecer estatísticas sobre taxas de mortalidade da COVID-19 dentro desses grupos, em comparação com a população em geral".

Se o vírus foi logo chamado de "democrático" por afetar a todos, ficou claro em diversos países que ele foi mais mortal justamente entre as camadas com menor acesso aos serviços públicos. No Brasil, isso não foi diferente.

Os peritos do Comitê ainda pedem que o próprio governo "compartilhe as conclusões da investigação lançada pelo Senado sobre o tratamento da pandemia" por parte do Executivo. A CPI da covid-19 pediu o indiciamento do presidente Bolsonaro, assim como de vários de seus ministros e ex-ministros. Um ano depois da instalação da Comissão de Inquérito, nenhum dos envolvidos foi oficialmente denunciado pela Procuradoria-Geral da República.

O documento enviado ao Brasil resume, no fundo, o mal-estar internacional diante do desmonte das políticas públicas de direitos humanos nos últimos três anos.

A carta pede que se explique os ataques do presidente contra a democracia, a fragilidade do combate à corrupção, o corte de recursos para programas de apoio à mulher, o discurso do ódio por parte das lideranças políticas, a situação dos indígenas, meio ambiente, imprensa, afrodescendentes, violência policial e outras suspeitas de violações.

A cobrança ocorre no momento em que o órgão das Nações Unidas inicia seu processo para examinar a situação brasileira, no que ganha uma dimensão de um levantamento sobre o impacto dos anos do governo de Jair Bolsonaro no poder.

O Executivo já havia submetido um informe sobre a situação do país para o Comitê, na esperança de que o documento fosse suficiente para que os peritos tomassem como base para examinar o Brasil. Mas, conforme o UOL revelou com exclusividade, o informe tratava das questões de direitos humanos apenas até o final de 2018 e não explicava o que havia sido feito no governo Bolsonaro.

Procurado, o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos explicou que não houve tempo para incluir as atuais políticas no documento, que havia sido preparado nos primeiros meses de 2019. Mas o gesto brasileiro foi recebido com ironia e desconfiança por parte de alguns dos peritos que, agora, questionam o governo sobre acontecimentos e dificuldades dos últimos três anos.


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