Semana On

Quinta-Feira 30.jun.2022

Ano X - Nº 493

Poder

Redução do apoio evangélico a Bolsonaro reflete ‘preocupação maior com a vida’

Ao dizer que só Deus é capaz de tirá-lo do poder, Bolsonaro está avisando que, pela deliberação divina sumária, ele continuará presidente, de qualquer forma, contra tudo e contra todos, entrincheirado com seus filhos, seus militares e seus milicianos

Postado em 31 de Maio de 2022 - Moisés Mendes, Josias de Souza (UOL), Eduardo Maretti (RBA) – Edição Semana On

Clauber Cleber Caetano - PR Clauber Cleber Caetano - PR

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A diferença entre o número de eleitores evangélicos que indicam voto em Jair Bolsonaro e no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem caindo consideravelmente desde a eleição de 2018. Segundo a última pesquisa a explicitar a intenção de votos desse segmento, o PoderData. Realizada de 22 a 24 de maio, o estudo mostra que o atual presidente lidera no primeiro turno, entre esse nicho religioso, com 46% a 33% sobre o petista. Na pesquisa anterior (divulgada em 12 de maio) a diferença era muito maior: 52% a 25%.

Entre católicos, o quadro favorece Lula: é de 44% a 35% na pesquisa desta semana, e foi de 47% a 30% na anterior.

Porém, há muita discrepância entre as pesquisas. A do Ipespe, por exemplo, considerando período semelhante, detectou 47% a 32% para Bolsonaro no segmento evangélicos entre os dias 16 e 18 de maio. Duas semanas antes, a diferença a favor do presidente era menor (43% a 35%).

Independentemente dos números, é de se destacar a significativa redução do apoio de religiosos praticantes a Bolsonaro desde a eleição de 2018. As estimativas feitas a partir de boca de urna do Datafolha a três dias do segundo turno daquele ano indicavam que Bolsonaro tinha 69% ante 31% de Fernando Haddad entre os cristãos evangélicos.

“O que vemos hoje ainda é um número alto, significativo, que representa uma articulação importante de grupos evangélicos, especialmente lideranças, no apoio a Bolsonaro. Porém, o que se observa é uma redução no que foi o apoio em 2018 e ao longo do governo Bolsonaro até agora”, diz a jornalista Magali Cunha, pesquisadora de mídias, religiões e política do Instituto de Estudos da Religião (Iser).

A clara redução do apoio evangélico a Bolsonaro desde que foi eleito revela “uma preocupação maior dos evangélicos com a vida”, opina a pesquisadora. “É difícil seguir apoiando esse governo quando se tem que viver, pagar as contas, quando tem o desemprego, o preço da gasolina, a deterioração do sistema de saúde e educação.”

O perfil dos evangélicos é, em sua maioria, de pessoas empobrecidas da periferia, mulheres e pessoas negras, lembra Magali. “Ainda que recebam orientação da parte de lideranças, especialmente as midiáticas, que têm benefícios e articulações com o governo, não é possível para essas pessoas continuarem apoiando o governo diante da realidade da vida.” Hoje, o número de evangélicos é estimado em 30% da população brasileira.

A analista também sublinha ter havido mudanças na campanha da esquerda e sua aproximação com os evangélicos. “Tanto a campanha de Lula quanto de Ciro Gomes fazem articulações de evangélicos progressistas atuando com mais eficácia, com maior preocupação com o discurso e com a linguagem”, diz. Essas articulações buscam uma abordagem mais eficaz do eleitorado evangélico, com mudança de linguagem e mais respeito por essa população”.

Na sua avaliação, isso tende a surtir efeito. “É positivo, principalmente na aproximação das lideranças que não são as midiáticas (as corporações evangélicas que apoiam Bolsonaro), mas das que estão no dia a dia das comunidades, nas pequenas igrejas. Essas têm recebido maior atenção. Isso certamente tem e terá efeito durante as campanhas”, avalia Magali Cunha.

Por outro lado, as lideranças “midiáticas” bolsonaristas continuam trabalhando com campanha política de viés eleitoral e conteúdos carregados de desinformação sobre a esquerda, especialmente Lula, e favoráveis ao governo Bolsonaro. A “imposição do medo” é permanente. As lideranças religiosas pró-Bolsonaro fomentam a ideia de inimigos da igreja como ameaça à liberdade religiosa.

Nesse sentido, uma mudança de abordagem e de linguagem, tratando os evangélicos como cidadãos comuns, como quaisquer outros, ao invés de estigmatizá-los, é importante para evitar perdê-los para o discurso bolsonarista, insiste Magali.

O Deus fascista de Bolsonaro

Deus nunca teve responsabilidade tão grande pelos destinos da extrema direita brasileira como agora. O Deus católico, que tanto se dividiu entre esquerda e direita, sempre foi um bom coadjuvante na política.

Já o Deus de Bolsonaro, de raiz neopentecostal, é apresentado como protagonista num país em que Deus decide se um pênalti entra ou não entra e define sempre as finais dos campeonatos.

No Brasil, Deus tem sido um tarefeiro, muitas vezes convocado pelos que combatem a democracia. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que precederam o golpe de 1964, tiveram, claro, a mão de Deus.

Aquele era um Deus essencialmente católico, acostumado a apoiar as elites contra a maioria que as incomodavam. O Deus das senhoras que foram às ruas em 64 era o Deus dos ricos e da classe média carola.

O Deus neopentecostal e brasileiro de Bolsonaro foi criado, com o formato que tem hoje, pelos pastores do empreendedorismo, gestores da fé e dos dízimos de uma maioria de pobres e miseráveis. Todos sabemos do poder político e econômico dessa fé. A Justiça brasileira sabe muito bem.

Mas o Deus de 64 mobilizava contra os comunistas e garantia uma certa sofisticação religiosa aos que o inventaram. O Deus inventado por Bolsonaro, mais prático, é mobilizado diretamente contra Lula e contra o PT.

É um Deus dedicado de novo a uma empreitada, um Deus depreciado a serviço de um plano político raso. O Deus de 64 prestava-se a combater uma ameaça mundial, e o Deus da extrema direita de hoje é convocado a proteger um genocida.

Não há relato sobre a ditadura no Brasil em que os generais apresentem Deus, sistematicamente, como avalista de perseguições, torturas, desaparecimentos e assassinatos.

Os ditadores eram religiosos e iam à missa, mas tiveram o escrúpulo de não falar em nome de Deus. Eles terceirizavam essa fala. E viram que, aos poucos, o Deus das marchas das famílias e da tortura foi confrontado com outro Deus da resistência pela democracia.

A ditadura mobilizou o Deus dos que rezavam pelos torturadores, de um lado, e provocou a ira do Deus dos que se rebelaram contra a tirania e se protegeram nos evangelistas engajados às lutas sociais.

A resistência dos democratas era sustentada pela força dos cristãos antifascistas. O Deus deles era representado pelo filho do homem.

O Brasil passou a torcer por dois deuses, liderados por dois Câmaras. O arcebispo do Rio Dom Jaime de Barros Câmara, ao lado dos militares, das corolas, da imprensa, dos latifundiários e dos americanos, e o arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara, ao lado dos combatentes pelas liberdades.

E foi assim que o filho de Deus de Dom Hélder venceu, depois de muita luta, o Deus de Dom Jaime, e a democracia foi restaurada.

Mas não há hoje, com a mesma força, dentro da Igreja Católica, um Cristo que possa ser mobilizado com determinação pelos herdeiros, em posição de liderança, de um Dom Paulo Evaristo Arns ou um Dom Aloísio Lorscheider.

Não temos hoje nem o Deus destemido do rabino Henry Sobel, porque seus filhos do século 21, com raras exceções, como a representada pelos Judeus pela Democracia, se recolheram e silenciaram.

Os católicos deixaram os amigos do padre Julio Lancelotti quase sozinhos como voz do papa Francisco no Brasil. Sim, há outros, centenas de Lancelottis, mas todos abaixo das altas hierarquias da Igreja, falando alto como emissários de Francisco. Há muitas religiosas destemidas, mas sem força institucional para resistir.

Os católicos convivem com o paradoxo da liderança de um papa progressista, mas com uma igreja retraída em seus comandos no Brasil.

Por isso prospera o Deus hegemônico de Bolsonaro, que é o mesmo de Edir Macedo, Crivella e Malafaia, mas não é, pelas suas múltiplas peculiaridades, o Deus de Martinho Lutero.

Ao dizer que só Deus é capaz de tirá-lo do poder, Bolsonaro está avisando que, pela deliberação divina sumária, ele continuará presidente, de qualquer forma, contra tudo e contra todos, entrincheirado com seus filhos, seus militares e seus milicianos.

Bolsonaro ameaça com o seu Deus fascista por saber que o Deus combatente do tempo da ditadura está em recesso.

Somos ameaçados por uma figura caricata do Antigo Testamento, com a pretensão de controlar o que Deus determina. É com esse Deus acima de tudo e de todos que ele pretende ir em frente.

Não há eleição, não há democracia, não há vontade popular que possa mandá-lo embora, porque Deus deseja o voto impresso para bagunçar tudo.

Bolsonaro grita e ameaça por saber que estão quietos demais os seguidores dos evangelistas católicos.

Prevalece a versão dos evangelistas do absolutismo, que parecem ser outros personagens a orientar sua fala em nome do bem contra o mal.

Bolsonaro não busca verdade alguma. O que ele faz blefando com o golpe é abusar da omissão dos que deveriam pelo menos tentar imitar os combatentes católicos dos anos 60 até o final dos 80.

O genocida blefa por saber que os cristãos, que já estavam recolhidos, encolheram-se ainda mais diante das suas pregações. Bolsonaro está vencendo, com o seu Deus racista, homófobo, machista e golpista.

Bolsonaro deixa Deus mal com sua campanha

Bolsonaro costuma dizer quer sua Presidência é uma missão divina e que só Deus pode retirá-lo do trono. Não se sabe quando Bolsonaro passou a acreditar em Deus. Mas, embora certas atitudes do presidente não combinem com o espírito cristão, não se deve duvidar de sua conversão. Para quem já aceitou o centrão, a metafísica não parece uma adesão tão radical. O problema é que Bolsonaro deixa Deus em má situação. Sonega aos contribuintes que lhe pagam os salários e as mordomias até a mais trivial das contrapartidas: cinco horas de expediente por dia.

Bolsonaro já não separa o presidente do candidato. A própria Michelle Bolsonaro devia estar meio confusa. Não sabia se acordava com o presidente ou com o candidato. Entretanto, depois que a primeira-dama aderiu à campanha o candidato passou a prevalecer sobre o presidente sem nenhum constrangimento. Não espanta que tenha dobrado o número de viagens presidenciais nos primeiros meses deste ano eleitoral de 2022 em comparação com o mesmo período do ano passado.

Desde janeiro, Bolsonaro passou 41 dias em viagem. Os deslocamentos consumiram quase 30% do seu tempo. O presidente transforma atos administrativos em comícios. Ornamenta o álbum de suas viagens com imagens de passeios a cavalo, no lombo de um jegue, em cima de motocicletas. Encaixa na agenda visitas a cultos religiosos.

Pela lei, a campanha eleitoral só começa em 16 de agosto. Mas Bolsonaro é candidato à reeleição desde 1º de janeiro de 2019, quando tomou posse. Usa a máquina do estado como se ela fosse sua. Faz isso porque os antecessores também fizeram e porque a Justiça Eleitoral é omissa.

Um presidente da República se obriga a dar pelo menos cinco horas de expediente por dia. Nesse intervalo, precisa ler relatórios, ouvir interlocutores e encaminhar a resolução de problemas. Bolsonaro abomina a leitura, não suporta auxiliares que lhe digam coisas que não quer ouvir e terceiriza todas as ruínas.

Embora tenha recebido da sociedade um mandato para ser solução, Bolsonaro tornou-se parte do problema. Mas as pesquisas indicam que algo como 30% do eleitorado se dispõe a desafiar Deus a provar que existe reelegendo Bolsonaro.


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