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Quarta-Feira 29.jun.2022

Ano X - Nº 493

Artigo da semana

Brasil 2022: um país doente

Os sintomas de eliminação pela violência nos deixam uma mensagem clara sobre o caminho trágico de adoecimento do país

Postado em 31 de Maio de 2022 - Clóvis Bozza Neto e Amanda Gomes Galimberti

Reprodução Reprodução

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No dia 26 de maio, Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, estava em uma moto, quando foi abordado por três policias rodoviários na cidade de Umbaúba, em Sergipe. Em vídeo que chocou o país, Genivaldo é parado por estar sem capacete, revistado, imobilizado e colocado na viatura da polícia, onde é asfixiado com gás. Segundo familiares, Genivaldo tinha diagnóstico de esquizofrenia.

No mesmo mês de maio, mas um dia antes, Bolsonaro vetou o título de Heroína da Pátria para a psiquiatra Nise da Silveira. Nise foi pioneira na humanização dos tratamentos psiquiátricos no Brasil, reconhecida internacionalmente, deixando um legado para a sociedade: tratar o doente mental como humano.

Sintomas do adoecimento do país, os dois eventos dialogam entre si, e trazem dois tipos de eliminação: de um lado a morte material, física, tão evidenciada pelo genocídio dos corpos pretos e pobres como Genivaldo; e de outro, a eliminação simbólica, invisibilizando qualquer signo que possa dar margem à indignação contra a violência.

A maneira de agir não é inédita, bastando lembrar que nesse mesmo mês de maio, a polícia do Rio de Janeiro destruiu o memorial em homenagem aos mortos no massacre do Jacarezinho, quando o Estado, por sua polícia, eliminou 27 vidas, rapidamente reduzidas pela mídia convencional a meros “antecedentes”. Novamente as eliminações física e simbólica se unem em torno da mesma subjetividade supremacista, que pensa ser natural a eliminação do outro, como se fosse um verdadeiro “direito a ser exercido”.

Ora sobre pretos e pobres, ora sobre pessoas doentes, ora sobre defensoras e defensores dos direitos humanos, ou ainda sobre a natureza, os sintomas de eliminação pela violência nos deixam uma mensagem clara sobre o caminho trágico de adoecimento que o país trilhará, caso não recoloquemos de volta na caixa de pandora todo o entulho autoritário que de lá nunca deveria ter saído.

Sobre a homenagem a Nise, Bolsonaro alegou “contrariedade ao interesse público”. Aos que matam Genivaldos, medalhas.

Coincidências? Acho que não!

Clóvis Bozza Neto - Defensor Público no Rio Grande do Sul

Amanda Gomes Galimberti - Empresária e acadêmica de Psicologia


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